Maior remuneração, menos alunos
O Decanato de Extensão da UnB discute o aumento do valor das bolsas dos estudantes que participam de ações comunitárias.
Uma aula sobre o Cerrado para crianças de escolas públicas e particulares foi a idéia de um grupo de estudantes de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB) para passarem adiante o conhecimento adquirido no curso. A atividade é um exemplo de ação que integra o meio acadêmico e a sociedade. Para valorizar iniciativas como essa, o Decanato de Extensão (DEX) da UnB discute medidas que incentivem a participação do estudante em ações comunitárias. As principais delas são o aumento do valor da bolsa destinada aos alunos desse tipo de projeto e a concessão de créditos acadêmicos à extensão.
O valor atual da bolsa é R$ 130,00, uma das mais baixas da universidade. A intenção do Decanato é igualar ao valor da bolsa de Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), de R$ 300,00. No entanto, o número de estudantes beneficiados com a verba vai diminuir de cerca de 300 para apenas 130. A medida está sendo discutida para que, no próximo semestre, o valor já esteja ajustado. Como se refere a uma decisão do Decanato, a proposta para ser efetivada precisa apenas da ratificação do reitor da universidade, Timothy Mulholland, por meio de um ato.
A proposta do Decanato, segundo a diretora técnica de extensão, Fátima Makiuchi, é aumentar a bolsa para um valor compatível ao trabalho realizado pelos estudantes e à importância das atividades. “Algumas ações exigem dedicação inclusive nos finais de semana, além do deslocamento para áreas distantes. Sem contar que, por meio dos projetos de extensão, a universidade cumpre seu papel social promovendo o desenvolvimento comunitário e regional”, reforça.
Sobre beneficiar um número menor de alunos – com a medida 170 a menos receberão a verba – a decana Leila Chalub esclarece que o DEX busca outras formas de captar recursos e parceiros para ações da mesma natureza. Como já ocorre, por exemplo, com o convênio firmado com o Ministério Público do Distrito Federal em um projeto ambiental, cuja verba das bolsas estão inclusas na parceria. “Não estamos satisfeitos com os números, vamos trabalhar para que mais estudantes sejam beneficiados”, ressalta.
COMPROMISSO – A medida implica também em outra mudança. Os estudantes que pretendem participar dos projetos com bolsa vão passar por um processo seletivo. Para regulamentar essa seleção e as atribuições dos bolsistas, o DEX vai criar o Programa Institucional de Bolsas de Extensão (Pibex). Os critérios ainda não foram definidos, uma comissão criada pelo Decanato discute o que deve ser privilegiado. “Pensamos na elaboração de um plano de trabalho para concorrer a bolsa e, durante o desenvolvimento do projeto, a entrega de relatórios e produção de artigos”, adianta Leila.
A decana explica que submeter os estudantes a um edital é uma forma de avaliar o trabalho de extensão feito na universidade e estabelecer indicadores de qualidade. “Há muita rotatividade de bolsistas dentro dos projetos, isso influi na produtividade e resultado final. Com essas medidas, cria-se um maior vínculo com o estudante, garantindo o seu engajamento”, afirma Leila.
A posição favorável quanto à valorização das ações comunitárias da universidade é unânime entre os diferentes segmentos acadêmicos. Porém, as mudanças propostas pelo Decanato de Extensão causam polêmica quanto ao número de pessoas beneficiadas ser menor. Para o secretário geral da Associação dos Docentes da UnB (AdUnB), Paulo César Marques, as atividades de extensão não possuem o mesmo reconhecimento que a pesquisa e ensino.
Marques diz que providências no sentido de amenizar essa distorção são bem-vindas. “Existem formas de compensar o menor número de bolsas e fazer com que o envolvimento do estudante esteja associado à formação e ao compromisso acadêmico”, diz em referência aos convênios com outras entidades e aos créditos de extensão.
PARCERIA – O aumento do número de bolsas por meio de parceria é também aposta do estudante do 3º semestre de Comunicação Social Aerton Guimarães, 19 anos. Ele é bolsista do projeto de análise de mídia SOS Imprensa, e diz que a verba, mesmo baixa, auxilia no almoço e no ônibus. “É complicado diminuir o número de bolsas e criar critérios para avaliar projetos tão diversos. O SOS Imprensa é mais analítico, será que vai ficar atrás dos que são mais práticos?”, preocupa-se.
A apreensão do coordenador geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e estudante do 9º semestre de Engenharia Florestal, Wagner Guimarães, é em relação à dificuldade de aumentar o número de bolsas a um valor de R$ 300,00. “As parcerias devem ser anterior ao aumento do valor das bolsas, pois não há garantia. A gratificação da extensão está no trabalho com a comunidade e uma remuneração mesmo que baixa ajuda nos custos”, ressalta.
O professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura, Rogério Lima, acredita que as decisões devem criar possibilidades de acesso ao maior número de pessoas aos recursos públicos. “Aumentar a bolsa é muito bom para os 130 que receberão, mas 170 ficarão sem recurso algum”, defende.
Já para o estudante do 10º semestre de Engenharia Florestal, Artur Orelli Paiva, 22 anos, mesmo que estudantes deixem de receber o benefício, a medida é necessária. Ele acredita que o incentivo financeiro valoriza a atividade, especialmente, os resultados e a continuidade dos trabalhos. “É preciso compromisso com o projeto”, reforça. Orelli é um dos estudantes idealizadores do projeto Beija-Fal, que promove atividades sobre o cerrado dentro da Fazenda Água Limpa da UnB para crianças de escolas públicas e particulares.
FALTAM RECURSOS DO MEC
Um dos compromissos firmados pela atual gestão da UnB é o ajuste do valor de todas as bolsas da universidade para o mínimo de R$ 300,00. A instituição encaminhou proposta ao Ministério da Educação (MEC) para alocação de recursos que ajudem no financiamento das bolsas. Segundo o reitor Timothy Mulholland, o objetivo é aumentar o valor sem diminuir o número de beneficiários. No entanto, Mulholland ressalta que o orçamento da União ainda não foi aprovado.
CRÉDITOS DE EXTENSÃO
Outra medida em discussão pelo Decanato de Extensão (DEX) é o credenciamento de estudantes que participam de atividades que integram o meio acadêmico e a comunidade. O DEX já elaborou uma minuta sobre o tema que deve ser submetida ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe). O ideal, segundo a diretora técnica de extensão, Fátima Makiuchi, é que o aumento do valor das bolsas de extensão seja uma medida aprovada em conjunto com a proposta dos créditos.
“Vamos diminuir o número de bolsas, mas, caso o estudante não seja beneficiado, os créditos são um incentivo a participar da atividade”. Para a decana, Leila Chalub, os créditos são também uma valorização da atividade. “De certa forma, os extensionistas representam a universidade fora do campus e precisam ter esse reconhecimento no currículo”, diz.