Movimento quer tornar obrigatório ensino de Música
Por Karina Costa, do Aprendiz
Ao invés de um professor de Educação Artística polivalente, responsável por transmitir aos alunos conhecimentos das várias Artes - Teatro, Música, Dança, Artes Plásticas -, um professor específico para Educação Musical. Esta é a proposta de um projeto de lei sugerido por um movimento de educadores musicais do Brasil. Se aprovado, alunos da educação infantil, ensino fundamental e médio, de escolas públicas e particulares, passarão a estudar música dentro do currículo escolar formal.
"Um único professor para tratar sobre todas as Artes torna o ensino superficial. Arte é necessidade, não luxo. Hoje, a música é inserida na escola de forma medíocre, para animar festas ou como passatempo dos intervalos das aulas", explica o presidente da Associação Brasileira de Educação Musical (Abem), Sérgio Luiz Ferreira de Figueiredo, integrante do Manifesto pela Implementação do Ensino de Música nas Escolas, liderado pelo músico Felipe Radicetti.
Aulas de canto, instrumentos musicais ou formação de orquestra? Música erudita, popular ou regional? Nada está decidido, segundo Figueiredo. "Se aprovado, uma ampla discussão será promovida sobre o assunto. A idéia inicial é que haja uma parte da grade curricular comum e que outra priorize a cultura local", explica.
Figueiredo lembra que o fato da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) dar autonomia para que as escolas decidam seu projeto pedagógico pode ter contribuído para a não abordagem da música nas escolas. "Além disso, é complicado discutir educação em artes com diferentes gerações de professores palpitando, lembrando que muitos nunca tiveram essa experiência quando estudaram. O discurso sobre educação é avançado, mas a prática é lenta", critica.
"Falta vontade política, por isso as aulas de música não acontecem nas escolas. Os adolescentes precisam de um canal de expressão e essa possibilidade é praticamente vedada nas escolas. Os alunos do ensino médio, por exemplo, são formados para uma visão estreita para o vestibular", lembra a professora do Departamento de Artes e Comunicação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Ilza Zenker Leme.
Se inseridas nas escolas, as aulas demandariam professores mais experientes. Por isso, Leme acredita que as universidades têm grande compromisso com esse projeto. "As universidades, principalmente públicas, precisam se apropriar da idéia. Elas não podem se dar ao luxo de formar especialistas que vão fazer carreira fora do país, mas sim despertar o interesse para entrarem nas instituições educacionais, essencialmente da periferia".
Independente do projeto de lei, que ainda está em tramitação, cidades como Franca, Santos e Mogi das Cruzes, no estado de São Paulo, já têm o ensino de música no currículo escolar. Em Santos, alunos da 1ª a 9ª série têm aulas de Música. Em Franca, há cinco anos, todas as escolas da educação infantil até a 4ª série do ensino fundamental têm Música como disciplina escolar.
"Para as crianças do pré, o objetivo é desenvolver coordenação motora, lateralidade e orientação espacial. Na 1ª série, trabalhamos os parâmetros do som, na 2ª ensinamos flauta doce e iniciamos aula de canto. Seguindo para as 3ª e 4ª séries, esses conhecimentos são aprimorados. Como temos o apoio da prefeitura da cidade, tudo indica que, no futuro, isso possa se estender para as demais séries do ensino fundamental e médio", explica Edson Antônio Gomes Pereira, professor de três escolas municipais da cidade.
Em Mogi das Cruzes, o projeto - Tocando e Cantando" garante aulas de música para crianças da creche a alunos do 4º ano do ensino fundamental de 20 escolas da cidade, inclusive da Educação de Jovens e Adultos (EJA). "Os professores diziam não saber Música, então nós os formamos. Temos grande apoio dos diretores e supervisores de ensino", conta. "Temos que nos empenhar para superar o hiato de 30 anos sem musicalização nas escolas" defende a professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Iveta Maria Ávila Fernandes.
Mas a defasagem nas escolas é maior do que o número de iniciativas existentes. Figueiredo lembra que projetos de organizações não-governamentais (ONGs) inseridos nas escolas têm sido alternativas para essa realidade. "Há instituições que trabalham projetos com muita propriedade e trazem bons resultados. A presença de fora é importante, porém o extracurricular não pode substituir as obrigações da escola".
(Envolverde/Aprendiz)