16/10/2007

Histórias mudaram pouco em 40 anos

Levantamento da UnB descobre o perfil das personagens brasileiras e mostra que escritores reforçam estereótipos

A literatura brasileira quase não se modificou nos últimos 40 anos. A maioria das personagens e dos temas abordados pelos escritores nacionais são os mesmos desde a década de 1960, e, em vez de questionar modelos vigentes, os autores têm reforçado estereótipos. A descoberta é resultado do estudo Personagens da narrativa brasileira contemporânea, realizado por uma equipe de alunos da Universidade de Brasília (UnB) coordenada pela professora Regina Dalcastagnè. Para chegar a suas conclusões, o grupo, composto por 12 alunos, estudou 1.754 personagens de 389 romances escritos por 242 autores diferentes de 1965 a 2004.

O trabalho começou a ser feito em 2003, e se concentrou inicialmente nos livros publicados de 1990 a 2004 pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco, as mais importantes do período. Depois de perceber que existia um padrão que uniformizava os enredos e as personagens dos livros analisados, o grupo decidiu investigar também obras publicadas de 1965 a 1979 pelas editoras Civilização Brasileira e José Olympio (a escolha respeita o mesmo critério da outra temporada). “Nós estudamos a literatura produzida durante o período da ditadura imaginando que o engajamento dos escritores da época pudesse ter produzido obras que destoassem do discurso estereotipado. Mas a comparação mostrou que há pouca diferença e a escrita continuou igual nos dois períodos”, explica Regina.

O corpus da pesquisa

período


romances


autores


personagens

1965/1979


131


86


509

1990/2004


258


165


1.245

total


389


242a


1.754

(a) O total é inferior à soma da coluna, pois alguns autores

publicaram em ambos os períodos.

Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”

A grande maioria das personagens, nas duas épocas, é composta por homens heterossexuais, de classe média, brancos, e intelectualizados. Eles moram no Rio de Janeiro ou em São Paulo, e, em sua maioria, são jornalistas ou professores universitários. Mulheres, negros e homossexuais, a exemplo da realidade vivida no país, são deixados de lado. “Tanto quanto qualquer outro espaço de produção de discurso, a literatura sofre os constrangimentos do meio social em que está inserida”, afirma a professora.

O sexo das personagens

1965-1979


1990-2004

Feminino


40,7%


37,8%

Masculino


58,3%


62,1%

Outro


1,1%


0,1%

Total


100%


100%

Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”

Enquanto isso, o negro desempenha mais o papel de coadjuvante do que protagonista. Entre os livros mais recentes que foram analisados, haviam 17 protagonistas negros. Em comparação com o único protagonista das décadas de 1960 e 1970, o crescimento pode ser considerado alto. Mas o número de personagens principais brancos é sempre muito maior (260) nos dois períodos analisados.

Cor das personagens

1965-1979


1990-2004

branca

76,0%

79,8%

negra

6,3%

7,9%

mestiça


10,4%

6,1%

indígena

1,6%

1,2%

oriental

0,2%

0,6%

sem indícios

4,3%

3,5%

Não pertinente

1,2%

0,8%

Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”

Mudanças – Apesar de as mudanças serem pequenas, o estudo mostra que hoje existem mais mulheres escrevendo livros. O percentual de escritoras subiu de 17,4% para 27,3%. Quanto a idade em que eles publicam suas primeiras obras, essa diminuiu, a maior parte, 29%, entre 30 e 39 anos. E, os homossexuais têm ganhado mais espaço nos enredos. Eles representavam 2% das personagens no primeiro período pesquisado e passaram para 3,9%.

Segundo Dalcastagnè, os dados ainda são pouco expressivos, mas já servem para apontar os rumos que a literatura brasileira está tomando. A professora também faz questão de ressaltar que, entre os autores estudados, existem alguns poucos que fogem do padrão de escrita identificado.

Orientação sexual das personagens

1965-1979

1990-2004

heterossexual

88,8%

81,0%

homossexual

2,0%

3,9%

bissexual

2,0%

2,4%

assexuado

0,4%

2,0%

Ambígua/indefinida

0,4%

1,9%

não pertinente

0,6%

1,4%

sem indícios

5,7%

7,4%

Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”

Outros dados:

Estrato socioeconômico das personagens

1965-1979

1990-2004

elite econômica


23,2%

31,5%

classes médias

45,8%

51,4%

pobres

33,6%

23,9%

miseráveis

3,1%

2,9%

sem indícios

1,0%


1,8%

não pertinente

0,6%

0,8%

Obs. Eram permitidas múltiplas respostas.

Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”

Local em que se situa a narrativa


1965-1979


1990-2004

grande cidade

58,8%

82,6%

cidade pequena

45,0%

37,2%

meio rural

19,1%


14,3%

incerto

3,8%

4,7%

outro

8,4%

5,0%

múltiplos

4,6%


4,3%

Obs. Eram possíveis respostas múltiplas.

Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”

Época em que se situa a narrativa


1965-1979


1990-2004

pré-colonial (antes de 1500)

3,1%

7,0%

Colônia (1500-1822)

5,3%

6,2%

Império (1822-1889)

7,6%


10,9%

Primeira República (1889-1930)

12,2%

10,1%

Era de Vargas (1930-1945)

15,3%

10,5%

República de 1945 (1945-1964)

25,2%


18,6%

ditadura militar (1964-1985)


43,5%

21,7%

redemocratização (a partir de 1985)

58,9%

Futuro

0,8%

1,6%

múltiplas épocas

1,5%

5,8%

época incerta

13,7%

6,6%

Obs. Eram possíveis respostas múltiplas.


Crédito da imagem: Apoena Pinheiro/UnB Agência
(Envolverde/UnB Agência)


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