08/10/2012

Lecionar é só 4ª razão para escolha do curso de licenciatura na USP

FÁBIO TAKAHASHI - Folha de São Paulo - 06/10/2012 - São Paulo, SP

Na USP, principal universidade do país, quase a metade dos universitários que entram em cursos para formar professores afirma que não deve seguir no magistério.

A situação refere-se à formação de docentes de matemática e de física para os ensinos fundamental e médio --matérias que possuem deficit de mais de 200 mil professores no país, segundo o último levantamento da União.

O desejo foi apurado em pesquisa da Faculdade de Educação da própria USP.

Aos calouros de 2010 perguntou-se se gostariam de atuar no magistério ao se formar. Em física, 47,6% disseram que não ou que tinham muitas dúvidas. Em matemática, 45,2%.

Sobre os motivos que levaram a escolher a licenciatura na USP, a opção trabalhar como professor foi a quarta mais citada. Perdeu para gratuidade do curso; possibilidade de ida à pós-graduação; e `gosto` por educação ou exatas.

Ou seja, boa parte espera usar o diploma para disputar vagas fora das escolas básicas. Pode ser no ensino superior ou até fora da área de educação.

`É preciso melhorar a carreira dos professores, para atrair esses estudantes. E a USP também poderia tentar incentivar mais seus alunos a seguirem no magistério`, diz a pedagoga Luciana França Leme, autora da pesquisa.

Um caso que se encaixa no perfil mostrado pelo estudo é o de Rodrigo Alves Masson, 24.

Ele ingressou na licenciatura em física, mas desde o início tinha dúvidas se atuaria no magistério. Após um ano, mudou para bacharelado, mais voltado ao trabalho em empresas ou pesquisas. `É um curso muito difícil para, no fim, não ser valorizado no magistério.`

Agora, vê como possibilidade o trabalho em física médica ou mercado financeiro.

SALÁRIOS

Para a diretora da Faculdade de Educação da USP, Lisete Arelaro, `os salários são a variável principal se você deseja uma juventude entusiasmada e dedicada para a profissão.`

Em fevereiro, a média salarial de um analista de mercado era 40% maior que a de um professor da rede estadual (R$ 2.237, sem gratificações).

Há uma linha de pesquisadores, porém, que relativiza tal discrepância salarial. Afirmam ser necessário considerar a estabilidade do setor público e condições mais favoráveis para a aposentadoria.

Membro do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, Simon Schwartzman defende a elevação de salários e a facilitação do acesso de profissionais de outras áreas ao magistério (hoje limitado por exigência de cursos pedagógicos). Essas pessoas bem qualificadas, afirma, poderiam lecionar em tempo parcial.

O Ministério da Educação diz que a carreira docente melhorou, principalmente com o piso nacional, hoje de R$ 1.451, que prevê ainda 1/3 da jornada fora da sala de aula.

A Secretaria Estadual de Educação ressalta que reajustará os salários em 42,45% entre 2011 e 2014.

Internamente na USP, há a preocupação em qualificar professores para o ensino básico, diz o diretor do Instituto de Matemática e Estatística, Flávio Ulhoa Coelho. Em sua unidade, há uma comissão específica para licenciaturas e, neste semestre, começou um mestrado profissionalizante em ensino de matemática.

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