12/06/2009

"Língua portuguesa é um mexido", diz professora

Por Carolina Vicentin, da Secretaria de Comunicação da UnB

 

Professora da UnB defende que língua seja adotado como oficial pela Organização das Nações Unidas.


No país das festas e dos feriados, a língua portuguesa é homenageada duas vezes ao ano. Nesta quarta-feira, 10 de junho, comemora-se o Dia da Língua Portuguesa. A data foi escolhida em referência ao poeta lusitano Luís de Camões, que faleceu há exatos 429 anos. Em 5 de novembro, os brasileiros celebram o Dia Nacional da Língua Portuguesa, instituído em 2006 para lembrar o nascimento de um dos principais oradores da história do país, Rui Barbosa.

Longe de incomodar os especialistas, a dupla homenagem contribui para a divulgação do idioma falado por 250 milhões de pessoas em todo o mundo – 180 milhões só no Brasil. “Quisera eu que fossem 365 dias da língua portuguesa”, diz Wânia Aragão, professora do Departamento de Lingüística, Português e Línguas Clássicas e coordenadora do bacharelado em Língua Portuguesa da Universidade de Brasília.

Em entrevista à UnB Agência, Wânia fala sobre os desafios do idioma, as vantagens e desvantagens do Acordo Ortográfico e o caráter inclusivo da língua no Brasil.

UnB Agência – A escolha de duas datas para lembrar a língua portuguesa não gera confusão?
Wânia Aragão – Não, quisera eu que fossem 365 dias da língua portuguesa. Temos uma série de problemas relacionados à disseminação da língua no país, todas as iniciativas são bem-vindas. Ainda não sabemos como desenvolver mecanismos eficazes para promover a alfabetização funcional, que é fazer uma pessoa entender o que está lendo. Além disso, a língua portuguesa enfrenta dificuldades para se internacionalizar.

UnB Agência – Por que é importante levar nosso idioma ao mundo?
Wânia – A internacionalização ocorre quando a língua é considerada oficial perante organismos internacionais. Hoje a Organização das Nações Unidas não vê a língua portuguesa dessa forma. Isso é problemático não no sentido da divulgação cultural, mas pelo aspecto político. Se não é língua oficial na ONU, não há obrigatoriedade de tradução dos documentos.

UnB Agência – Isso pode nos prejudicar de alguma forma?
Wânia – Sem a internacionalização, o acesso a informações sobre o Brasil fica prejudicado. O site de buscas Wolfram Alpha (lançado em maio deste ano pelo físico inglês Stephen Wolfram) digitalizou o conteúdo da Biblioteca do Congresso Americano, a segunda maior do mundo. A Biblioteca só possuía informações sobre a língua portuguesa até 1996. Isso significa que os norte-americanos só sabem da língua portuguesa e do Brasil até 1996.

UnB Agência – Pensando assim, o Acordo Ortográfico foi uma boa coisa para o nosso país.
Wânia – O acordo é ótimo para o Brasil e péssimo para os brasileiros, porque ficamos 100% analfabetos. Mesmo nós, que dominávamos as regras, vamos ter que estudar. Nós aderimos ao acordo por uma ação do Poder Executivo, o governo se antecipou e permitiu que as editoras brasileiras implementassem as regras a partir deste ano. Na verdade, houve um grande lobby econômico. O parque editorial brasileiro é enorme e o Acordo prevê que até 2018 todos os textos dos países que têm a língua portuguesa como oficial terão de substituir o material didático.

UnB Agência – Que iniciativas ajudariam na internacionalização da língua portuguesa?
Wânia – A divulgação maciça de informação é fundamental. A primeira nesse sentido seria a criação de um instituto de pesquisa em língua portuguesa. Nós precisamos de números, só os números convencem.

UnB Agência – Como a senhora vê a adoção de “estrangeirismos” no país?
Wânia – Há uma série de tentativas inócuas de legislar os estrangeirismos, sempre na intenção de fortalecer o idioma. Isso é um erro. Nós não traduzimos as palavras importadas, mas vernaculizamos (o mesmo que nacionalizar os termos), e fantasticamente bem. Traduzir a palavra “site” para sítio e “mouse” para rato é o que os portugueses fazem. Mas nós somos acolhedores, nós somos brasileiros. Nós somos o país do mexido e a nossa língua é um mexido. A língua portuguesa é inclusiva, essa é a nossa riqueza.


(Envolverde/UnB Agência)
 
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