19/08/2006

Não se maltrata um amigo!

Por Cláudio Ferreira (*)

Quatrocentos e setenta mil livros estão à sua espera em uma das maiores bibliotecas da cidade. Ela fica ali, imponente, logo abaixo da Entrada Norte do Minhocão. Tem um horário de funcionamento bastante elástico, tem locais próprios para o estudo – individual ou em grupo – e tem um clima de troca de conhecimento que é inigualável.

Então por que a gente maltrata tanto os livros desta biblioteca? Por que não cuidamos com carinho desses que nos auxiliam desde as primeiras aulas do curso básico até os momentos mais delicados do Doutorado? Basta dar uma vasculhada por cima nas estantes para constatar a ação dos vândalos. Na verdade, vândalos egoístas, que usam os livros da biblioteca como se fossem propriedades particulares. Nem se lembram que muita gente vai procurar os volumes depois – e que gostaria de encontrá-los intactos.

A “arte” mais comum é sublinhar as partes mais importantes do texto. Livros de todas as áreas trazem estas marcas: do Gado Leiteiro, do Dr. Walter Batistton ao volume da Enciclopédia Barsa que ganhou linhas extras no verbete dedicado à Epopéia, poema narrativo longo.

Alguns exageram no destaque: o livro Planejamento e Controle de Projetos, editado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) está todo marcado em vermelho e Introdução à História da Filosofia, de Marilena Chauí, sofreu a ação da caneta amarela.

Outros pensam que somos burros. Na História e Ideologia, de Francisco Iglesias, não basta o texto sobre o colonialismo nos séculos XVIII e XIX destacar alguns itens – o leitor fez questão de circulá-los. Em As Marcas do Visível, de Fredric Jameson, sobre cinema, chaves (aquele sinal das equações) marcam parágrafos.

Não se respeita nem os grandes nomes. Um volume de Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio de Almeida, tem o nome “Deise” escrito em quase todas as páginas da introdução. No exemplar de Emílio ou da Educação, de Jean-Jacques Rosseau, há uma rasura a cada dez páginas. Título e nome do autor, nas páginas internas, estão circundados, com as palavras “título” e “autor” escritas a lápis, nos avisando o óbvio.

Há quem use os livros como blocos de anotações. Em Finanças Públicas, de José Matias Pereira, o “infeliz” (como diriam meus parentes pernambucanos) anotou nas primeiras páginas o lembrete “Constituição Federal, artigos 165 a 169”. Só de raiva, não vou consultar a Carta Magna! Na primeira página de A Técnica Literária e Seus Problemas, de C.M. Bonet, uma lista que inclui as palavras “verve”, “hermetismo”, “melros” e “propalar”. Como a última tem escrito o sinônimo ao lado (“divulgar”), presume-se que este é o rol de dúvidas do cidadão.

Os “pichadores de livros”, vamos chamá-los assim, são ecumênicos: na estante dedicada a religiões, há rabiscos no livro Introducing Buddhism e num volume sobre Islamismo. Já no livro Cristo, do Princípio ao Fim, do padre Virgílio, há desabafos como “eu não estou mais agüentando” e “é tanta coisa ruim que eu não sei mais o que fazer”.

Um rápido exame na sessão de referência mostra que enciclopédias e dicionários são mais “poupados” do que os outros volumes. Será que é porque sabemos que precisamos deles sempre, que somos mais ignorantes do que aquele conjunto de palavras e significados? Se é assim, por que não criar este respeito pelo resto da biblioteca? Fica a reflexão e a campanha pela preservação da higiene dos nossos melhores amigos.

(*)Cláudio Ferreira é jornalista e ex-aluno da UnB.
Ilustração: Santiago Mourão / Bacharel em Artes Plásticas pela UnB

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