28/07/2006

Mentes inquietas

Ao falar sobre vestibular, o "perito em Fuvest" (Fundação Universitária para o vestibular) Renato Amaral, de 34 anos, autor do livro "Vestibular sem medo: passei quatro vezes na Fuvest" ressalta que é preciso, antes de mais nada, escolher bem a profissão. Isso porque nem mesmo o fato de passar entre os primeiros é garantia de ter feito uma boa escolha. Conversando com estudantes que passaram nas primeiras colocações, é possível perceber o quão relevante é esta afirmação.

Isto porque, além da excelente pontuação, outro denominador comum observado nos candidatos que conquistaram os primeiros lugares é uma certa inquietude em relação ao seu conhecimento. Muitos deles prestaram diversos cursos, às vezes de áreas distintas, outras vezes, compatíveis. E, na maior parte dos casos, tendo sido aprovados nas primeiras colocações. Acompanhe a conta.

O pesquisador do Instituto de Bioquímica da USP (Universidade de São Paulo), Douglas Vasconcelos Cancherini é um destes exemplos. "O primeiro vestibular que eu prestei foi na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em 91, para Engenharia da Computação, quando ainda estava no primeiro colegial. No ano seguinte, prestei Unicamp e passei em 1º em Engenharia Elétrica. Também prestei Fuvest e fui o1º em Biologia. No terceiro colegial, fui o primeiro em Medicina na Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquista Filho) e fui o segundo em Medicina da USP, onde resolvi, finalmente, ingressar. Depois disso tudo, em 2000, quando estava fazendo um doutorado em Fisiologia no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, ingressei na minha segunda faculdade, que foi o curso de Física."

Segundo Cancherini, o ingresso no curso de Física foi uma tentativa de complementar uma deficiência que ele sentia em relação às Ciências Exatas na Medicina. "A gente não tinha isso no curso e eu sentia que precisava me aprofundar nesta área", explica. O jovem conta ainda que, embora tenha concluído sua graduação em Medicina, o curso não o satisfez. "O curso de Medicina prepara o estudante para ser médico, não pesquisador. Ao longo da graduação, e, depois, na pós-graduação, descobri que queria fazer pesquisa, daí a minha inquietude em relação ao curso e a necessidade de estudar cada vez mais", diz. É por isso que, hoje, ao ser questionado se faria uma outra graduação, Cancherini é enfático: "Sem dúvida, e até sei qual seria: Ciências Moleculares, na USP. Creio que ela prepara bem melhor pra carreira acadêmica do que o curso de Medicina."

Rigel Alves Rabelo de Oliveira (foto à direita), 24 anos, também possui uma longa e brilhante trajetória nos vestibulares. Aos 16 anos, prestou seu primeiro vestibular para o curso de Medicina na UFS (Universidade Federal de Sergipe) e não passou, foi o 33º excedente. No ano seguinte, com medo de ficar de fora da Medicina, prestou para Odonto (na UFS de novo) e foi o segundo colocado do curso. Com a pontuação obtida, o jovem poderia entrar em Medicina, por isso, optou pela mudança. Ironia do destino, Rabelo não gostou do curso e, após três semestres, deixou a Medicina de lado para prestar o vestibular de Ciências da Computação na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e na UPE (Universidade de Pernambuco) - passou nas duas. Só para constar, no mesmo ano, o jovem prestou o vestibular de Física na UFS (foi o 8º geral do curso).

Já cansou de tantas provas? Rabelo não. Embora o estudante tenha decicido cursar Ciências da Computação na UFPE, como ele mesmo diz "a grana ficou curta" e ele foi obrigado a voltar para Sergipe. Assim, abandonou o curso e se viu, novamente, às caras com o vestibular. E, adivinhe: passou nas primeiras colocações. "Em 2003, prestei Ciências da Computação na UFS e fui o 1º colocado do curso e 11º colocado geral do vestibular. Depois, ingressei em 1º lugar em Matemática - licenciatura na UFS", lembra.

Mas, Rabelo de Oliveira não parou por aí. Com tantas oportunidades de emprego como professor de Ensino Médio e cursinho que se abriram - graças a visibilidade que conseguiu por conta de seu bom desempenho em tantos vestibulares seguidos - aliado a sua vontade de obter logo um sucesso profissional, ele foi deixando de lado, gradativamente, a universidade e mergulhando cada vez mais no trabalho. "Hoje o meu maior objetivo é me formar e para isso deixei todas as aulas que tinha no turno da noite para me dedicar a universidade", afirma. Ele tranferiu o curso Matemática - Licenciatura também para outra universidade, a Unit (Universidade Tiradentes), principalmente devido aos horários. Outro aspecto que influenciou a mudança foi o período de graduação que deminuiu de cinco anos na UFS para três anos na Unit. "Acredito que em cerca de um ano e meio esteja concluindo o curso e poderei partir para um mestrado e, na seqüência, um doutourado", planeja.

Vinícius Cifú Lopes, de 24 anos, 1º colocado no Vestibular da Fuvest, em 2001, diz que, embora não tenha desisitido da Matemática, algumas vezes olhou a lousa e pensou: "isso é completamente diferente do que eu achava, não tenho nem cabeça para isso." Em seu caso, ele acredita que um pouco de perseverança fez bem. "Escolhi Matemática pura por vários motivos. Em primeiro lugar, porque gostava do assunto; em segundo, não gostava de outras matérias escolares, nem de nada relacionado a Medicina, Engenharia, Direito, etc, etc, etc; terceiro, eu sempre tive facilidade nisso; e, por fim, creio que a história da matemática seja repleta de heróis. Tem aqueles trágicos, mas há, também, os que se saem muito bem", afirma.

O segredo do sucesso
O que dizem os jovens que conquistaram os primeiros lugares?

A essa altura do campeonato, se você ainda não se mordeu de raiva e continua lendo esta matéria, já está se perguntando: afinal, qual é o segredo do sucesso destes caras? Eles são gênios, por acaso? Para sua surpresa, e da grande maioria que costuma julgar os primeiros colocados do vestibular como: "ah, mais um nerd que ficou em casa se matando de estudar e não tinha vida social", não. Nem eles se consideram gênios, tampouco dizem ter uma regra milagrosa para driblar o vestibular com tanta facilidade.

É fato, que, em alguns casos, durante a preparação, muitos estudantes entram na paranóia do concorrente robô: aquele que não come, não dorme, não assiste TV e só estuda. Assim, ao invés de curtir um pouco a vida, passam horas debruçados sobre os livros para evitar a sensação de culpa. Mas nem todos que conquistam as primeiras colocações têm este perfil. "Não fui forçado a nada, não me matei, saí para muita diversão (e sim, tinha amigos) e mantinha atividades normais", revela Vinícius Cifú Lopes.

"Não, eu não me considero um gênio, apenas tenho uma facilidade com números que torna tudo muito mais fácil pois esses são os principais problemas enfrentados pelos alunos do Ensino Médio atualmente", diz Rigel Alves Rabelo de Oliveira. Ele conta que sempre foi um aluno atento às aulas, mas nunca se considerou exemplar. "Mesmo nas matérias que, hoje, tenho mais destaque, por vezes tive de ir às provas finais", lembra. O sucesso nos vestibulares, segundo ele, basicamente se deu graças a uma ampla dedicação nos estudos e resoluções de muitas questões de Matemática, Física, Química e até de Português, além da ajuda dos professores amplamente qualificados nas matérias que lecionavam.

Douglas Vasconcelos Cancherini, 20 anos, 6º colocado no vestibular da Fuvest de 2000, diz que estudou bastante e, durante algum tempo, foi socialmente retraído, especialmente na época do primeiro vestibular, em que a cobrança é maior. "Depois que já havia passado no primeiro vestibular vivi um momento bem mais tranqüilo. Eu gostava de estudar e sempre achei que as matérias do colegial eram básicas, no entanto, há pessoas que entram na universidade sem saber direito. Isso é ruim. Por isso, não considero a colocação importante, mas creio que o conhecimento é fundamental", diz.

Renato Amaral, por sua vez, diz que não há segredo para vencer o vestibular. Segundo ele, o candidato que domina o conteúdo do colegial e se mantém tranqüilo consegue passar bem. A questão é: eu domino o conteúdo? Eu estou tranqüilo? As respostas para estas perguntas é que geram as sensações de medo e ansiedade que tanto atrapalham os estudantes. "Os candidatos têm que ter uma atitude mental favorável. Isso se desenvolve por meio de técnicas de programação neurolingüística em que ele procura se visualizar como vencedor imitando o comportamento dos vencedores", explica.

Na sua época do vestibular, quando ainda estava no colegial, Amaral conta que se aproximou de estudantes japoneses e coreanos para tentar entender qual diferencial fazia com que eles fossem tão bem, especialmente em Exatas. "A dica que eles me deram é: você tem que começar a estudar mesmo não tendo vontade, porque ela irá surgir no meio do caminho", diz. Filosofia oriental à parte, para Amaral, a persistência é extremamente importante. "Se você deixar para estudar quando sua vida está certinha e tem vontade, vai estudar apenas três dias por ano. Ao mesmo tempo, tem que viver e cuidar de sua saúde. O melhor é apostar no equilíbrio", conclui Amaral.

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