Hora de sair de casa
Depois de passar no vestibular, um novo desafio: morar sozinho.
Ufa, acabou a pressão do vestibular! O nome na lista de aprovados daquela tão sonhada universidade, a merecida comemoração e o sentimento de dever cumprido. Mas para quem entrou em uma faculdade longe de casa, em outra cidade, a festa precisa dar lugar à organização. Arrumar as malas, escolher um lugar para morar, se preparar para a grande liberdade e responsabilidade que se aproximam. Muita coisa para pensar em pouco tempo.
Foi o caso da estudante de Terapia Ocupacional da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) Sandra Midori Sakuramoto. "Meus pais me levaram até lá e ajudaram tanto no processo de escolha de uma república, como na mudança. Já de início, tive que levar a maioria das minhas coisas", conta. Ela juntou o sonho de estudar em uma universidade pública, a vontade de morar sozinha e de mudar de ambiente para encarar o desafio de aprender a se virar.
O ponto de partida é pesquisar muito bem um local para morar. Apartamentos costumam ser mais seguros, mas podem ter gastos adicionais, como o custo do condomínio. Escolher uma moradia perto da universidade e do comércio regional pode ajudar a economizar com transporte. E muito cuidado na hora de assinar o contrato de locação! Vale a pena pedir dicas para veteranos ou para a própria faculdade
A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), por exemplo, oferece atendimento jurídico gratuito para os estudantes. "Em geral, as decisões são tomadas muito rapidamente, então alguns alunos têm problemas com pessoas que tentam explorar ou algum tipo de dificuldade. Já conhecendo nosso trabalho, os proprietários das casas até evitam enfrentamentos, porque a gente faz valer o código do consumidor", explica a coordenadora do SAE (Serviço de Apoio ao Estudante), Maria Teresa Moreira Rodrigues.
Victor Nóbrega Luccas veio de Maceió (AL) para estudar na FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas). O aluno do curso de Direito morou na casa de parentes no início do curso, mas como conseguiu um financiamento para pagar a faculdade, emprega parte do dinheiro que seria utilizado nas mensalidades para moradia e alimentação. "No transporte eu consigo economizar indo a pé à faculdade, que é bem próxima, cerca de 15 minutos de distância", conta.
Mas se não dá para bancar os gastos de um aluguel, não se desespere. As universidades oferecem alojamentos próprios ou ajuda de custo para alunos carentes e que venham de outras cidades. Maria Teresa conta que a Unicamp oferece um alojamento com 900 vagas destinadas, inicialmente, para alunos de fora. Cerca de 13% do custeio da Unicamp é voltado para os benefícios estudantis.
Já a UnB (Universidade de Brasília) possui dois blocos com 92 apartamentos contando com 368 vagas. O benefício é concedido semestralmente e os critérios de seleção são socioeconômicos. "Ainda assim, as vagas não são suficientes para atender a todos que se enquadram neste perfil", afirma o diretor de Desenvolvimento Social, Rubens Mota.
Segundo o responsável pelo Programa de Moradia Estudantil da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Alexandre Oliva, a instituição oferece cerca de 950 vagas nos vários campi e quase 300 bolsas de auxílio-aluguel para seus alunos. O número de alunos beneficiados gira em torno de 3% a 5% do total de alunos da universidade.
Outros benefícios
O apoio das universidades vai muito além do auxílio-moradia. Bolsas alimentação/transporte, assistência médica, psicológica e jurídica e oportunidades de trabalho na própria instituição. Há departamentos criados especialmente para ajudar na adaptação e nos problemas do dia-a-dia.
O SAE da Unicamp oferece, além dos benefícios e assessorias, orientação educacional, programa de estágios, ações culturais e eventos com empresas e palestras. "A gama de serviços que a gente oferece é bem maior que apenas o apoio estudantil. Não é um órgão assistencial. O apoio ao estudante é bem maior do que isso", esclarece a coordenadora.
O representante da Unesp afirma que cerca de 11% da receita total é utilizada com benefícios aos alunos. Além da moradia, são oferecidas as bolsas PAE (Programa de Apoio ao Estudante). Eles recebem uma quantia em dinheiro, pouco mais de um salário mínimo, e desenvolvem projetos para a universidade de acordo com o curso ou prestam apoio aos calouros. Oliva destaca, ainda, a importância do apoio que a instituição oferece: "É uma obrigação da universidade pública dar todo apoio para que o aluno possa concluir o curso".
Responsabilidade X Liberdade
E depois de todo o processo do vestibular, da pesquisa, da escolha de um bom lugar para morar, chega a hora de sair debaixo das asas dos pais e encarar sozinho as vantagens e desvantagens de morar sozinho.
O estudante Victor, apesar de estar no segundo ano da universidade, acredita que ainda está em processo de adaptação ao novo estilo de vida. "Na mesma medida em que posso definir meus horários também tenho de me preocupar em manter a casa arrumada e com o que vou comer no jantar, além de tomar cuidado para não exceder minha restrição orçamentária".
Controlar os gastos é uma das maiores dificuldades que os universitários encontram, porque estão acostumados a deixar os gastos da casa com os pais. "Aprendi a dar valor ao dinheiro. Ao ver as contas que tenho que pagar, coloco na balança o que é realmente necessário e o que eu posso deixar para comprar depois", explica Sandra.
Para Victor, é preciso muita disciplina e organização para manter as contas em dia. "Registro todos os meus gastos nesse caderno com data e destinação. Por exemplo: almoço, lavanderia, xerox, cinema etc. Depois de alguma experiência tracei uma média de quanto eu gasto com cada coisa e quanto é razoável gastar", sugere.
De universitário para universitário, Sandra dá a dica: "Tem que se preparar psicologicamente para ficar longe de casa, da família e dos amigos. Mas é uma experiência única, que não se aprende em nenhuma faculdade, só vivendo assim para aprender muitas coisas da vida". E Victor completa: "Mudem! Saiam do mero campo da pretensão para o da ação, não posso garantir que vão se dar bem sem quaisquer dificuldades. Mas afirmo que nunca saberão se vale ou não a pena se não experimentarem".