"Jovens" e "adolescentes" trazem significados opostos
Por Luigi Parrini, da Agência USP
Adolescência é categorizada por meio de discursos inconscientes.
Quando há um crime, uma infração, uma situação fora dos padrões sociais, é o "adolescente" que está em cena; se o fato envolve uma ação positiva, um projeto social, uma abordagem menos crítica, o "jovem" aparece. Essa diferenciação pela palavra, feita de forma inconsciente, porém não menos problemática, e que cria barreiras no processo de ensino, como constata a psicopedagoga Tânia Aguiar em sua dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Educação (FE) da USP.
Ao trabalhar com professores e adolescentes em escolas, Tânia percebeu uma queixa para a qual os professores não viam ‘saída’ na relação entre os dois grupos nas salas de aula. A adolescência é apontada pelos docentes como causa da ineficiência escolar, e, de modo mais amplo, de todos os problemas que envolvem os alunos. "O professor diz que o aluno não quer saber de nada porque é adolescente", afirma a pesquisadora.
Dessa forma, a psicopedagoga estudou a história do conceito de "adolescência" e suas implicações. No começo do século XX, o termo surgiu na psicologia para designar as pessoas de determinada faixa etária, que eram consideradas problemáticas a partir de suas experiências nas fábricas, nos colégios e no exército. Pouco tempo depois, esse termo foi atrelado ao meio escolar e apropriado pela psicologia educacional, concomitantemente ao aumento da demanda da educação formal.
A partir dessa varredura histórica, a pesquisadora partiu para a análise do uso corrente dos termos que envolvem a situação do adolescente. Tânia pesquisou o conteúdo das revistas Nova Escola e Educação, voltadas ao público docente, de janeiro de 2000 a junho de 2006, sob a orientação de seis eixos temáticos: agressividade, delinqüência, sexualidade, drogas, projetos sociais e métodos pedagógicos.
O uso do termo "adolescência" e seus derivados foi recorrente nos quatro primeiros eixos e quase inexistente nos dois últimos, em que se privilegia o uso do termo "juventude". A psicopedagoga reforça, no entanto, que tal diferenciação não é proposital: "[A diferenciação] não é um ato consciente; é a força da significante. Para se ter uma idéia da força inconsciente dos usos diversos dos termos, Tânia cita uma reportagem da revista Nova Escola de maio de 2004. No texto "Educação como Castigo", que tratava da antiga Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, atual Fundação Casa), "adolescência" e seus derivados apareceram 43 vezes. "O termo ‘menor infrator’ é associado constantemente a ‘adolescência’ e não a ‘juventude’", acrescenta a pesquisadora.
Há também o deslocamento psicanalítico da significação de "sexualidade" em função da adolescência: "o termo acaba sendo associado à descoberta, à imaturidade, à necessidade de prevenção e à falta de orientação". "Tudo aquilo que é associado a fatores considerados positivos pela sociedade - como renovação social - se relaciona com ‘jovem’, e, aos negativos, ‘adolescente’".
Uso maniqueísta
Tânia também entrevistou professores para analisar o impacto dos termos no campo pedagógico, de modo a confirmar o embate discursivo. "Uma professora chegou a dizer: ‘já trabalhei com jovens infratores, ou melhor, adolescentes infratores’", relata a psicopedagoga. "Na hora do plano de aula e de projetos pedagógicos e iniciativas de governo, porém, se usam os termos ‘aluno’, ‘jovem’, ‘garotada" .
O uso maniqueísta dos termos, além de preconceituoso em certa forma, é errado de acordo com as definições do Estatuto da Criança do Adolescente (ECA). Na reportagem já citada, há um trecho que diz "O Brasil tinha, em janeiro, quase 40 mil adolescentes cumprindo medidas sócio-educativas - 0,2% do total de 25 milhões de jovens brasileiros entre 12 e 18 anos". Porém, o ECA diz que são considerados jovens aqueles entre 15 e 24 anos; para a faixa etária de 12 a 18 anos é que se usa o termo "adolescente".
Por fim, Tânia procurou ver as conseqüências desse discurso bipolarizado na sala de aula. "Há a ‘psicologização’ do cotidiano escolar, na qual os professores enxergam os alunos pela lente da psicologia, sem considerar as singularidades do estudante, demitindo-se do ato educativo em nome do conceito de adolescência, criando uma barreira psicopedagógica", constata a pesquisadora.
(Envolverde/Agência USP)