29/09/2007

O Brasil visto do Mar Sem Fim

Por Redação Terceiro Nome

Durante dois anos, João Lara Mesquita percorreu a costa brasileira a bordo de seu veleiro, o Mar Sem Fim, filmando uma série para a TV Cultura. O autor produziu farta documentação fotográfica e escreveu suas impressões de viagem diariamente, fizesse chuva ou sol. O resultados estão nos dois volumes primorosos do livro O Brasil visto do Mar Sem Fim, da editora Terceiro Nome (http://www.terceironome.com.br), que trazem seus relatos e mais de seiscentas fotografias. É impossivel não se encantar com este trabalho, sem dúvida um dos maiores registros já feitos sobre a zona costeira brasileira. O livro acaba de sair da gráfica, e a foto acima é apenas para deixar um gostinho do que vem pela frente!

Leia alguns trechos do livro:

Saímos da cidade de Oiapoque em direção a Mont Dargent - uma localidade fora do estuário do rio, no lado francês -, onde pretendíamos passar a noite. Só que, umas quinze milhas antes de chegarmos, o Mar Sem Fim encalhou num banco de areia. A maré estava começando a baixar, e em alguns minutos o veleiro já estava quase "deitado" de lado, bastante adernado. Não houve jeito: tivemos que passar a noite ali mesmo.

Uma das ameaças é a enorme falta de saneamento básico. Esgotos correm soltos. No município do Oiapoque, pudemos observar que todo o esgoto dos mais de 12 mil habitantes é despejado diretamente no rio - a despeito das inúmeras placas colocadas pelo Governo do Estado e pela Prefeitura, em português e francês, pedindo aos moradores que preservem o rio, "fonte de vida".

Muitos dos velejadores que conheço, quando souberam que eu pretendia trazer meu barco para o extremo norte do país, foram enfáticos em me desaconselhar. Segundo eles, eu enfrentaria uma pauleira infernal para descer, sempre com ventos e correntes contrários.

Mais uma vez estávamos encalhados - e com a maré baixando. Em questão de segundos o rio ficou praticamente seco, e dessa vez o Mar Sem Fim chegou a deitar de lado. Foi feio e a tripulação ficou assustada.

Bem, depois de muitas milhas pelo grande canal do Vieira, entramos no furo dos Macacos. Belo caminho. Bem estreito, com matas lindas nas margens, aqui e ali uma casinha montada em palafitas, no geral bem tratadas, limpas, apesar de muito simples. Sempre que passamos defronte de alguma delas, as crianças pegam suas montarias (pequenas canoas) e remam em nossa direção. É preciso ser ágil e desviar, caso contrário corre-se o risco de afundá-las.

Felizmente, no Maranhão, as grandes ameaças estão localizadas aqui, na área do Golfão Maranhense. Ao norte e ao sul de São Luís não existem muitas indústrias e a pesca artesanal, as atividades extrativistas e a agricultura baseada especialmente em roças de babaçu, arroz, milho, mandioca e algodão são predominantes e incomparavelmente menos danosas ao ambiente.

A parte antiga de Parnaíba, a região do Porto das Barcas, tem um lindo conjunto de prédios dos séculos XVIII e XIX. Eles são do tempo em que Parnaíba era um porto importante para escoar a produção de gado, que seguia daqui direto para a Europa.

Muitos pescadores arriscam suas vidas utilizando o compressor, e dois terços dos barcos não têm permissão de pesca. Grande parte deles captura lagostas abaixo do tamanho mínimo. (na divisa do Ceará com Piauí).

(em referência ao litoral oeste do Ceará): Comentando esse assunto no diário de bordo da etapa oito, eu disse que iria descobrir o que estava por trás. Pois bem, descobri. Trata-se de uma área comprada há vinte anos, ao que parece por um grupo italiano. E pretendem construir 27 hotéis cinco estrelas ali! Quem nos falou sobre isso foi o professor Jeovah Meireles, da Universidade do Ceará.

Só no vale do Jaguaribe foram mais de 650 hectares nativos devastados. O professor Jeovah disse, ainda, que em abril de 2005 foi entregue pelo grupo de trabalho da carcinicultura o diagnóstico dessa prática no estado do Ceará. O estudo mostrou que mais de 80% das 245 fazendas estão em áreas consideradas APPs. E mesmo assim nada aconteceu.

Fernando de Noronha, que agora é quase "pelada", possuía, até o século XIX, uma pujante floresta. Quem nos conta é ninguém menos que Charles Darwin, que esteve aqui com o Beagle em sua famosa viagem que começou em 1832 e durou até 1836. Em seu diário escreveu, ao desembarcar em Noronha: "passei um dia delicioso, caminhando pelas florestas". FitzRoy, o comandante do Beagle, arrematou informando que "a lenha catada na ilha pela tripulação estava cheia de centopéias e outros insetos nocivos". Como se vê, perdurou até o século XIX o hábito de desmatar praticado pelos marinheiros.

O litoral de Alagoas é dos mais bonitos do Nordeste. A cor da água é de um verde mesclado com azul e toques de amarelo em razão dos corais, inigualável. Só em Pernambuco vi algo parecido, mesmo assim não tão vivo como aqui. A coisa é séria. Você fica horas olhando o mar e não se cansa, as cores vão mudando. Conforme o movimento do sol, os tons se misturam, há manchas brilhantes próximas de outras opacas. As profundidades se alteram, produzindo nuances sutis. O vento constante revolve as águas, e o quadro todo se mexe, ganha vida. Um pintor impressionista não faria melhor. O conjunto é soberbo.

À medida que vou descendo a costa brasileira, fico cada vez mais impressionado com a quantidade de rios assoreados no Brasil.

(já no Espírito Santo) As praias aqui já têm pouca areia e são ainda mais frágeis que as demais. Mesmo assim, parece que as cidades foram erguidas por "amantes" do mar: as ruas começam poucos metros depois da arrebentação, e a erosão se manifesta, claro. Derruba muros, calçadões, casas.

Para se ter uma idéia, de acordo com dados do IBGE de 2000, a população era de 18,2 mil habitantes que moravam nos 5,3 mil domicílios particulares. Apenas 212 deles, ou 0,04%, com rede de esgotos! (sobre Búzios e seus dados de 2006)

A situação melhora em São Paulo, apesar de o estuário de Santos estar morto e de a paisagem no Guarujá estar destruída. Cubatão - em partes - regenerou-se, e no sul do estado, a partir da Juréia, até Cananéia, na fronteira com o Paraná, uma série de unidades de conservação são o que de melhor vimos no litoral do país em termos de preservação.

A ONG que mais me impressionou é uma dessas. Formada por meia dúzia de abnegados, não tem sócios nem patrocínios. Sequer um site. Mas é uma das responsáveis pela integridade da baía de Babitonga, ao norte da costa de Santa Catarina. É a Ameca, de Ana Paula Cortez. Com disposição, espírito público e competência, essa pequenina ONG dobrou a Petrobras, colocou a prefeitura da cidade no banco dos réus (por omissão em relação ao saneamento básico) e conseguiu a dificílima, e rara, demolição de construções irregulares.

Iniciamos essa manhã nossa última navegada: daqui para Rio Grande, através da lagoa dos Patos, numa distância aproximada de 140 milhas. Bastou o dia clarear para sairmos. Eu estava apreensivo. Navegar na lagoa dos Patos tem seus riscos. A área de 10 mil quilômetros quadrados é bem rasa - tem em média sete metros de profundidade. Quando entra o sudoeste é um deus-nos-acuda. Formam-se ondas altas e curtas, tudo o que um barco não precisa. Mas o tempo estava bom e seguimos nosso destino. Logo no início cruzamos com vários navios.

Nem bem deitei e senti o veleiro dar uns trancos fortes e esquisitos. Levantei correndo e percebi, horrorizado, o Marzão cercado por toras de madeira, imensas, que estavam sendo carregadas, puxadas por um barquinho, como se faz nessas paragens. (na foz do Amazonas)

Hoje navegamos em volta de Fernando de Noronha para fazer imagens de todos os ângulos possíveis. Fizemos essa volta no motor e demoramos cerca de três horas para percorrer dezoito milhas em torno da ilha principal. Depois da circunavegação gravamos com todas as velas abertas. Primeiro usamos a genoa (vela de proa usada quando o veleiro navega no sentido inverso ao do vento) e depois a vela balão (também uma vela de proa, mas usada quando o vento está a favor), e essas duas tarefas nos tomaram quase o dia todo.

É impressionante como foi rápido o sumiço do saveiro - fantástico barco tradicional que fez parte da história da Bahia e acabou imortalizado nos romances de Jorge Amado.


(Envolverde/Terceiro Nome)

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