Jovens descobrem concursos
Por Lilian Burgardt
Setor público tem sido nova aposta de carreira. Será que vale a pena?
Se você já possui Ensino Superior completo e está em busca de uma oportunidade de trabalho, deve ficar atento às ofertas em órgãos públicos e outros setores governamentais que estão com inscrições abertas. Apesar da má fama por conta da burocracia que muitos acreditam estar enraizada no funcionalismo público, as vagas no setor podem se traduzir em boas chances de aprendizado, em especial para recém-formados. Além de garantir que os novatos exerçam sua função dividindo experiências com profissionais com mais "bagagem" no setor, estes postos aproximam estes cidadãos das dificuldades e necessidades de nosso país, incentivando, em alguns casos, atitudes transformadoras.
Nos últimos anos, segundo o coordenador acadêmico do Cespe/UnB (Centro de Seleção e de Promoção de Eventos da Universidade de Brasília), Paulo Portela, é crescente o número de jovens que apostam no setor público. Essa mudança é decorrente, principalmente, do avanço da tecnologia e da necessidade de mão-de-obra específica e qualificada, funções que, hoje, acabam sendo melhor desenvolvidas por jovens. "Muitos concursos abrem vagas específicas para funções que necessitam de pessoal qualificado e familiarizado com novas tecnologias. É inegável que a maioria dos jovens têm mais facilidade com estas ferramentas e por isso acabam conquistando mais vagas", revela. Um exemplo disso, é o concurso para perito da Polícia Federal que exige perícia em redes de comunicação. "Esta é uma área nova cujas atividades são muito atraentes para este perfil ", destaca.
Não é, porém, apenas por conta da mudança no perfil das vagas que muitos jovens têm decidido seguir carreira no setor público. Você pode pensar que matou a charada ao dizer a palavra-chave: estabilidade. Claro que este fator ainda pesa muito na hora da decisão, mas, segundo Portela, a surpresa é que, atualmente, o idealismo e o desejo de mudança são fatores que estão influenciando muitos a apostar nesta área. "Sentimos um interesse deles em aprender e em modificar o setor com seu conhecimento, além de somar forças em prol de sua melhoria", diz.
É o caso jornalista graduada pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) Cristiane Bonin Barcella, de 27 anos. Apaixonada pela área ambiental desde os tempos da faculdade, ela decidiu se inscrever no concurso do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para seguir carreira lutando contra a corrupção em defesa do verde. O desejo de ingressar no instituto é tão grande que mesmo não tendo sido convocada na seleção de 2003, em que havia sido aprovada, Cristiane não desiste. "Prestei o IBAMA pela primeira vez quando o concurso ainda era unificado. Foi difícil. Minha nota não foi das melhores, por isso não fui chamada", explica.
Ciente de sua deficiência, a jornalista decidiu investiu em uma pós graduação em Direito Ambiental, também na Unimep, na esperança de que na próxima edição do concurso sua vaga estivesse garantida. No outro ano, porém, a seleção deixou de ser unificada e passou a ser regional. Com isso, foram abertas apenas duas vagas para o estado de São Paulo. Na época, sem emprego e dinheiro para se inscrever em outro estado que oferecesse mais oportunidades Cristiane viu seu sonho ir embora novamente. Mas você pensa que ela desistiu? "Estava desempregada e não tinha nem dinheiro para viajar. Hoje a situação é outra. Em uma nova seleção, mesmo que regional e ainda assim, na Amazônia, eu vou prestar e, se Deus quiser, conseguir", brinca.
Embora mais comedido, também é o idealismo que move a administradora de empresas brasiliense, Mariana Corrêa Maudi a batalhar por uma vaga no setor público. "Sempre ouvi que no setor privado as coisas aconteciam. Passei anos trabalhando em multinacionais e empresas de grande porte e vi o descaso do RH (Recursos Humanos) com os funcionários, além do excesso de burocracia emperrar importantes processos", lamenta. "Creio que o grande problema está na estrutura verticalizada, ou seja, com vários níveis de chefia e de tomadas de decisão", reflete.
Ela, que pretende ingressar na Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) por acreditar que a instituição não sofre deste mal e, ainda, esteja comprometida com resultados, pensa que poderá contribuir graças à sua experiência no setor privado. "Minha experiência em Marketing e em Administração, contornando problemas e vencendo desafios, aliada a uma boa infra-estrutura e, sobretudo, trabalho em equipe, podem ser fatores transformadores na agência reguladora", acredita.
É claro que ingressar em uma destas instituições não é nada fácil. Seguindo o ritmo do mercado, as autarquias, instituições e órgãos públicos, estão cada vez mais exigentes com o nível dos candidatos. "É praxe que os concursos que exigem nível Superior recrutem candidatos graduados em instituições credenciadas pelo MEC e que tenham experiência profissional. Mesmo os mais jovens têm que ter vivido a experiência do mercado de trabalho para conseguir desenvolver bem as atividades no setor público", diz Portela. Por isso, a ordem é se preparar. E nessa luta vale se trancafiar em casa durante meses para estudar, como fez Cristiane. "Meus fins de semana eram com os livros", lembra. Ou apostar em cursinhos específicos como tem feito Mariana. "Só saio de casa para estudar e quando volto, a ordem é estudar. Sequer atendo o telefone", diz.
Onde estão as vagas?
Embora muita gente pense que o funcionalismo público seja ruim por se tratar de um ciclo vicioso comandado por burocratas reacionários, tem muito sangue novo trabalhando nos bastidores e já fazendo a diferença. Por isso, se você ficou interessado nestas oportunidades, não deixe de conferir alguns concursos públicos com inscrições abertas. Só neste mês de abril há uma série de oportunidades. A Defensoria Pública do Acre, a ANA (Agência Nacional das águas), o Dataprev (Dados da Previdência Social) e o Senai - São Paulo são exemplos de órgãos públicos com inscrições abertas.
Concurso público em ano eleitoral, pode?
Esta é uma dúvida comum de boa parte dos candidatos que pretende concorrer a uma das vagas do setor público.
Vale ressaltar que não há qualquer limitação para a realização de concursos públicos em ano eleitoral, havendo apenas a limitação de não nomeação três meses antes do pleito e desde que o concurso ainda não tenha sido homologado.
Caso já tenha havido a homologação não é preciso respeitar esse período de três meses cabendo até mesmo nomeações na véspera das eleições.