Movimento estudantil e universidades disputam atenção dos alunos no Enade
Por Mariana Jungmann, da Agência Brasil
Brasília - Dois grupos dividiram a atenção de alunos que fizeram neste domingo (11) o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Para incentivar o boicote à prova, integrantes da União Nacional dos Estudantes (UNE) e outras instituições estudantis escolheram alguns colégios para fazer um corpo-a-corpo, pedindo que os alunos assinassem a prova e a entregassem em branco. De outro lado, incentivando os estudantes a fazer uma boa prova, professores e representantes de universidades e faculdades distribuíam canetas, água, refrigerante e aproveitavam para dar as últimas dicas.
A diretora da UNE Luana Bonone garante que a entidade não é contra a realização da prova, mas quer que seja aplicada em conjunto com as outras medidas aprovadas pelo Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes). "O problema é que o Enade foi implementado com muita velocidade e os outros instrumentos ainda não", disse a estudante, que foi defender a causa em frente a um colégio de Brasília.
Luana alega que o resultado da prova promove um ranqueamento cuja única finalidade é o marketing das instituições. "Tanto que tem universidade em São Paulo e no país inteiro que oferece prêmio em dinheiro, descontos e outras vantagens para o aluno que for bem na prova. Isso falseia o resultado", avalia.
Já os representantes das universidades garantem que os movimentos estudantis estão equivocados. "Nós já recebemos visita do MEC [Ministério da Educação]. Eles avaliaram a organização administrativa do curso, a infra-estrutura, o corpo docente, e outros aspectos", conta Paulo Ribeiro, coordenador da Faculdade de Zootecnia do instituto de ensino superior União Pioneira de Integração Social (Upis), de Brasília.
Professores avaliaram como positiva a aplicação da prova e se disseram contra o boicote. "Se ficarem simplesmente boicotando em vez de melhorar o sistema, a gente não chega a lugar nenhum. É melhor ter uma avaliação que não seja perfeita do que não ter nenhuma", defendeu o professor Marcelo Alcântara, da Faculdade de Educação Física da Universidade Católica de Brasília.
Com base em resultados do Enade, o MEC promete avaliar a partir desta semana 60 cursos de direito.
O Enade de hoje vai avaliar 3.454 cursos de 16 áreas de conhecimento. Através da prova, o MEC obtém dados sobre o rendimento dos alunos dos cursos de graduação em relação aos conteúdos, suas habilidades e competências. Quem não comparece fica impedido de retirar o diploma de conclusão do curso. Por isso, a UNE prega que os alunos estejam presentes, mas entreguem a prova em branco.
Estudantes apontam motivos para fazer o Enade
Brasília - Alunos que fizeram o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) apontaram motivos para realizar a prova e não entregá-la em branco, como pregaram a União Nacional dos Estudantes (UNE) e outras entidades estudantis. Alguns, no entanto, criticaram a organização.
"Acho importante para avaliar o curso, é por aí que você vai saber se está ou não preparado para o mercado de trabalho", avaliou Marla Caroline Bastos, aluna de zootecnia do instituto de ensino superior União Pioneira de Integração Social (Upis), de Brasília.
Para ela, o Enade é uma forma legítima de avaliação da universidade. "O mérito não é só do aluno. Se a faculdade e os professores não forem bons, os alunos também não serão".
Alguns estudantes da Faculdade Católica de Brasília também se disseram favoráveis ao exame. Contaram inclusive que recebem preparação da instituição: palestras para os ingressantes e uma espécie de cursinho para os concluintes, com reforço sobre itens que devem cair na prova.
"É uma novidade, eu acho bom", disse Marcos Alexandre, aluno de educação física da Católica. "Você tem que saber seus conhecimentos". O exame é realizado desde 2004, em substituição ao antigo Provão.
O estudante disse estar bem preparado e acha que fazer o Enade "vale a pena". "Você fica cinco anos na universidade, aí não faz prova de nada, não sabe como estão seus conhecimentos?", questionou.
Alguns alunos apontaram falhas do Ministério da Educação. "Eu transferi meu curso de uma faculdade para outra no semestre passado, mas os meus dados no cartão de prova são todos da faculdade anterior. Eles não têm informação nenhuma da gente", criticou o estudante de educação física, Gilson Carlos, da Universidade Paulista (Unip).
Ele diz ter sido convocado para fazer a prova como concluinte do curso, mesmo estando ainda no sexto semestre. "É que eu tranquei a faculdade um semestre por questões financeiras. Ao retornar, a coordenação do curso me fez repetir o sexto semestre por causa de novas disciplinas que haviam sido incluídas na grade curricular. Mas o MEC acha que eu já estou no oitavo semestre e me convocou para a prova". Gilson Carlos afirmou que não iria colaborar com o boicote e esperava se sair bem.
Enade precisa de ações complementares, defende presidente da UNE
São Paulo - A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lúcia Stumpf, sugeriu que adoção de outros métodos de avaliação para complementar o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).
Durante manifestação contra o exame em frente a um dos locais de prova em São Paulo, ela avaliou que o teste, da forma como é realizado, revela a qualificação dos cursos superiores "pela metade".
"São necessários outros instrumentos para se poder dizer por que o estudante não está saindo bem preparado de seu curso. Se é por falta de infra-estrutura, de professores qualificados ou outra razão", defendeu Stumpf.
A presidente da UNE sugere que sejam feitos levantamentos internos a partir da formação de um comitê envolvendo estudantes, professores, mantenedores e outros segmentos envolvidos. Por outro lado, acha que uma avaliação "externa" complementaria o trabalho ao captar, por exemplo, a visão de entidades sindicais.
Lúcia Stumpf acha que a prova "imposta aos estudantes" gera um "falso ranqueamento" das universidades. "A maioria das instituições acaba utilizando o resultado do Enade para fazer propaganda de seus cursos no mercado".
Segundo ela, a UNE e outras organizações estudantis encomendaram 50 mil adesivos para boicotar o exame, sugerindo que os alunos entregassem a prova em branco - quem não comparece perde o direito de receber o diploma de conclusão do curso. Ela e alguns colegas acompanharam a entrada dos alunos e distribuíram adesivos para que eles colassem na prova.
MEC fiscalizará 60 cursos de direito a partir da próxima semana
Brasília - Na próxima semana começarão a ser fiscalizados os cursos de direito que tiveram conceito insatisfatório no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). O Ministério da Educação listou 83 instituições que receberam 1 ou 2 como nota na prova em que o conceito máximo é 5.
Os fiscais visitarão 60 dessas instituições, que não apresentaram resposta sobre o baixo desempenho dos alunos na prova ou tiveram as justificativas consideradas "não-convincentes" pelo ministério.
"As comissões que visitarão esses cursos poderão concluir que, de fato, a instituição tem razão. Mas, para isso, os elementos constantes hoje no processo não são suficientes. Daí a necessidade da visita", explicou o ministro Fernando Haddad, em entrevista coletiva.
Neste ano, 30 instituições serão visitadas e outras 30, em 2008. Os fiscais avaliarão vários aspectos do curso, como qualidade das instalações e laboratórios, número de alunos por sala, grade curricular e quantidade de professores, mestres e doutores.
O objetivo inicial será sugerir melhorias para os curso, mas em último caso as instituições podem ser proibidas de efetuarem novas matrículas.
Os outros 23 cursos não serão visitados agora porque apresentaram um diagnóstico de seus problemas e propostas de melhora. Nestes casos, o ministério vai esperar os resultados da implementação dessas propostas.
O ministro explicou ainda que o MEC mudou a forma de agir com relação aos cursos superiores: antes, o poder público considerava suficiente apenas divulgar o nome e as notas das universidades na prova e deixar que os estudantes escolhessem seus cursos; agora, o ministério está assumindo o papel regulador.
"Nós entendemos que avaliar é importante, mas cabe ao poder público regular o sistema. Ou seja, garantir o direito do estudante a um bom curso, sobretudo nas instituições que não são gratuitas", afirmou Haddad.
Crédito da imagem: José Cruz/ABr
(Envolverde/Agência Brasil)