| Por Leandra Rajczuk, da Agência USP | Cerca de 320 cartas enviadas para Monteiro Lobato (1882-1948) e preservadas pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP foram o ponto de partida para uma pesquisa que conseguiu analisar como a leitura era realizada pelas crianças e jovens durante as décadas de 1930 e 1940. “Ao entrar em contato com a documentação existente no IEB, me surpreendi com a riqueza do material e com as opiniões das crianças, muitas vezes inusitadas, sobre aquilo que liam”, conta a historiadora Patricia Tavares Raffaini. “No campo de História da Leitura existe uma grande dificuldade em se conseguir fontes que nos mostrem como a recepção literária acontecia, e as cartas para Lobato me pareceram uma fonte importantíssima.”
Durante a pesquisa que resultou na tese de doutorado Pequenos Poemas em Prosa, defendida em agosto de 2008, no Programa de Pós-Graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Patrícia realizou a transcrição de todas as cartas, além da leitura das obras infantis nas edições originais. “Como se sabe Lobato mudava muito as obras de uma edição para outra”, explica. “No acervo da Biblioteca Monteiro Lobato pude encontrar também revistas destinadas ao público infantil, e outras obras literárias do período, que pouco haviam sido analisadas pela bibliografia da área.”
O título da tese, com orientação do professor Elias Thomé Saliba, do Departamento de História da FFLCH, faz referência às cartas que as crianças enviaram para Monteiro Lobato na época, onde comentam quais livros gostavam mais, o porquê dessa escolha, entre vários outros assuntos, inclusive muitos pedidos que “ao que parece, eram sempre atendidos”. No entanto, a historiadora trabalhou ainda com as memórias de época e um jornal produzido por crianças na Biblioteca Municipal Infanto-Juvenil Monteiro Lobato intitulado “A Voz da Infância”, além de várias outras fontes.
Perfil plural De acordo com Patrícia, as cartas, bem como o jornal “A Voz da Infância”, revelaram um perfil plural de leitores. “Encontramos desde crianças que eram filhas de literatos e políticos amigos pessoais de Lobato, até crianças pertencentes a camadas muito humildes da população”, diz. Outro dado é que a circulação de livros de Lobato era deficiente até mesmo em grandes centros urbanos, pois eram inúmeros os pedidos para que uma determinada obra fosse encontrada.
“No entanto, não podemos esquecer que, durante as décadas pesquisadas, o analfabetismo era enorme e que não havia vagas nas escolas para muitas das crianças das camadas mais populares, mesmo nas grandes capitais. Além disso, nesse período, temos crianças que começavam a trabalhar com seis, sete ou oito anos e não recebiam nenhuma escolarização”, observa a pesquisadora. “Mas as crianças que escreviam para o Lobato eram leitores atentos e perspicazes e comentavam desde os enredos e situações engraçadas do texto, quanto às ilustrações, o formato do livro, sua capa, às vezes apontando alguma incongruência entre o texto e a ilustração.”
Humor e “asneirinhas” Nesse sentido, um dos pontos que as crianças mais comentam nas cartas é sobre o humor na obra lobatiana, o que parece ter sido o grande motor da leitura: os pequenos gostavam de ler porque se divertiam e as cenas narradas eram engraçadas. “A personagem mais comentada e a que todos se referem como a que gostavam mais era a boneca Emília, por ser impertinente e falar as famosas ‘asneirinhas’ que divertiam a garotada”, enfatiza. “Também tinham leitores que gostavam dos livros de Lobato, pois por intermédio deles aprendiam conteúdos que na escola não conseguiam aprender, como no caso da obra ‘Gramática e Aritmética da Emília’.”
Segundo Patrícia Raffaini, as cartas e o jornal identificaram crianças e jovens leitores que, além de lerem bastante, tinham opiniões muito definidas sobre o que gostavam e porque gostavam de determinado autor ou obra literária. “A documentação mostra leitores com autonomia de pensamento, como atores sociais ativos, com opiniões sobre o que liam e o que achavam do mundo muito definidas, e às vezes totalmente diversas das dos adultos”, informa Patrícia, ressaltando uma das autoras importantes para a pesquisa, Clarice Cohn, “a criança não sabe menos ela sabe outra coisa”.
(Envolverde/Agência USP de Notícias) |