09/11/2006

Leitura dentro de presídios leva cultura e auxilia reintegração social

A Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) desenvolve projeto que leva a leitura, o conhecimento e a cultura para dentro do sistema penitenciário, contribuindo com a reintegração social do detento.

A população carcerária brasileira gira em torno de 250 mil internos, só o estado de São Paulo mantém quase 100 mil detentos. Mas mesmo assim a questão prisional é um assunto evitado pelo meio político e de baixo interesse para o conjunto da sociedade, a não ser quando esta emerge em meio a rebeliões ou ações de terrorismo, como as praticadas pelas facções organizadas dentro dos presídios.

Privados de sua liberdade, essa legião de "esquecidos" pela sociedade tem recebido atenção do projeto Leitura Ativa da FESPSP, um projeto que, desde 2004, leva atividades de leitura como uma ferramenta de reintegração social.

A atividade consiste na realização de ciclos de leitura em penitenciárias, com o objetivo de proporcionar aos sentenciados os benefícios decorrentes do acesso à leitura. "Além do aumento de vocabulário, do nível de conhecimento e do senso crítico, também são esperados efeitos benéficos e/ou terapêuticos da leitura, sobretudo quando se trata de população sob regime de privação de liberdade", explica a professora Evanda Paulino Verri, coordenadora acadêmica da Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação (FaBCI) da FESPSP e orientadora do projeto.

Segundo os idealizadores do Leitura Ativa, Durvalino Nascimento Peco, estudante de biblioteconomia e Wagner Paulo da Silva, bibliotecário, o projeto foi estruturado para a partir do incentivo à leitura, mediante ações culturais e oferta de meios de informação, os sentenciados tivessem acesso ao conhecimento e à cultura. Com esta ação, pretende-se despertar e desenvolver no público-alvo o prazer pela leitura e a imersão no universo transformador dos livros. "Nos exemplos e nas situações descritas e vivenciadas pelos personagens dos livros, os sentenciados podem encontrar modelos e exemplos de condutas e ações construtivas a serem espelhadas ou copiadas, na busca de uma vida com melhores expectativas", explica Durvalino.

O gosto pela leitura é despertado a partir do incentivo à reflexão e à discussão sobre o conteúdo dos textos, de modo que os participantes apresentem suas idéias e opiniões, com liberdade para criá-las, recriá-las e transmití-las, associando-as a sua própria realidade ou a uma realidade que desejam alcançar. "É importante ressaltar que o intuito do Projeto é, ao propiciar aos sentenciados o acesso à leitura, fazer com que estes não fiquem restritos às obras de caráter didático - obrigatórias nos cursos de ensino fundamental e médio que realizam na penitenciária", explica Wagner.

Assim, com dezenas de ciclos de leitura, encontros com autores e saraus literários desenvolvidos em 5 diferentes penitenciárias paulistanas, o projeto segue no seu intuito de levar inclusão, reflexão e cidadania ao público privado de liberdade. Alguns resultado já estão sendo alcançados, o acervo dos centros prisionais que em média registravam 20 empréstimos de livros por mês, passaram a ter mais de 150 requisições mensais. "O interesse e os resultados são visíveis, a participação dos reeducando e espontânea, está ocorrendo um aumento da sociabilidade, do interesse pela leitura, da concentração nos estudos e a participação e outras atividades desenvolvidas dentro dos centros prisionais", informa Durvalino.

O projeto Leiturativa segue com suas atividades amparado por fundos da FESPSP. Os mediadores do projeto e a área de projetos culturais da instituição desenvolvem um plano de ciclos de leitura e multiplicação visando ampliar seu campo de atuação. Para implantar suas novas propostas e continuar o trabalho já iniciado em outras penitenciárias, o projeto necessita do auxílio da iniciativa privada e do poder público. "Queremos chamar a atenção da sociedade para mostrar que o problema da insegurança não se resolve apenas com repressão, é preciso lançar mão de processos educacionais, nosso foco não está voltado para o acervo em si, mas dirigido para as pessoas que fazem uso dela", finaliza Wagner.

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