Lingüista "desvenda" as funções das preposições
“Vamos de a pé?” é uma frase comum dita por uma criança ao aprender as primeiras letras e que não tem a noção de que é muito rara a combinação de duas preposições em língua portuguesa. Os “erros” pronunciados por Raquel aos cinco anos de idade foram o ponto de partida para que a lingüista Lou-Ann Kleppa entendesse o sistema de funcionamento da preposição. Tema muito pouco estudado, que a pesquisadora tem tentado sistematizar desde o mestrado. Aprofundou no doutorado e transformou-se em capítulo na publicação Gramática do Português Falado, editada por lingüistas do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, Universidade de São Paulo e Universidade Federal do Rio de Janeiro.
As preposições, segundo Lou-Ann, são mal descritas na gramática. “As definições são fragmentadas e aparecem em três blocos desconexos nas gramáticas. São descritas no capítulo sobre classe de palavras, sobre regência e crase”, exemplifica. A pesquisadora percebeu que as preposições não formam uma classe homogênea. Algumas podem ter sua forma alterada – em + a = na –, ou não como é o caso de “até, contra e sobre”. Algumas têm um sentido muito claro – até indicam limite – outras nem tanto. Um exemplo é o que significa o “de”, na frase “Eu gosto de chocolate?”.
Num primeiro momento para a sua dissertação de mestrado “Preposições ligadas a verbos na fala de uma criança em processo de aquisição de linguagem - ou ‘vamo de a pé no carro do vovô?’”, a pesquisadora queria comparar as preposições ditas por um afásico – indivíduo afetado na fala por motivo de lesão cerebral – com as preposições ditas por uma criança para testar a hipótese de que o afásico aprenderia por último o que a criança aprende primeiro. No percurso de seu trabalho, porém, ela percebeu que os universos da criança e do afásico são muito diferentes, pois o afásico é um falante que teve sua linguagem afetada e, normalmente, tem consciência do seu distúrbio. Já a criança está adquirindo uma linguagem e não sabe que está errando. “Contudo, o contraste entre a fala da criança e do afásico não é impossível. Apenas não é espelhado. Pretendo investigar mais a fundo a questão no doutorado”, explica.