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Por Antoaneta Bezlova, da IPS
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Pequim, 23/10/2009 – Feng Danya estudou vários idiomas. Esperava trabalhar em uma empresa chinesa em expansão e crescer com ela, mas não era o momento adequado. Formou-se no último verão, em meio à crise econômica mundial. “Agora trabalho em uma loja de frios italiana vendendo carne e queijo", disse abatida. “Tento manter o meu inglês em dia com os estrangeiros que de vez em quando vêm comprar aqui. Tentei a sorte em muitos outros lugares onde ao menos pudesse usar meu diploma, mas foi em vão”, acrescentou.
Ao menos Feng tem emprego. Com um modesto salário mensal equivalente a US$ 205 e vivendo com seus país, pode continuar buscando algo melhor. Mas, muitos de seus colegas da universidade ainda sem trabalho lotam feiras profissionais e centros de recrutamento. Um informe apresentado em setembro pela Academia Chinesa de Ciências Sociais diz que os salários dos que têm diploma estão hoje no mesmo nível do que é pago aos trabalhadores migrantes, e que chegam, inclusive, a ser menores.
A notícia foi um golpe para muitos país e jovens com ambições, em um país onde durante séculos se orgulhou de cultivar uma intelectualidade de elite. “Que sentido tem investir tanto esforço e tempo para conseguir um diplomauniversitário se no final de tudo o que se consegue é o salário de um trabalhador migrante?”, perguntou Wang Lefu, que estudou administração de empresas. “Não havia motivo para me preocupar com exames e toda a burocracia”, afirmou.
Sem poder encontra um trabalho ao seu gosto, Wang agora tenta prosseguir os estudos no exterior. Seus país administram sua própria empresa e podem pagar-lhe curso na Grã-Bretanha ou Austrália. “A educação daqui deveria servir para algo mais”, afirmou Wang, que espera conseguir um emprego que lhe permita voltar a radicar-se na China mas ganhando um salário estrangeiro. “Em um ano a crise econômica deverá ter terminado. Então será mais fácil conseguir trabalho”, disse.
A recessão mundial exacerbou na China uma séria crise do mercado de trabalho, gestada durante anos. Poucos acreditam que desaparecerá com os primeiros sintomas da recuperação global. O desemprego oficial nesse país chega a cerca de 4% da população economicamente ativa. Mas, um grande grupo de trabalhadores (os 150 milhões de operários migrantes, normalmente chamados de população flutuante) não soa levados em conta no cálculo desse indicador.
Estima-se que quando a crise começou, no ano passado, diminuindo os fluxos comerciais e os pedidos de compra para as fábricas chinesas, cerca de 20 milhões de migrantes perderam seus empregos e voltaram aos seus lugares de origem. A pressão para resolver as tensões do desemprego nas áreas rurais este ano deixou ainda mais difícil as coisas para Pequim, onde cada vez significa mais esforço encontrar trabalho para a grande quantidade derecém-formados. Cerca de 6,1 milhões de graduados chegaram ao mercado de trabalho neste verão boreal, 540 mil a mais do que no ano passado.
Em 2008, o emprego entre os graduados foi inferior a 70%. Prevê-se que quase dois milhões entre eles, muitos com título de pós-graduação, estarão fora do mercado de trabalho ao final deste ano. Estudantes da província de Guangdong, a mais rica do país, estão desesperados por trabalho. A tal ponto que muitas jovens se candidataram para trabalhar como babás e não foram aceitas, informou a imprensa local no começo do ano. Empregadores ricos preferem moças camponesas com experiência e não as que falam inglês formadas em administração de empresas, segundo moradores de Guangdong.
Em seu “Livro verde da população e o trabalho 2009”, publicado em setembro, a Academia Chinesa de Ciências Sociais avalia que a falta de operários capacitados, em oposição à crescente quantidade de graduados, criou uma tendência anômala, pela qual os profissionais universitários recebem o mesmo, ou menos, do que os migrantes. Pequim, onde Feng consegue seus US$ 205 mensais, é uma das cidades mais caras da China. Mas o informe conclui que os migrantes do meridional cinturão regional da China podem ganhar até US$ 220 por mês.
“Definitivamente, é uma tendência. Por um lado, isto ilustra como nosso mercado de trabalho ficou mais integrado. Por outro, preocupa o tanto que se tornou feroz a competição pelo emprego”, disse Cai Fang, do Instituto de Pesquisas sobre População e Economia do Trabalho, vinculado à Academia Chinesa de Ciências sociais. Os graduados universitários sentem-se frustrados, e seus país também. Muitos deles investiram as economias de toda a vida para que seus filhos únicos conseguissem um diploma. Muitos acusam o governo de destacar a educação superior entre os requisitos para que os jovens prosperem na China do século XXI, sem lhes dar, ao mesmo tempo, oportunidades de emprego.
A superoferta de graduados universitários começou em 1999, quando as autoridades chinesas decidiram enfrentar alguns dos efeitos da crise financeira asiática da época incentivando as matrículas nos centros de estudos terciários. Esperavam que uma geração de habitantes urbanos endinheirados e educados estimularia o consumo interno e ajudaria a reduzir a dependência das exportações. As matrículas aumentaram rapidamente, de 3% dos estudantes em idadeuniversitária na década de 80 para 20% atuais. A tendência coincidiu com um esforço notório do governo para passar de uma economia manufatureira para uma baseada no conhecimento.
Mas, mesmo em um período de auge econômico e criação de empregos Pequim teve de fazer esforços extremos para colocar seu crescente exército de graduados no mercado de trabalho. Muitos profissionais universitários chineses se destacam em áreas como ciências informáticas, direito e contabilidade, mas a demanda real se concentra em áreas técnicas específicas. A situação piorou ainda mais com a crise financeira mundial, que determinou um congelamento das contratações e uma crise de liquidez que, por sua vez, freou o conhecimento das empresas.
No começo deste ano, o governo chinês lançou um chamado a todos os níveis da administração pública para combater o desemprego, particularmente entre osrecém-formados. Este ano completaram 20 do massacre de estudantes pró-democráticos na praça Tiananmen, em Pequim, e as autoridades temiam que o mal-estar dos graduados pela falta de trabalho causasse distúrbios sociais. Enquanto a economia mundial dá sinais de recuperação e ,os especialistas chineses já tracem estratégias de “saída” da crise, o desemprego continua sendo penoso.
“Os universitários recém-formados e os migrantes figuram entre os grupos sociais mais afetados pela crise”, admitiu o ministro de Recursos Humanos e Assistência Social, Yi Weimin, em uma conferência no mês passado dedicada a analisar o informe da Academia. É hora de os jovens diplomados reduzirem suas pretensões e perceberem o potencial de empregos antes desatendidos, mas bem pagos, disse à imprensa. “Como consequência da crise haverá uma mudança nos valores de nossos formandos”, disse o ministro. IPS/Envolverde
* Este artigo foi elaborado pela IPS Ásia-Pacífico como parte de uma série sobre o impacto da crise econômica mundial em crianças, e jovens, em associação com o escritório Ásia-pacífico do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
(Envolverde/IPS)
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