03/08/2009

Jovens não são protagonistas em ações de redução da violência

Por Rodrigo Martins, da Agência USP

 

Os jovens mais vulneráveis das regiões mais violentas da cidade de São Paulo não são protagonistas das ações sociais em suas comunidades. A constatação é feita numa pesquisa de doutorado defendida recentemente na Faculade de Saúde Pública (FSP) da USP, da psicóloga Fátima Madalena de Campos Lico. De acordo com o estudo, jovens que abandonaram a escola nem chegam a ser atingidos pelas ações promovidas tanto pela esfera pública quanto pelas entidades assistenciais e não-governamentais.

Fátima afirma que “A pesquisa teve como objetivo analisar e comparar as ações coletivas e as experiências participativas dos jovens realizadas pelas organizações governamentais e não governamentais nos distritos administrativos do Grajaú e do Jardim Ângela, visando contribuir para a implementação de políticas públicas e na construção de uma cultura de paz.” Segundo ela, Grajaú e Jardim Ângela foram devido aos dois serem os distritos que possuíam o maior número de óbitos por homicídios entre jovens.O fato do Jardim Ângela, após ser considerado o bairro mais violento da capital paulista, ter sofrido grande intervenção da sociedade civil para reduzir o problema também foi levado em conta para o estudo.

Foram encontrados projetos ou ações que visavam a redução da violência ou alteração da realidade social do jovem nos dois distritos. No Grajaú, o trabalho era articulado principalmente pelas Organizações Não-Governamentais (ONGs) em parceria com o poder público. Já no Jardim Ângela destacou-se uma rede de entidades lideradas por organizações religiosas ligadas a Igreja Católica. As ações sociais analisadas abrangiam diversas áreas como educação, saúde, cultura, meio ambiente, esporte e lazer.

Contudo os projetos visavam apenas em ultima instância a retirada dos jovens da rua, da ociosidade. “O que ficou mais evidente é que os projetos são mais assistenciais, que visam atender as necessidades básicas dos jovens e das famílias”, destaca a psicóloga.

O papel e a visão do jovem
A partir de entrevistas com jovens de 10 a 19 anos, que freqüentavam ou não a escola, a pesquisadora concluiu que eles entendem que ser jovem inclui aproveitar a vida, se divertir e se preparar para o futuro, uma fase de transição para a vida adulta.

Em relação às regiões onde vivem, a psicóloga afirma que os jovens gostam dos locais onde moram e consideram o seu bairro tranqüilo em relação à violência. O que para ela mostra uma contradição no discurso, uma vez que o principal problema apontado em relação ao bairro que moram é a própria violência. Em relação à atuação na mudança dessa realidade, ela afirma que “não há um envolvimento dos jovens entrevistados no sentido de uma atuação para modificar aquela realidade existente.”

Um fato importante é que os jovens entrevistados das regiões de maior vulnerabilidade dentro dos próprios bairros não participam das ações promovidas nos locais, tanto as organizadas pela sociedade civil, quanto as governamentais. Entre os estudantes, a participação se restringe a mutirões e grupos de preces. Os que não estudam estão excluídos totalmente, passando o dia todo na rua ou dentro de casa. “Isso talvez se explique por se tratar de uma região mais excluída”, aponta a pesquisadora.

Resultados e propostas
Os resultados da pesquisa apontam que as iniciativas promovidas nas regiões surtiram efeito na redução da violência, acompanhada, porém, por uma redução em toda a cidade de São Paulo. No Jardim Ângela a redução foi ainda maior do que em relação ao Grajaú, uma vez que as ações sociais são mais integradas no bairro e estão presentes a mais tempo. Contudo, os bairros ainda continuam mais violentos do que a média da capital.

Sobre uma mudança na participação do jovem na tentativa de alterar essa realidade, Fátima esclarece que os projetos devem promover a autonomia dos jovens e considerá-los como sujeitos de direitos. “Os jovens precisam participar dessas ações e das políticas públicas. As políticas públicas precisam ser feitas com os jovens, não para os jovens”, explica Fátima.


(Envolverde/Agência USP de Notícias)
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