"Nós somos jovens, jovens"
Por Renato Marques
Pesquisa realizada pela MTV aponta o perfil do jovem brasileiro. Educadores debatem a questão.
Como é o jovem brasileiro? Uma boa parte da resposta para a pergunta, bastante comum entre pais e educadores, foi apresentada nesta quarta-feira (30), para um grupo de docentes na Faculdade IBTA, em São Paulo. A ferramenta para encontrar a solução foi a pesquisa Dossiê Universo Jovem, realizada pela MTV, com 2.359 pessoas entre 15 e 30 anos. O resultado talvez não tenha ficado muito distante do esperado: cada vez mais os jovens e adolescentes brasileiros estão ficando individualistas, vaidosos, antenados com a tecnologia e liberais.
Ao apresentar o resultado da pesquisa, a intenção da instituição era coletar a opinião de educadores, desde docentes do Ensino Médio até o Superior, passando pela Educação Profissionalizante. Estes, acostumados a lidar diariamente com os jovens, foram confrontados com os números que apontam a mudança crescente no perfil dos alunos. Os debates foram abertos pelo professor do IBTA, Gilberto Mariot, que conduziu as discussões.
Segundo ele, este perfil se revela diariamente nas salas de aula. Mariot contou um caso interessante, que mostra boa parte desta mudança. O professor relatou que, no dia da aprovação da chamada "MP do Bem", achou fundamental levar o tema para a classe. Sem material pronto para fazer a apresentação, decidiu escrever na lousa o texto. Quando terminou, não havia nenhuma movimentação na sala.
"Então decidi dizer a eles que aquele era um texto importante, que cairia na prova. Era algo que mudava boa parte das apostilas utilizadas em sala", contou. "Foi aí que ouvi um aluno me pedindo licença. Achei que ele ia começar a copiar, mas ele apenas puxou o celular e fez uma foto da lousa." A experiência mostra a que ponto a tecnologia chega na vida dos jovens. Segundo os dados da pesquisa, 55% dos entrevistados acreditam que a Internet melhora os relacionamentos.
Isso porque eles conhecem, e operam tranquilamente, as ferramentas da web. Basta ver que 59% deles conhecem os blogs; 51% sabem o que são fotologs; 71% conhecem programas de comunicação instantânea (dados que aumentam quando a faixa etária diminui). Outra ferramenta da tecnologia importante é o celular - 96% dos que responderam à pesquisa utilizam o celular para fazer ligações e 79% mandam mensagens SMS, os populares "torpedos".
A presença intensa da tecnologia na vida dos jovens mudou a relação com os docentes na sala de aula. Um consenso entre os educadores presentes é de que, atualmente, a postura dos alunos é muito mais acomodada. "Não espere que o aluno faça anotações em aula. Ele quer que o professor salve o arquivo e mande pela Internet. Se isso não acontecer, ele passa a enxergar o docente como um troglodita", disse Mariot.
Indo além da sala de aula
O grande debate da noite, no entanto, que surgiu a partir dos dados apresentados, foi a respeito da postura do professor. A discussão se iniciou após a colocação de um educador da platéia que lembrou que as características apresentadas pela pesquisa não têm se limitado à sala de aula. Assim, os mesmo jovens que "fotografam a lousa", levam todos os seus conceitos para o mercado de trabalho e, também, para sua própria vida pessoal.
Assim, vemos jovens que enxergam as drogas como algo comum, próximo - 94% dos pesquisados enxergam assim. Além disso, 60% acreditam que a beleza abre oportunidades, dando origem à classificação de "geração da imagem", dada por Cláudio Prado, da MTV, também presente ao evento. E, cada vez mais, estão liberais - 11% já beijaram pessoas do mesmo sexo e 53% dos entrevistados já ficaram com mais de uma pessoa na mesma noite.
Diante desse cenário, os professores discutiram a importância de procurar orientar o jovem, indo além das paredes da classe. Para um jovem professor, identificado apenas como Flávio, o docente não pode se furtar à necessidade de ajudar a formar pessoas melhores no futuro. "Não acredito que os professores devem apenas passar a matéria na lousa e pronto. É preciso ajudar, orientar. Tentar ajustar a perspectiva deles para o mercado de trabalho", disse. "Não me conformo apenas em dar a matéria e pronto."
Mais do que um novo jovem, a situação exige também um novo professor. Como se adaptar, então, sem perder seus próprios valores? Convivendo ainda em um modelo de aula herdado do século XII, segundo palavras de Mariot, como pode o professor interferir na realidade de seus alunos? Embora muitas perguntas tenham ficado no ar, a necessidade de mudança e adaptação foi a grande constatação do evento.
"É um mundo que assusta um pouco a gente. E, se não pegarmos essa onda, vamos ficar para trás", reconheceu uma professora de Ensino Médio presente na platéia. "Muitos acreditavam que esse liberalismo e avanço tecnológico dos alunos era apenas moda. Mas algumas coisas estão mudando de maneira definitiva. Elas chegaram e se estabeleceram. Nós é que vamos passar", finalizou Mariot.