25/05/2006

Movimentos sociais têm destaque na pesquisa acadêmica, mas não na mídia

Por Fábio de Castro

A pesquisa acadêmica na área de Comunicação tem dedicado muitos estudos aos movimentos sociais, mas este interesse não se reflete nas páginas dos jornais e nas TVs. Esta foi uma das constatações da professora gaúcha Christa Berger (Unisinos - São Leopoldo - RS), na palestra Pesquisa Acadêmica e Movimentos Sociais, apresentada na última sexta-feira (19) na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP).

“Os movimentos sociais têm propiciado muitas possibilidades de estudos. Temos correspondido, mas não temos conseguido refletir este interesse nas redações”, comentou Christa durante o evento promovido pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo e Construção da Cidadania, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da ECA-USP.

Para Christa, autora do livro Campo em Confronto: a Terra e o Texto, a pesquisa acadêmica começou a se debruçar na questão social já no fim dos anos 70, coincidindo com a criação da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) em 1977. “Sou da geração que trouxe para a academia as questões de militância. Tratava-se de gente que viveu aquele período negro da ditadura militar. Eram militantes que vinham para a universidade estudar aquilo no que já tinham participação”.

Questão da cidadania pauta as pesquisas
O estudo dos movimentos sociais sob a perspectiva da Comunicação aparece hoje, segundo Christa, sob o signo do conceito de cidadania. “Se nos anos 60 o epíteto das posições progressistas era o ‘novo’, de bossa nova e cinema novo, nos anos 70 o ‘popular’ e nos anos 80 o ‘alternativo’, na atualidade vivemos o momento da ‘cidadania’”, diz.

Para a professora, que realizou sua pós-graduação na ECA, a questão de ser membro da comunidade onde se vive é fundamental na sociedade atual e isto se reflete nos estudos de Comunciação. “Os problemas do direito de pertencer têm pautado a pesquisa acadêmica na área”.

Christa identifica três tipos de pesquisa mais freqüentes: o estudo sobre o discurso dos movimentos sociais (como análise de conteúdo) é um deles. “O acervo do MST tem o maior número destes trabalhos”. Os outros dois tipos de estudos se debruçam sobre a relação dos movimentos sociais com a mídia e a relação entre novas tecnologias e movimentos sociais (novas formas de ativismo político articulado com a web). “Nestes dois casos também há predominância do MST como objeto de estudo, já que é o movimento que melhor se midiatizou”, explica.

A pesquisadora identifica também uma lacuna nos temas de pesquisas: os estudos sobre a condição de usuários de comunicação. “Fala-se pouco sobre a cidadania comunicativa, com o usuário ocupando não a posição de consumidor, mas de sujeito que reconhece a condições pública da comunicação nas sociedades midiatizadas”.

Criminialização dos movimentos sociais
Enquanto os estudos de comunicação colocam os movimentos sociais em primeiro plano, a grande imprensa cobre mal o assunto, segundo a pesquisadora, inclusive criminalizando os movimentos. Ela mencionou como paradigmático a ação de mulheres camponesas do MST contra um laboratório da empresa de celulose Aracruz no Rio Grande do Sul.

“A ação foi destaque nas manchetes como uma agressão unilateral, violenta e irracional. Mas não houve contextualização”, diz Christa. A professora menciona que no mesmo momento acontecia no Estado uma reunião da Confederação da Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, que contextualizaria as reinvindicações do grupo de camponesas. “O evento tinha todos os critérios de noticiabilidade, mas a imprensa não deu”, afirma.

O episódio foi analisado por um grupo de alunos da UFGRS, coordenado por Christa. “Um dado interessante da análise é que a mídia usou exclusivamente fontes oficiais. Ninguém dos movimentos sociais apareceu. O que observei foram as informações que faltaram para caracterizar jornalismo. Não houve contextualização”.

As questões relativas à polêmica implantação de usinas de celulose – que também motiva protestos na Argentina e Uruguai – foram negligenciadas em favor da espetacularização, segundo a pesquisadora. “O que ficou foi só a violência e perspectivas do prejuízo econômico. Não foram ouvidos ambientalistas e a agência de jornalismo ambiental que em novembro de 2005 havia feito seminário sobre plantio de eucalipto, por exemplo”.

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