Moldes mercadológicos empobrecem literatura infanto-juvenil
Por Vivian Lobato, do Aprendiz
"Hoje, as obras e os livros infanto-juvenis são feitos a partir das medidas do mercado, produzidos para um consumidor médio. São utilizados moldes e fórmulas prontas, sem diferenciações. É comum explorarem temas clichês como o despertar para a sexualidade, o meio ambiente e o desenvolvimento do corpo".
A afirmação é da professora e pesquisadora de literatura infantil da Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá (Colômbia) Beatriz Rabledo. Ela participou do Encontro Internacional Literatura e Ação Cultural, evento que aconteceu entre os dias 15 e 17 de julho, na cidade de São Paulo (SP).
Segundo Beatriz, que também é escritora, o atual modelo de produção empobrece as obras e não permite que elas exerçam sua verdadeira função. "A literatura é uma arte tanto na forma como no conteúdo. De fato, os jovens precisam de livros que os acolham, mas o mais importante é que as obras os desafiem e explorem os mistérios da vida e da condição humana. Os livros devem buscar inovações no esquema rítmico e na forma. Diferentes formas de ler e escrever. Diferentes cenários,que despertam o leitor e permitam que aconteçam diversas práticas culturais durante a leitura", explicou.
"Existe, por exemplo, uma linha que marca uma conduta de sentimentos comuns, que abusa das ‘grandes fórmulas’. São aquelas histórias marcadas pelo protagonista, narradas em primeira pessoa para tentar se aproximar do leitor. Porém elas demonstram uma pobreza de recursos literários. Também acontece com muita freqüência a forçada de barra de livros indicados a alunos em idade escolar na tentativa de apresentar lições morais. Desse jeito a literatura se compromete e acaba se reduzindo a uma auto-ajuda", lembrou algumas fórmulas utilizadas.
Segundo a pesquisadora, outro problema da literatura juvenil é a classificação e a determinação da faixa etária dos livros. "Uma classificação que empobrece o gênero. O campo juvenil é difícil de limitar, porque muitas vezes o jovem é subestimado. Conheço adolescentes que lêem Borges com a mesma intensidade e amor de um adulto", completou.
O livro e seus adversários
Para a escritora colombiana, o fato das crianças nascerem na era tecnológica faz com que o livro tenha que competir a todo o momento com o entretenimento fácil como a televisão, o vídeo-game e o computador. Beatriz explicou que se os jovens não se sentem desafiados e estimulados não buscam a leitura como forma de prazer. "A literatura está ficando cada vez mais simples, para leitores menos competentes. Isso destrói o desejo de ler por conta própria, pois não traz nada de novo, não acrescenta", disse.
Outro fator responsável pelo desinteresse dos jovens pela leitura, segundo a pesquisadora, são as escolas. "A literatura tem sua função comprometida quando entra na sala de aula. O ensino a conta gotas nas escolas, com leituras cheias de lições de moral e obras ultrapassadas, sem dúvida, causa o desconforto e o descaso pelo livro. Não deveria haver prejuízos na leitura de obras literárias e conteúdos didáticos. Mas, infelizmente, as fichas de leitura, os resumos e a carência de debates empobrecem demais a literatura", finalizou.
(Envolverde/Aprendiz)