25/01/2006

Instituições investem na criação de novos cursos

Foi-se o tempo em que abrir um curso de Direito ou Administração era sinônimo de muitos candidatos. Devido à concorrência, saída é oferecer novas opções de cursos, à vezes bem criativos.

Direito, Administração, Pedagogia, Letras. Esses são cursos que sempre tiveram grande procura. Por esse motivo a maioria das IES (instituições de Ensino Superior) se não os têm, pensam em criá-los. Desde sempre foi assim: grande parte das universidades cria novos cursos tendo em mente os mais tradicionais. Enquanto a procura estava maior do que a oferta, tudo parecia que corria às mil maravilhas. Porém, atualmente, as cadeiras começam a ficar vazias.

Essa maneira de instituir novos cursos de graduação trouxe alguns problemas para as IES. Por não planejarem um posicionamento definindo em qual área iriam se especializar e partirem para a variedade de direções, as universidades tinham que investir pesado cada vez que criavam novas graduações. "Esse jeito aleatório, de simplesmente copiar aquilo que o outro estava fazendo: ´Vou criar tal curso porque a escola que tem, possui muitos candidatos e eu vou ter também`... isso daí, entre outras coisas, é uma das causas dos altos custos das instituições", observa o diretor-presidente da CM Consultoria, Carlos Monteiro.

A IES começa funcionando em uma determinada área, quase sempre Ciências Sociais Aplicadas. De repente resolve entrar na área de Tecnologia, depois passa para a Saúde e assim vai. "Você pega uma escola que tem Direito, Medicina Veterinária, Pedagogia, Educação Artística e Letras e verifica que a relação de convergência e divergência é nenhuma. Cada curso para ela significa investimento total, não se trabalha com uma análise de convergência de custos para a partir de uma mesma base otimizar os recursos que vai utilizar", completa Monteiro.

Somado a isso, temos a expansão do Ensino Superior, que passou por uma fartura de demanda. Então, esses critérios de escolha não preocupavam muito porque se fossem abertos quaisquer cursos tradicionais daria certo. "Era assim, sem critério nenhum, sem pesquisa de mercado. Do ano passado para cá, como a expansão do setor estagnou, aquele crescimento exponencial de demanda parou, as instituições começaram a se preocupar em avaliar melhor os produtos a serem lançados", explica o presidente da Hoper Educacional, Ryon Braga.

Ambos os consultores ressaltam que a maioria das IES ainda não tem critério algum para lançar novos cursos. Mas algumas começam a pesquisar o mercado para ver o que, efetivamente, podem lançar que não esteja saturado. O curso de Direito é um exemplo clássico, existem hoje cerca de 800 no país. Esse excesso se deu em parte por culpa das instituições. Mas por que a instituição queria ter Direito?

Para Braga é um problema cultural. "Se você vai conversar com um adolescente que está terminando o Ensino Médio, ele diz: ´Meu pai disse que se eu fizer Medicina e Direito eu vou ter retorno garantido, não vou me arriscar em outra profissão`. Há uma coisa cultural no Brasil muito séria, que são as famílias, mais até do que os próprios jovens, acharem que há meia dúzia de cursos com retorno garantido. Isso não existe mais. Só que esse problema cultural demora um tempo para ser compreendido e se modificar", avalia.

Universidades

Por outro lado, as IES indicam que muitos fatores dão origem a um curso novo. Para o decano de graduação da UnB (Universidade de Brasília), Murilo Camargo, um deles, eventualmente, é uma pesquisa de mercado ou uma demanda da sociedade. "Uma é a situação que a gente tem hoje, em que estamos expandindo: a UnB está criando novos campi na região do entorno do Distrito Federal. Lá foi feita uma consulta à sociedade organizada com debates até que os cursos escolhidos para aquela região fossem definidos, então encerramos de acordo com os anseios das comunidades locais e também das características econômicas do local", diz Camargo.

Todas as universidades possuem um PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional) e qualquer novo curso deve ter sido contemplado nesse planejamento anual da IES. Uma graduação não pode surgir do nada. "Aqui na UniSant´Anna, todo eventual curso novo é fruto de um trabalho de planejamento", conta o diretor-geral da UniSant´Anna, Juper Crispino.

Na Unicamp, para que um novo curso seja autorizado é necessário que ele passe por todas as instâncias acadêmicas, terminando pela aprovação final do Conselho Universitário. Normalmente em agosto, quando sai a Revista do Vestibular do próximo ano, já estão definidos os novos.

"Fazemos um estudo de mercado de longo prazo. Se houver demanda, condição e infra-estrutura de laboratórios, professores e salas, nós abrimos um curso novo. Já estou nessa área há tempos e, antigamente, as coisas eram feitas de qualquer jeito. Hoje em dia existe um planejamento", explica Crispino.

E quanto à credibilidade? Para o decano da UnB, isso não é um problema: a expectativa de demanda é sempre boa. "Os cursos da UnB, normalmente, são uma referência de qualidade na região e no Brasil inteiro", coloca. Já Crispino reitera que se for um curso novo no campo em que a IES já é conhecida e está costumada a atuar ele apropria o conceito de marca da instituição. Porém, caso seja um curso de uma área diferente e inédita, toma um tempo para se consolidar.

Graduações incomuns

Para não ficar com vagas sobrando, algumas universidades começam a definir um novo posicionamento e inovam. Isso é o que vem fazendo a Anhembi Morumbi desde a sua criação. Foi a primeira instituição do país a criar os cursos de Turismo, Moda, Gastronomia e Design de Games. "Muito do sucesso da Anhembi se deve à visão do seu fundador. O próprio professor Gabriel sempre teve uma idéia de postura inovadora em determinadas áreas", explica Monteiro. A instituição resolveu utilizar como diferencial competitivo ser diferente.

"Isso ajudou a consolidar uma marca como instituição diferenciada, mas, em hipótese alguma, se baseou em pesquisa de mercado. Baseou-se no feeling do mantenedor no sentido de quais eram os cursos novos que teriam mercado, dariam certo, teriam demanda e mostrariam que a instituição é diferente. Ele pensou e foi bem feliz", completa Braga, da Hoper Educacional.

A USP Leste (Universidade de São Paulo - campus Zona Leste) também possui cursos bem incomuns, tais como, Gerontologia, Obstetrícia, Tecnologia Têxtil e da Indumentária e Lazer e Turismo. O projeto institucional desse campus da USP já nasceu distinto. "O diferencial deles não é só na escolha dos cursos, mas é também no conteúdo curricular. Eles trabalham com ciclo comum, disciplinas alternativas, muitas atividades e não só com aulas", afirma o presidente da CM Consultoria.

No novo campus da UnB, em Planaltina, está sendo estruturado um curso de Bacharelado em Agronegócios, que não é um curso muito tradicional, vislumbrando as características regionais da região onde será implantado.

"Já era para o Brasil ter uma variabilidade profissional muito maior do que tem hoje. Está crescendo agora devido aos cursos superiores de curta duração, que estão trazendo novidades. O jovem ainda não tem cultura para procurar cursos assim, tem medo, continua procurando os tradicionais", finaliza Braga. Hoje em dia, premidos pela circunstância de que as cadeiras estão começando a ficar vazias, as escolas estão começando a se reimaginar porque precisam mudar para conseguir sobreviver e é isso que começam a fazer.

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