Jovens pobres vivem segregados em seus bairros
Por Cássia Gisele Ribeiro, do Aprendiz
"As políticas públicas para a juventude no Brasil estão a favor da desigualdade social e da divisão de classes. As novas políticas têm nos feito engolir que o jovem deve permanecer o dia inteiro na escola ou o dia inteiro em seu bairro, como uma forma clara de confiná-lo longe dos espaços centrais da cidade". A crítica foi feita pelo docente da faculdade de saúde pública da Universidade de São Paulo Rubens Adorno, durante o seminário "Juventude, Violências e Políticas Neoliberais", realizado na última quarta-feira (15).
Para o pesquisador, as atuais políticas educacionais dos governos, que pretendem manter os alunos na escola o dia todo e aos finais de semana, são uma forma de tirar o jovem de circulação da cidade para mantê-lo segregado em seu gueto. Segundo ele, essas políticas não permitem que o cidadão percorra outros espaços públicos além da escola.
Maria do Carmo de Menezes, socióloga e ex-diretora do Serviço de Segurança e Prevenção da Criminalidade na prefeitura de Champigny-sur-Marne (França), mostrou aos participantes do seminário que na França isso já acontece. As periferias são completamente distantes dos grandes centros e, embora os espaços sejam bem mais humanos e esteticamente mais agradáveis do que as favelas do Brasil, a violência e a exclusão social são presentes da mesma forma. "A estratégia de colocá-los em um espaço afastado da cidade foi completamente eficiente no sentido de segregá-los ainda mais e aumentar a revolta e a violência", conta.
Para a pesquisadora, o modelo de moradias populares na França gerou mais violência porque foi marcado pelas diferenças sociais, étnicas e culturais. Os jovens daquele país são completamente divididos entre si. "Na França a categoria 'jovem' traduz diferentes tipos de pessoas: o jovem negro, o jovem imigrante o árabe, o francês. Todos vivem em realidades completamente diferentes", diz.
Adorno afirma que as políticas sociais em todo o mundo são voltadas para essa realidade e são perversas porque fazem com que a população acredite que isso é o melhor para ela. "No Brasil, a população não se rebela como na França justamente por acreditarem que essa é a melhor política para eles". Ele afirma, no entanto, que os jovens se sentem discriminados e envergonhados por viverem nessas regiões. "Isso acaba sendo um agravante a mais para que esses se tornem vitima de discriminação e violência, sobretudo violência policial", comenta.
O professor criticou também as políticas relativas ao uso e ao tráfico de drogas. Segundo ele, as leis que coíbem o tráfico só permitem que ele seja mais rentável para os traficantes, já que eles acabam cobrando o que querem dos usuários.
Além disso, o palestrante afirma que a atual política, que pune gravemente o traficante e é compreensiva com o usuário, não é efetiva no combate ao crime organizado e em relação à dependência química no país. "Essa política existe para amparar os filhos da classe média, permitindo que eles possam comprar sua droga em paz, enquanto os moradores das favelas são severamente punidos quando encontrados com substâncias ilícitas, sob a justificativa de tráfico", diz.