Intercâmbio idealista
Mais do que turbinar o currículo, eles querem se engajar em uma causa.
Embora a grande maioria dos jovens ainda viaje para o exterior buscando aperfeiçoar o currículo, engajados apenas na busca neurótica por um aperfeiçoamento profissional, existem alguns idealistas perdidos por aí, buscando ampliar sua visão de mundo. Pode parecer um tremendo blá blá blá, até por que, não é raro ouvir coisas do tipo: "os jovens de hoje não querem nada com nada". Parte deste discurso pode até ser verdade, mas é fato que o capitalismo não conseguiu subjugar todas as mentes. Desta forma, em vez de Estados Unidos, Europa, Nova Zelândia ou Austrália, muitos escolhem países como Bolívia, México, Israel, Cuba ou África do Sul como destino.
É o caso de Ingrid Gomes Souza, 25 anos, que ao terminar o Ensino Médio não pensou duas vezes em arrumar as malas e partir para Israel. Você pode até se perguntar: "o que fazer neste fim de mundo?" Mas o destino não foi escolhido ao acaso. A curiosidade de conhecer a cultura judaica e a paixão por História da Arte lhe direcionou a este rumo. E a decisão por morar em um Kibutz só surgiu para complementar estes dois grandes objetivos.
Durante os doze meses do intercâmbio, Ingrid trabalhou no setor de seleção e embalagens de um Kibutz agrícola, e nos tempos vagos conheceu um pouco mais da História da Arte, visitando os museus de Israel, Egito, Jordânia e Turquia. "Comparar essa experiência com um programa nos EUA ou na Inglaterra é como comparar um prato de macarrão com Sushi. O intercâmbio no kibutz é para quem tem interesse em conhecer e conviver com outras culturas", afirma.
Segundo a presidente da Belta (Brazilian Educational & Language Travel Association - Associação de Agências de Intercâmbio), Tatiana Visnevski de Carvalho Mendes, a procura por intercâmbios em busca de um ideal é crescente. "Geralmente, este interesse surge só depois da primeira experiência internacional".
Foi justamente isso que aconteceu com o estudante de Propaganda e Marketing da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Dino Kupernan Siwek, 21 anos. Depois de conhecer os Estados Unidos, o Canadá e o Chile, surgiu o interesse de ir para Cuba, mas desta vez a viagem tinha um objetivo diferente. Nada de passear e aproveitar as férias, a finalidade do intercâmbio era conhecer a história do país comunista. A experiência durou apenas doze dias, mas foi o tempo suficiente para que Dino alcançasse sua meta. "Pude conhecer mais de perto uma nação socialista e isso contribuiu muito para a minha percepção de mundo. Aprendi a aceitar o diferente", conta.
Correndo atrás
Ser idealista não é suficiente para que se dê passos rumo à transformação do mundo. Para isso, é preciso sair da inércia e criar oportunidades ao invés de ficar parado esperando por elas. Esta foi atitude tomada pelo estudante de Engenharia de Produção da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) João Paulo Martins da Rocha, 23 anos. Mesmo sem grana para realizar seu sonho, ele não desistiu. "A vontade de ajudar e contribuir para o próximo sempre foi maior do que qualquer barreira", relata.
Depois de muito esforço, João Paulo ganhou uma bolsa por meio de uma seleção que envolveu candidatos do Brasil todo e partiu para a África do Sul prestar trabalho voluntário através da organização não governamental AFS Intercultural. Foram seis meses ajudando na alfabetização de crianças em situações de riscos e desenvolvendo projetos de geração de renda. "O programa uniu dois grandes objetivos de vida: o conhecimento cultural e a atuação em projetos sociais. Fazer a diferença na vida de algumas pessoas é o suficiente para dizer que valeu!", descreve.
O pós-graduando Denis Barreto não teve a mesma sorte de João Paulo. Para realizar o seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) da graduação de Jornalismo, Barreto também teve que enfrentar algumas barreiras, uma delas a financeira. Mas, as dificuldades não fizeram o estudante abandonar o trabalho de reportagem para a realização do livro "Mama Coca: entre o mito e a mistificação da folha". Foram 20 dias nas regiões do Chapare (Cochabamba) e Yungas (La Paz) na Bolívia para estudar o narcotráfico no país. "O interesse surgiu com um trabalho de iniciação científica sobre a questão da democracia, justamente no ano em que ocorreu a explosão dos conflitos sobre a água na Bolívia. A partir daí, surgiu uma grande curiosidade por minha parte em conhecer mais sobre este misterioso país", explica.
E as conseqüências, de acordo com Barreto, foram as melhores possíveis. Além de uma excelente nota no trabalho de reportagem, o estudante teve a oportunidade de desenvolver, ainda mais, a sua visão humanística. "O mercado de trabalho não valoriza este tipo de programa, já o mundo acadêmico, sim. Mas o meu maior aprendizado se refere ao crescimento pessoal, no sentido humanístico. Hoje, tenho uma ótica totalmente diferente do mundo", enfatiza Barreto.
E o mercado de trabalho?
A preocupação com uma colocação profissional é cada vez mais precoce. Assim, a maioria espera que suas atitudes reflitam positivamente na sua carreira. Mas, e a prática do intercâmbio idealista, como é vista pelo mercado de trabalho? Segundo a consultora da Career Center, empresa de orientação profissional, Vera Vasconcellos, existe uma tendência das grandes empresas valorizarem este tipo de experiência.
"Você contrata um funcionário não só por sua bagagem técnica, mas também por seu perfil pessoal. Este tipo de atividade complementa a vivência do candidato, o tornando um profissional com um perfil humano mais completo. E as empresas já começam a enxergar isso", explica. Independentemente da área ou do curso que você quer seguir, de acordo com Vera, esta experiência é sempre bem vinda. "É muito mais uma formação de vida".
Para João Paulo, a experiência trouxe bons frutos. Logo na primeira oportunidade de emprego a empresa valorizou sua experiência internacional. "Embora tenha trazido benefícios para a minha carreira profissional, não foi o maior e melhor reflexo da viagem. Nada se compara ao enriquecimento e a satisfação pessoal", conclui.
Me interessei, onde procurar?
Você também tem veia idealista? Então não perca tempo! Procure o departamento de relações internacionais da sua instituição. Apesar de não ser a via mais usual para quem procura fazer um programa de trabalho voluntário ou um programa cultural, esta pode ser também uma alternativa.
O caminho mais usual para aqueles que desejam correr atrás de seus ideais no exterior é procurar uma das diversas agências particulares de intercâmbio existentes no país. A organização não governamental AFS, por exemplo, oferece programas de trabalhos voluntários na África do Sul e no Reino Unido para jovens interessados na troca de informações no universo do desenvolvimento social. A Travellers também atua neste segmento, oferecendo programas em Kibutz, no Israel.
· AFS Intercultural - http://www.afs.org.br ou (21) 2224-4464.
· Travellers - http://www.travellers.tur.br ou (11) 3488-1898.
· AIESEC - http://www.aiesec.org.br ou (11) 5549-4880
· IAEST - http://www.iaeste.org.br ou (11) 3677-3660