16/05/2008

No RJ, jornal comunitário promove a integração de 132 mil pessoas

Por Paula King, do Aprendiz

Integrar todas as comunidades do bairro, resgatar a identidade coletiva de seus moradores, promover o trabalho de movimentos sociais, contar as histórias da região e transformar os leitores em participantes ativos do local. Essas são as principais missões do jornal comunitário O Cidadão, que circula gratuitamente no Complexo da Maré, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro (RJ).

O jornal nasceu e cresceu no coração do maior conjunto de favelas da cidade. De acordo com o Censo Maré - relatório elaborado pelos próprios moradores que reuni dados qualitativos sobre a situação sócio-econômica do local -, o Complexo concentra 132 mil habitantes. O bairro, reconhecido como tal em 1994, é muito popular no país. Sua fama, entretanto, é conseqüência dos precários indicadores sociais que caracterizam o conjunto de 16 comunidades.

Segundo a editora do jornal Cristiane Barbalho, o jornal é fruto da vontade de suprir a ausência de um projeto de comunicação voltado para o bairro. Com uma tiragem média de 20 mil exemplares mensais, o projeto é uma iniciativa do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM), organização sem fins-lucrativos, organizada pelos próprios moradores do complexo.

A publicação é custeada por outros projetos da ONG e parte da renda vem de anúncios feitos por pequenos comerciantes e empresas da Maré.

De caráter educativo, o jornal é capaz de promover o resgate da cultura e da tradição das comunidades. Uma rápida olhada em suas páginas e o morador facilmente reconhece lugares e pessoas comuns do seu dia-a-dia.

Aprendiz – Como nasceu o jornal?

Cristiane Barbalho - O jornal existe desde 1999 e foi concebido pelo CEASM, a partir da idealização de um sistema de redes na comunidade. Uma delas era a de comunicação e a primeira proposta foi o jornal comunitário.

Na época, O Cidadão era produzido essencialmente pelos moradores. O jornalista responsável e o editor eram pessoas de fora da Maré. Os primeiros integrantes tiveram bastante dificuldade, pois era necessária a formação de uma equipe para o desenvolvimento do trabalho. Além disso, pelo fato do veículo ser novo na comunidade, havia dificuldade de conseguir o reconhecimento dos moradores e anunciantes.

Aprendiz – Hoje, o que os moradores do bairro da Maré falam do jornal?

Cristiane - Há alguns anos foi feita uma pesquisa entre os moradores que constatou que a população se identifica com o veículo. Além disso, muitos trabalhos acadêmicos demonstram o mesmo.

Aprendiz - Quais são os temas mais comuns publicados no jornal?

Cristiane - A maior parte do que é publicado faz referência a fatos que ocorrem na comunidade e fazemos matérias com acontecimentos externos à comunidade e que interferem de alguma forma na vida do morador. O objetivo é mostrar aos moradores as coisas que acontecem dentro da própria comunidade e que muitas vezes eles não conhecem, além de desenvolver o senso crítico por meio de matérias mais amplas e profundas.

Aprendiz - Quais são os desafios de produzir um jornal comunitário?

Cristiane - O desafio é o jornal se colocar como a voz do povo, a voz do cidadão. Muitas vezes as comunidades populares são retratadas apenas de forma pejorativa pelos veículos da grande mídia. Nosso objetivo é mostrar o outro lado dessas comunidades, pois não há somente violência nesses locais.

Aprendiz - O jornal leva informação e pauta o diálogo na comunidade. Como vocês vêem esse papel que o jornal O Cidadão tem em relação com o bairro da Maré?

Cristiane - É uma grande responsabilidade, pois tudo que é publicado nele é tido como verdade. Por isso, é necessário que as informações sejam bem apuradas para que nenhum mal entendido aconteça.

Aprendiz – Como é feita a coordenação do projeto?

Cristiane – Atualmente, nós não temos coordenador direto, sendo as decisões tomadas em forma de colegiado. O projeto tem um editor, um jornalista responsável e um administrador. Além disso, temos os colaboradores que são alunos e ex-alunos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), instituição com a qual mantemos uma estreita relação.

Aprendiz - Quem escreve as matérias? Como elas são pautadas?

Cristiane - As matérias são escritas e apuradas pelos repórteres que são moradores da comunidade. Elas são decididas em reunião de pauta que acontece uma vez por mês. Os próprios repórteres trazem sugestões e algumas são dadas pelos próprios moradores que ligam para a redação.

Aprendiz - Como funciona o dia-a-dia na redação?

Cristiane - Após a reunião de pauta é definido o espelho do jornal. A partir desse momento temos o número de caracteres das matérias bem como os possíveis locais das fotos, títulos etc. Com essas informações os repórteres podem desenvolver as matérias e, caso seja necessário, fazemos a alteração de espaço, mas isso é resolvido com a editora. Também buscamos manter uma periodicidade mensal, porém nem sempre isso é possível porque o projeto dispõe de poucos recursos.

Aprendiz - O que ele trouxe de positivo para a comunidade?

Cristiane - Acredito que o jornal seja uma representação da Maré, mostrando acontecimentos e fatos que fazem parte do dia-a-dia do morador. Ele funciona como uma ferramenta importante de integração do bairro.


(Envolverde/Aprendiz)

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