Meninas negras valorizam características brancas
Por Alan Meguerditchian, do Aprendiz
"Ele é alto, tem olhos azuis e é muito bonito". "Não, ele tem olhos verdes e cabelos pretos". "Ele parece o Reynaldo Gianechinni". "Liso, cabelos lisos". Esses são alguns dos valores adotados por meninas negras de 10 anos em relação ao príncipe ideal e ao cabelo mais bonito. As constatações são da pedagoga Roseli Figueiredo Martins e foram obtidas durante a realização de seu mestrado, defendido na Universidade Estadual Paulista (Unesp).
O trabalho foi realizado com 26 alunas da 4ª série do Ensino Fundamental de escolas públicas da periferia da cidade de São Paulo (SP), entre elas 12 negras. "Queria descobrir como as meninas negras estavam construindo suas identidades. Minha hipótese inicial era a de que elas teriam dificuldade para aceitar os traços estéticos de seu corpo", explica a pesquisadora.
Para avaliar tal construção, Martins aplicou atividades lúdicas como desfile de moda, teatro e sessões de histórias infantis. "As atividades serviam como um estímulo para que elas pudessem falar de si. Por meio das histórias, desenhos e dramatizações, conteúdos gerados após as narrativas dos contos europeus e africanos, com personagens brancas e negras, foi criado um espaço no qual as meninas ficaram livres para representar, interpretar e falar sobre as histórias ouvidas e das quais participariam", explica Martins em seu trabalho.
A valorização do cabelo liso, por exemplo, foi manifestada durante a encenação de um desfile de moda e de uma história em que havia uma princesa. Em ambas as atividades foram oferecidas perucas de cabelos longos de cor preta, loiros igualmente compridos e perucas "blacks", com cabelos curtos. O desprezo pela peruca "black" foi tamanho que, ao final do trabalho, as perucas com cabelos longos estavam praticamente destruídas, enquanto que as de cabelos crespos permaneceram intactas. "A peruca 'black' estava associada à malandragem e à chacota. Quando uma resolvia usá-la, era para parodiar o malandro, e todas riam", lembra.
A sessão de histórias infantis, segundo a pesquisadora, também evidenciou o racismo inconsciente das garotas. Após ouvir os contos Cinderela, Branca de Neve e os sete anões, Rapunzel, protagonizadas por personagens brancos, e O príncipe dos destinos e Bruna e a galinha d'angola, cujos personagens principais são negros, as estudantes revelavam suas preferências, escrevendo e desenhando o tipo de príncipe que achavam mais atraente. "Ainda que eu tenha contado uma história que reporta às lendas africanas, as meninas, ao desenharam os seus príncipes, fizeram-no segundo um padrão estético branco", lembra.
"O silêncio da escola em relação ao racismo e preconceito colabora para que as crianças tenham uma percepção de si e dos outros totalmente distorcida. As brancas, por sentirem que estão acima das negras, e as negras, abaixo das brancas", explica Martins.
Tal silêncio colabora para que situações de confronto entre as garotas sejam comuns. "Em uma das atividades, a turma de garotas estava bastante agitada. Tive de pedir silêncio. Numa dessas vezes, duas meninas, uma branca e uma negra, começaram a discutir. A branca começou a xingar a negra: 'Sua cabelo de bombril, eu pelo menos não tenho esse cabelo de bombril'", descreve a pesquisadora.
"Nossos preconceitos são sociais, antes de serem individuais. Assim, as professoras reproduzem os mesmos preconceitos que o entorno oferece às crianças, o mesmo descaso, ausência de consolo e afeto. Elas não estão preparadas para lidar com a questão, pois acham que a questão do preconceito não é importante, que não atrapalha o desenvolvimento da criança", diz Martins.
Diante disso, o argumento, ainda recorrente, de que o Brasil não é um país racista, é tratado pela pesquisadora como um conto, igual aos contados às meninas. "No trabalho discuto uma fantasia. Não a fantasia vinculada ao faz-de-conta das histórias narradas às crianças, mas, a fantasia expressa por um desejo aparentemente incorporado por grande parte dos habitantes de um país, no qual as pessoas fazem de conta que não há discriminação quando há, que não há racismo quando há", escreve na dissertação.
Mesmo inseridas nesse cenário, algumas meninas conseguem superar a carga negativa que os negros são sujeitados no país. "Algumas crianças conseguem se sobrepor a tudo isso. E a família exerce importante papel", diz.
Segundo a pesquisadora, família e escola devem instigar o questionamento nas crianças. "Isso deve ser feito desde a educação infantil. É preciso construir um ponto de interrogação, mostrar toda a História do negro no país, suas lutas e conquistas. Fazer com que as crianças não permitam que as coisas continuem como estão", conclui.
(Envolverde/Aprendiz)