Nova avaliação, novos coordenadores
Por Renato Marques
Entrada em vigor do novo sistema de avaliação irá mudar rotina das IES.
Quando o MEC (Ministério da Educação) anunciou que implantaria um novo sistema de avaliação do Ensino Superior, muitos acreditavam que era apenas uma substituição ao "Provão", criado no governo Fernando Henrique. Hoje, com o sistema em funcionamento, pode-se perceber que as alterações foram além da criação de uma nova prova - que, aliás, é a parte mais criticada. Com a implantação de todos os instrumentos do Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior), o ocorrerá no segundo semestre, a rotina das instituições será alterada, em especial a dos coordenadores de cursos.
Este contexto foi o tema do seminário "O impacto da Nova Avaliação do MEC para o Coordenador de Curso", ocorrido ontem em São Paulo. Segundo Ana Cristina Canettieri, diretora-geral da CADEC (Consultores Associados de Educação), responsável pela apresentação do tema, a partir de agosto as comissões do ministério irão às instituições já com os novos parâmetros estabelecidos. "A todo momento o MEC tem 'novidades' para os coordenadores. E, a partir de agora, seremos obrigados a trabalhar com a concretização da nova lei de avaliação", disse.
O tema tem provocado grande movimentação no Ensino Superior. Não apenas porque mudou os métodos de avaliação, mas porque passa a exigir que os coordenadores de curso tenham uma postura mais voltada para a gestão, reduzindo a importância da titulação para a função. Assim, o que se estabelecia como uma exigência do mercado, para as instituições particulares, principalmente, surge como um posicionamento oficial.
Nesta nova configuração, o coordenador, além do conhecimento acadêmico-pedagógico, precisa conhecer a legislação do setor, se adaptar à técnicas de gestão, e passa a ser responsabilizado diretamente pelo mau desempenho nas avaliações oficiais - o que, agora, pode levar ao descredenciamento. "Acredito que é uma necessidade que o coordenador tome uma postura voltada à gestão e é preciso que se invista nisso. Mas também é algo que sobrecarrega muito a função do coordenador", disse ao Universia a coordenadora de um dos cursos de pós-graduação da Unisa (Universidade de Santo Amaro), Kátia Stracieri d'Oliveira.
"Hoje, dois terços da rotina semanal do coordenador são ocupados com o atendimento às exigências legais, para dar validade ao curso", acrescentou Ana Cristina. Na prática, o que muda de agora em diante é a necessidade que o PPC (Projeto Pedagógico do Curso), definido e administrado pelo coordenador, reflita o planejamento global da instituição, expresso no PPI (Projeto Pedagógico Institucional) e no PDI (Projeto de Desenvolvimento Institucional). Para tanto, o MEC alterou as regras de avaliação da instituição, do curso e do próprio coordenador.
"Sempre tive muitas críticas ao novo processo. Hoje, depois de compreender melhor, ele me parece muito positivo em alguns pontos, em relação ao envolvimento institucional do coordenador, da avaliação em loco e da padronização dos instrumentos de avaliação", afirmou coordenador do curso de Administração da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), Manuel da Cunha Peixoto. "Inclusive, isso regionaliza ou, mais ainda, individualiza a avaliação. Essa é uma grande preocupação no nosso curso. Para nós, isso vai ser muito significativo."
Novo perfil do coordenador
Segundo Ana Cristina, esse momento exigirá praticamente um 'novo' coordenador de curso. Durante sua apresentação, a diretora da Cadec apresentou quatro principais competências exigidas do profissional nesta nova avaliação:
* Conhecimento de legislação: como o credenciamento e a renovação da autorização de funcionamento dos cursos estará ligada à avaliação, será preciso que os coordenadores conheçam profundamente os instrumentos de regulação. Para ela, isso pode causar problemas em áreas muito técnicas e para docentes que tenham dificuldades em lidar com o emaranhado de leis do Ensino Superior;
* Compromisso institucional: como dito anteriormente, o PPC não poderá mais ser uma peça isolada na estrutura da universidade. Sua articulação com o planejamento global terá peso relevante na avaliação da instituição. Portanto, é preciso que o coordenador conheça bem os planos da instituição para que o PPC seja um elemento que colabore na execução das propostas;
* Gestão da viabilidade econômico-financeira: naturalmente, não é preciso substituir as funções da diretoria financeira. Mas é preciso conhecer as causas de desperdício para evitá-las. "Muitas vezes, as IES (instituições de Ensino Superior) gastam um grande volume de recursos na divulgação de um curso e ele tem notas ruins. Então, o dinheiro gasto nessa campanha é jogado fora", exemplificou Ana Cristina;
* Desenvolvimento comportamental: essa, na verdade, é uma competência que os coordenadores já 'deveriam' ter - a capacidade de gerenciar uma equipe. Saber lidar com um grupo de pessoas, trabalhar a comunicação para que seja eficaz, motivar os funcionários e ter flexibilidade. "E também é preciso manter o 'bom humor', no sentido de ter uma regularidade emocional no trato com os docentes", acrescentou Ana Cristina.