08/03/2006

Incômodo na telona

Por Lilian Burgardt

Filme indicado para alunos de Direito; Jornalismo; Psicologia; Artes; Letras; Filosofia; e Cinema causa desconforto e dúvidas.

Quem vai ao cinema esperando de Crime Delicado a mesma emoção e fúria dos filmes anteriores feitos pelo cineasta Beto Brant certamente sairá um tanto quanto desapontado da salona. Na opinião de especialistas, lenta e, por alguns momentos, cansativa, a nova película do diretor brasileiro da sétima arte confunde, desconforta e, intencionalmente, deixa a sensação de um não sei quê e não sei porque nos espectadores.

Para o crítico de cinema do guia da Folha de S. Paulo, Cristian Peterman, a sensação de incômodo que o filme causa no público é seu maior triunfo. "Não é agradável de ser visto. É uma proposta desconfortável e por isso causa estranheza nos espectadores", afirma. "Ainda assim", completa o crítico, "o longa retrata algumas questões de forma interessante. Exemplo disso é o fato do crítico racional se deixar levar pelo descontrole e ver seu universo desmoronar diante do desejo por um corpo mutilado que lhe inspira proteção", ressalta.

Um pouco mais ácido em suas críticas, o professor do curso de História da Arte da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), Marcos Moraes, considera que a idéia do filme Crime Delicado deixa um vazio em relação às artes plásticas. "Ele retrata com alguma fidelidade o universo das Artes Cênicas, mas não traz uma contribuição para as Artes Plásticas, setor rico que poderia ser um pano de fundo mais bem aproveitado nesta produção", diz.

Esta "falha" fica muito evidente no cuidado que os produtores tiveram em retratar as cenas das peças teatrais cujo protagonista do filme, crítico de arte interpretado pelo ator Marco Ricca, assiste para tecer seus comentários. Mas as exposições de Campana, artista plástico que utilizava a musa deficiente física, interpretada por Lilian Taulib, não foram felizes ao serem retratadas. "A sensação que se tem é que as obras estão ali, mas não dizem nada. Não se soube explorar esse universo de forma instigante para o espectador, fazendo-o se interessar pelas obras tentando compreendê-las", opina Moraes.

Outro ponto desfavorável da película, na opinião do professor, é que ela deixa uma sensação de algo inacabado. "Notei isso nas pessoas que estavam no cinema. O filme termina e deixa você se perguntando: E aí? Então? Mas não são perguntas instigantes,no sentido de provocar, e sim, da dúvida em torno de algo que se propunha, mas não aconteceu, algo que não foi finalizado", declara. "Apesar da ótima direção, dos bons atores e da qualidade dos profissionais envolvidos este não pode ser considerado um filme cinco estrelas", completa Moraes.

Para ele, apenas quando apela para a subjetividade em torno do "crime delicado", ou seja, sobre o estupro da personagem, mostrando a visão conflitante do acusado e da vítima é que o filme consegue ganhar alguns pontos. "Ele leva o espectador a questionar se sua percepção está equivocada, a por na mesa seus valores e a ocorrência dos fatos na expectativa de entender o acontecido, mas é levado a crer como tudo pode ser relativo quando sob pontos de vistas distintos", declara.

Segundo Moraes, esta é a grande "sacada" do longa-metragem. Logo, ainda que não seja uma pérola entre os filmes de Beto Brant a ponto de ser considerado imperdível, vale ser visto, em especial, por aqueles que gostam de observar as situações em que os homens são levados a refletir e questionar seus atos. "Alunos do curso de Direito, lidam com visões antagônicas de um crime a todo o momento. Fica, então, a dica para conferir Crime Delicado. Estudantes de Jornalismo e de Psicologia, entre outras áreas ligadas a Humanidades, assim como os estudantes de Artes, também deveriam assistir", recomenda.

O crítico Peterman considera Crime Delicado uma obra desafiadora, já que muito além da questão do estupro, tem nuances sobre a arte e as relações humanas, levando os espectadores a diferentes impressões de acordo com sua moral e sua ética. Sendo assim, embora em alguns momentos não trabalhe tão bem estas questões, é uma obra que vale a pena ser conferida. "É indispensável para estudantes de Cinema, mas também pode ser vista por estudantes de Psicologia, Artes Cênicas, Artes Plásticas, Letras e Filosofia," encerra.

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