Indústria deve investir em pesquisa, diz ministro
Por Julia Dietrich, do Aprendiz
Com a crescente importância do portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o aumento das publicações científicas brasileiras em revistas de alto impacto no exterior, o Governo Federal vem aumentando sua atuação na área de ciência e tecnologia. Por isso, capacitar e incentivar a indústria a investir na pesquisa brasileira é a principal bandeira dos últimos anos para os ministérios do Desenvolvimento e Ciência e Tecnologia.
Em entrevista exclusiva ao site Aprendiz, o ministro do desenvolvimento Miguel Jorge, que desde março de 2007 assumiu a pasta, fala sobre os planos da ciência, tecnologia, indústria e educação para 2008.
Aprendiz: O que devemos esperar do governo nos campos científico e tecnológico em 2008?
Miguel Jorge: Entre as diversas ações do governo, acredito que o plano de Ciência e Tecnologia representa um novo patamar no desenvolvimento do Brasil. Em primeiro lugar, porque aumenta os recursos, ou seja, há mais dinheiro para financiar e incentivar a pesquisa. Em segundo lugar, porque ele é um plano desenvolvido com outros ministérios.
Aprendiz: O que precisa ser feito para aumentar a produtividade científica e tecnológica do país?
Jorge: Temos que fazer uma mudança importante de base. A participação do governo no desenvolvimento da ciência e tecnologia é fundamental, mas mais fundamental ainda é o papel das empresas no investimento na inovação e na busca pela tecnologia. Nossas empresas, por exemplo, só investem em pesquisa 0,66% do faturamento, enquanto os países desenvolvidos investem bem mais.
Indústrias farmacêuticas que conseguem aprovar suas drogas na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), antes têm que investir em pesquisa para melhor conhecer e entender os efeitos e reações do medicamento. Uma empresa brasileira, recentemente, para conseguir isso, investiu 7% do seu faturamento em um novo remédio para disfunção erétil. E é esse tipo de modelo que devemos buscar.
Se as empresas não aplicarem muito em pesquisa e as instituições financeiras não financiarem empresas que estão começando, dificilmente competiremos no cenário internacional. O governo sozinho não é e não será capaz de desempenhar esse papel.
Aprendiz: Como isso se dá no cenário internacional? Quais parâmetros devemos seguir?
Jorge: Nos Estados Unidos, por exemplo, quase todas as inovações tecnológicas começaram em empresas de garagem, em instituições acadêmicas ou até em feiras escolares. Os produtos que os jovens desenvolveram, porém, foram apresentados a investidores que colocaram dinheiro para que essas inovações se transformassem em realidade. Nós temos que criar essa cultura no Brasil.
Aprendiz: Como o governo pode fomentar essa cultura? Que tipo de apoio ele deve dar?
Jorge: Tomo novamente os Estados Unidos como exemplo. Lá não há isenção fiscal para esse tipo de investimento. É sempre uma escolha de risco do empresário. O que nós temos que fazer é incentivar o empresário a investir pelo progresso.
Nós temos que quebrar algumas barreiras que ainda existem no Brasil. Existem muitas barreiras políticas, ideológicas e conceituais entre a academia e a indústria. Devemos quebrar isso de maneira definitiva para que as empresas saibam o que as universidades estão fazendo e que as universidades possam levar o que elas estão fazendo às empresas. Sem essa combinação, dificilmente aquilo que está sendo pesquisado alcançará o mercado.
Aprendiz: E como fica a questão da pesquisa sem aplicação mercadológica?
Jorge: É claro que existem pesquisas que não interessam à indústria e serão sempre exclusivas da universidade que são mantidas pelos governos.
Agora, o que não pode é ter só pesquisa pura. Ela é importantíssima para o país, mas a pesquisa aplicada é também fundamental. Pesquisa aplicada significa ter e desenvolver uma idéia e fazer com que ela seja aplicada ao mercado, fazer com que essa idéia gire. Ninguém perderá nada com isso. Isso não significa que quando uma empresa financia um projeto, a universidade se subordina à iniciativa privada. Os pesquisadores, porém, não estão isolados da sociedade e se um pesquisador quiser fazer pesquisa pura a vida inteira, ele deve ter todo o direito. Agora, eu acho que será uma perda para o país e para toda a sociedade que, por exemplo, uma grande idéia, que possa ser aplicada, não receba a oportunidade de ser financiada por motivos ideológicos.
Aprendiz: Seguindo o tema das universidades, como o Ministério vê a direção do governo federal na área da educação?
Jorge: Acredito que nessa área também demos passos importantes, pois estamos investindo na melhora da remuneração dos professores, na capacitação e formação continuada. O Programa Universidade Para Todos (ProUni) gerou 400 mil novas vagas dentro ensino privado e uma melhora sensível na produção de livros didáticos são os pontos, ao meu ver, de grande sucesso na área da educação.
E, ainda, saliento um projeto que prevê que em um prazo máximo de cinco anos todos os municípios tenham banda larga e todas as escolas públicas tenham pelo menos um computador para cada dez alunos, possibilitando a 49 milhões de alunos acesso à Internet.
Aprendiz: Como o senhor vê as críticas à reforma universitária?
Jorge: Em algumas universidades temos uma média de um professor para quatro alunos. A média do Brasil é um para 16 alunos, mas a média na França é um professor para 32 alunos e a qualidade de ensino lá é invejável. Portanto, é possível sim aumentar o número de alunos em sala de aula.
Nós não podemos ser elitistas. Temos que manter o padrão de qualidade, mas o custo marginal de um aluno a mais na sala de aula não vai comprometer a qualidade do ensino, nem do aprendizado pedagógico, nem a qualidade da discussão da sala de aula.
Uma vaga na Universidade de São Paulo Leste (USP Leste), em São Paulo (SP), custa por ano R$17 mil, então temos que ampliar sim o acesso para formar mais alunos com excelente padrão de qualidade, democratizando a cultura e o direito ao ensino superior.
Aprendiz: Mas, porque então movimentos questionam a ação?
Jorge: Os movimentos que se dizem democráticos estão na verdade é criando barreiras e empecilhos àqueles que não podem entrar na universidade. E, novamente, olhando para a França com o dobro de alunos, não temos a metade da qualidade. Não acho que é o aumento do número de alunos nas universidades que gera um problema de qualidade.
(Envolverde/Aprendiz)