Histórias mudaram pouco em 40 anos
Levantamento da UnB descobre o perfil das personagens brasileiras e mostra que escritores reforçam estereótipos
A literatura brasileira quase não se modificou nos últimos 40 anos. A maioria das personagens e dos temas abordados pelos escritores nacionais são os mesmos desde a década de 1960, e, em vez de questionar modelos vigentes, os autores têm reforçado estereótipos. A descoberta é resultado do estudo Personagens da narrativa brasileira contemporânea, realizado por uma equipe de alunos da Universidade de Brasília (UnB) coordenada pela professora Regina Dalcastagnè. Para chegar a suas conclusões, o grupo, composto por 12 alunos, estudou 1.754 personagens de 389 romances escritos por 242 autores diferentes de 1965 a 2004.
O trabalho começou a ser feito em 2003, e se concentrou inicialmente nos livros publicados de 1990 a 2004 pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco, as mais importantes do período. Depois de perceber que existia um padrão que uniformizava os enredos e as personagens dos livros analisados, o grupo decidiu investigar também obras publicadas de 1965 a 1979 pelas editoras Civilização Brasileira e José Olympio (a escolha respeita o mesmo critério da outra temporada). “Nós estudamos a literatura produzida durante o período da ditadura imaginando que o engajamento dos escritores da época pudesse ter produzido obras que destoassem do discurso estereotipado. Mas a comparação mostrou que há pouca diferença e a escrita continuou igual nos dois períodos”, explica Regina.
O corpus da pesquisa
período
romances
autores
personagens
1965/1979
131
86
509
1990/2004
258
165
1.245
total
389
242a
1.754
(a) O total é inferior à soma da coluna, pois alguns autores
publicaram em ambos os períodos.
Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”
A grande maioria das personagens, nas duas épocas, é composta por homens heterossexuais, de classe média, brancos, e intelectualizados. Eles moram no Rio de Janeiro ou em São Paulo, e, em sua maioria, são jornalistas ou professores universitários. Mulheres, negros e homossexuais, a exemplo da realidade vivida no país, são deixados de lado. “Tanto quanto qualquer outro espaço de produção de discurso, a literatura sofre os constrangimentos do meio social em que está inserida”, afirma a professora.
O sexo das personagens
1965-1979
1990-2004
Feminino
40,7%
37,8%
Masculino
58,3%
62,1%
Outro
1,1%
0,1%
Total
100%
100%
Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”
Enquanto isso, o negro desempenha mais o papel de coadjuvante do que protagonista. Entre os livros mais recentes que foram analisados, haviam 17 protagonistas negros. Em comparação com o único protagonista das décadas de 1960 e 1970, o crescimento pode ser considerado alto. Mas o número de personagens principais brancos é sempre muito maior (260) nos dois períodos analisados.
Cor das personagens
1965-1979
1990-2004
branca
76,0%
79,8%
negra
6,3%
7,9%
mestiça
10,4%
6,1%
indígena
1,6%
1,2%
oriental
0,2%
0,6%
sem indícios
4,3%
3,5%
Não pertinente
1,2%
0,8%
Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”
Mudanças – Apesar de as mudanças serem pequenas, o estudo mostra que hoje existem mais mulheres escrevendo livros. O percentual de escritoras subiu de 17,4% para 27,3%. Quanto a idade em que eles publicam suas primeiras obras, essa diminuiu, a maior parte, 29%, entre 30 e 39 anos. E, os homossexuais têm ganhado mais espaço nos enredos. Eles representavam 2% das personagens no primeiro período pesquisado e passaram para 3,9%.
Segundo Dalcastagnè, os dados ainda são pouco expressivos, mas já servem para apontar os rumos que a literatura brasileira está tomando. A professora também faz questão de ressaltar que, entre os autores estudados, existem alguns poucos que fogem do padrão de escrita identificado.
Orientação sexual das personagens
1965-1979
1990-2004
heterossexual
88,8%
81,0%
homossexual
2,0%
3,9%
bissexual
2,0%
2,4%
assexuado
0,4%
2,0%
Ambígua/indefinida
0,4%
1,9%
não pertinente
0,6%
1,4%
sem indícios
5,7%
7,4%
Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”
Outros dados:
Estrato socioeconômico das personagens
1965-1979
1990-2004
elite econômica
23,2%
31,5%
classes médias
45,8%
51,4%
pobres
33,6%
23,9%
miseráveis
3,1%
2,9%
sem indícios
1,0%
1,8%
não pertinente
0,6%
0,8%
Obs. Eram permitidas múltiplas respostas.
Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”
Local em que se situa a narrativa
1965-1979
1990-2004
grande cidade
58,8%
82,6%
cidade pequena
45,0%
37,2%
meio rural
19,1%
14,3%
incerto
3,8%
4,7%
outro
8,4%
5,0%
múltiplos
4,6%
4,3%
Obs. Eram possíveis respostas múltiplas.
Fonte: pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”
Época em que se situa a narrativa
1965-1979
1990-2004
pré-colonial (antes de 1500)
3,1%
7,0%
Colônia (1500-1822)
5,3%
6,2%
Império (1822-1889)
7,6%
10,9%
Primeira República (1889-1930)
12,2%
10,1%
Era de Vargas (1930-1945)
15,3%
10,5%
República de 1945 (1945-1964)
25,2%
18,6%
ditadura militar (1964-1985)
43,5%
21,7%
redemocratização (a partir de 1985)
58,9%
Futuro
0,8%
1,6%
múltiplas épocas
1,5%
5,8%
época incerta
13,7%
6,6%
Obs. Eram possíveis respostas múltiplas.
Crédito da imagem: Apoena Pinheiro/UnB Agência
(Envolverde/UnB Agência)