24/03/2006

Livro será saída para a humanização da era informacional, diz professor

Por Marana Borges

Se é verdade que a sociedade da informação dividirá radicalmente a humanidade entre os conectados aos novos meios de comunicação online e os desconectados, então será a partir dos livros, das bibliotecas e da cultura armazenada durante tantos séculos que poderemos criar valores de democracia e cidadania para criticar as mensagens que recebemos. É essa luta pela valorização do livro como grande fonte de conhecimento e valores que norteou as falas de Alfredo Bosi e Gilson Schwartz na terça-feira (21) no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Os dois pesquisadores participaram do “Ciclo de depoimentos", série que está sendo realizada pelo Sistema de Bibliotecas Integradas (Sibi) da USP em comemoração ao dia do bibliotecário (12 de março).

Bosi, professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), membro da Academia Brasileira de Letras e editor da Revista Estudos Avançados, se referiu à tese concebida pelo sociólogo Manuel Castells – que afirma que a era informacional diluirá as classes sociais, rearticulando a população global em duas camadas opostas. Um terço da humanidade estará conectada às novas tecnologias de informação eletrônica e comporá a classe dominante de onde será extraída a classe dirigente. Pelo fato de disporem de informações vitais que lhe concederão status, poder, qualidade de vida, emprego, o abismo entre os dois lados inevitavelmente crescerá. Castells também afirma que essa nova visão de mundo não possui valores próprios, é puramente instrumental.

A partir de uma leitura da socióloga Bárbara Freitag, Bosi questiona em que espaço se pode encontrar valores de solidariedade e cidadania, “se a era informacional só se preocupa com a produtividade, em aumentar o raio de ação dos conectados”. A resposta é simples: nos livros, sejam impressos ou digitais. De Homero a Santo Agostinho e a Octavio Paz, o livro aparece como grande fonte de conhecimento e, mais ainda, de valores. É aí que a tese de Castells - de que a era informacional não cria valores - cai por terra. “O caráter amoral da era da informação não poderá se sustentar, pois a partir do contato com a cultura e os livros, os ‘conectados’ podem assim encarar a sociedade como uma trama de pessoas e não conjunto de robôs auto-centrados”, diz.

Gilson Schwartz, diretor da Cidade do Conhecimento, centro que desenvolve programas educacionais pela rede, propôs um novo indicador de desenvolvimento humano no estudo dos impactos das novas tecnologias informacionais. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), instrumento de medida utilizado pela maioria dos países, avalia três critérios dos países: expectativa de vida, educação e renda per capita. A ele, para Schwartz, seria adicionado o ‘fator i’: “nesses estudos serão incluídos os valores como a cidadania. I é o intangível, o imaterial, a inclusão”, afirma. Para o pesquisador, o ‘i’ dará "tempero e ficará ao lado de outros indicadores mais frios ou tradicionais”.

Livro impresso versus digital
No depoimento de Alfredo Bosi, fica clara sua relação afetiva com os livros. “Sempre vivi em meio a livros quase como uma segunda natureza”. Ele chama a atenção para a necessidade de uma cultura interdisciplinar, em que a biblioteca é o símbolo emblemático: “na biblioteca, você lê uma nota no rodapé de um livro e vai procurar a referida obra, e assim vai passando de estante para outra”. O livro impresso, no entanto, não corre o risco de desaparecer. “Esse receio aparece sempre que um novo meio de comunicação se impõe. Nos anos 1960 se debatia os riscos da televisão”.

Para o professor, a própria divisão abstrata entre livro impresso e digital perde sua validade se pensarmos novamente no livro como formador de valores. “Acredito que a rede vai fazer tudo o que o livro fez e ainda ir além, pela sua extraordinária capacidade de alcance. Os usuários do livro poderão escolher, criticar, selecionar, usar a rede para humanização da sociedade”. Para quem tem dúvida se o livro vai morrer, ele destaca a importância de as bibliotecas investirem em novas tecnologias digitais e enfatiza: “A informática deu grande atenção ao texto, na medida em que reproduziu a página. É o livro que continua alimentando a rede”, diz.

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