22/03/2006

Livros didáticos trazem erros e informações desatualizadas sobre o islamismo

Por Marina Almeida

Os livros didáticos brasileiros apresentam divergências e graves erros conceituais sobre o islamismo. Uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mostra que, apesar de estarem há muitos anos no currículo escolar, os livros trazem informações pouco atualizadas.

O problema foi tema do estudo de mestrado da professora de história Ana Gomes de Souza. "O ataque ao World Trade Center, em 2001, por exemplo, passou praticamente despercebido nesses livros", cita, lembrando que essa ausência "pode abrir caminho para estereótipos divulgados pela mídia em relação aos povos muçulmanos". Ana analisou a abordagem que os livros didáticos de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental publicados entre 1985 e 2004, apresentavam sobre a religião e a cultura islâmica.

Para a professora, as divergências de fatos e conceitos encontradas, entre os livros didáticos e as fontes oficiais do Islã, podem ser bastante prejudiciais porque, muitas vezes, este material é o único contato dos alunos com o tema. "O estudante tende a aceitar como verdade o conteúdo sem questioná-lo. Daí a necessidade dessas revisões", recomenda. Muitos professores, inclusive, têm neste material, segundo a professora, sua principal, senão única, fonte de estudo e preparo de aulas.

Ana encontrou termos sem equivalência na língua árabe, erros com relação ao calendário lunar e solar e à vida de Maomé, por exemplo. Ela cita o jejum do Ramadã que, segundo alguns livros didáticos, ocorreria sempre na mesma data. "Além de não ser uma verdade, contraria a própria lógica do calendário lunar", critica.

Entre as divergências relacionadas aos conceitos, alguns dos temas analisados foram os pilares do Islã, o jihad e as referências sobre o paraíso, a poligamia e a escravidão. O termo árabe jihad, por exemplo, geralmente traduzido por ´Guerra Santa` significa 'esforço' e pode ser usado em várias situações, "o esforço empenho e a dedicação que empregamos para realizar qualquer atividade é uma forma de jihad", explica a pesquisadora.

Atentado
Entre os livros publicados após o atentado de 11 de setembro, atribuído ao Islã, apenas um abordou o ataque aéreo ocorrido em Nova Iorque contra as Torres Gêmeas. Segundo Ana, o livro teria destacado os "fundamentalistas da religião islâmica" e afirmado que esse episódio seria a "primeira guerra do século XXI". Entretanto, as notas de repúdio da comunidade muçulmana, lamentando o ocorrido e explicando que os autores dos ataques não a representavam não foram citadas. "O livro de história é dirigido a alunos do ensino fundamental que não conhecem esse tema, assim ele deveria trazer os dois lados da questão e não priorizar apenas um ponto", diz.

A professora lembra, contudo, que sua pesquisa não discutiu a autoria ou as conseqüências dos ataques, nem tampouco os relacionou aos princípios religiosos revelados a Maomé. "Meu questionamento foi o porquê da permanência do Islã, há tantas décadas nos livros didáticos, não ter lhe garantido a atualização das informações e dos fatos históricos".

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