24/07/2007

Não há diferença de inteligência entre meninos e meninas

Por Julia Dietrich, do Aprendiz

"Meninos e meninas são igualmente inteligentes. Cabe ao educador perceber como a sociedade constrói a divisão de gênero em relação às capacidades para abolir as diferenças e trabalhar com a criança individualmente".

A conclusão é da psicóloga especialista em inclusão escolar Laura Battaglia Pires Cavalcanti, que publicou os resultados de sua pesquisa sobre inteligência em relação ao gênero em artigo de recente edição da revista Mente e Cérebro, intitulada "A trégua dos sexos".

O estudo nasceu em 2003, quando o jornal Folha de São Paulo publicou uma reportagem na qual eram apresentadas pesquisas norte-americanas que apontavam que os meninos eram menos inteligentes que as meninas. Até hoje, especialistas apóiam a idéia de abrir nos Estados Unidos escolas exclusivas para cada gênero, justificando que os meninos se sentiriam menos ameaçados pela inteligência da mulher. "Não conseguia acreditar nesse argumento e na mesma época comecei um estudo sobre o tema", lembra Cavalcanti.

Para ela, a questão está justamente na forma como o professor lida com o gênero de seu aluno e não em uma divisão entre meninos e meninas. "A criança é construída por sua família, pela própria escola e pela sociedade. Ela reflete posições desses diversos setores, mas deve ser vista como indivíduo único com características sempre singulares. Ele tem que sair do seu modelo e da padronização na forma de ensinar e de avaliar o aluno individualmente para agir como inspirador do conhecimento", observa.

Entre outras pesquisas e trabalhos, a pesquisadora destacou um estudo no qual professoras do Ensino Fundamental I avaliaram de forma diferente o comportamento de meninos e meninas. "Enquanto os meninos são bagunceiros, as meninas são traquinas. Se falta capricho nas lições, os meninos são relapsos e as meninas desatentas", verifica, insistindo na diferença semântica dos termos. "Quando uma menina cresce e passa a agir de forma mais sedutora, na visão dos professores ela deixa de ser tão boa aluna quanto antes", conta sobre as possíveis impropriedades de vocabulário no ato de educar.

Segundo a pesquisadora está em curso uma mudança da visão da sociedade em relação à posição da mulher. "A partir da 1ª guerra mundial, e mais fortemente com o advento do feminismo, as mulheres que antes estavam restritas ao espaço familiar, passaram, paulatinamente, a ocupar outras posições sociais, incluindo a escola", verifica, lembrando que o quadro é bastante similar na história da educação infantil e fundamental. "90% do quadro de professores é composto por mulheres que também estão se entendendo neste novo espaço social", conta.

Cavalcanti insiste que é necessário compreender a subjetividade do simbolismo do papel da mulher na hora de transmitir a educação. "O que mudou tem um impacto em toda a sociedade e conseqüentemente na hora de passar valores aos outros e educar os jovens", nota. Do ponto de vista psicanalítico, a pesquisadora conclui que a diferença do aproveitamento dos meninos e das meninas na escola compreende questões da superação feminina e da feminilidade em si. "Como esta professora se vê como mulher vai influenciar na forma com que ela lida com a divisão de meninos e meninas na sala de aula", explica.

Para resolver as possíveis impropriedades na hora de educar, a psicóloga aponta que o educador não deve dividir a sala em grupos orientados pelo gênero. "A inteligência não pode estar comprometida em determinada categoria. Toda a criança é capaz de aprender tudo. Depende só da forma de ensinar", completa, insistindo que os dados das pesquisas de aproveitamento escolar verificam um fenômeno social e não uma qualidade genética dos gêneros.
(Envolverde/Aprendiz)


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