26/04/2006

Gestão em tempos de crise

Por Renata Moraes

Instituições privadas lutam para vencer as dificuldades do mercado.

As seguidas notícias de crises em grandes instituições privadas de Ensino Superior deixou o setor preocupado. Não é de hoje que se discute a queda na demanda, fato que levou, inclusive, ao fechamento de faculdades menores. Poucos esperavam, no entanto, que tradicionais universidades fossem atingidas pelo turbilhão que atingiu o mercado. Frutos de má gestão, turbinados pela má fase do mercado, os problemas se acumulam e tornam ainda mais difícil a vida das instituições - que, mesmo no pior dos cenários, precisam continuar operando.

Para a maior parte dos analistas, o momento é de depuração do mercado, quando os mais fortes e organizados resistirão. Como diz a sabedoria popular, é a hora de 'separar os meninos dos homens'. "Entre 95 e 2003, vivemos um período de fartura em que não se precisava ser bom. Bastava abrir a instituição e expandir com certa velocidade o número de cursos e instalações", lembra o diretor da Hoper Consultoria, Ryon Braga. "A partir de 2004 a demanda praticamente parou de crescer. A partir de então, as IES efetivamente precisaram se diferenciar. Em parte pela qualidade, em parte pela competência na gestão."

Ainda vivendo as conseqüências da estagnação da demanda, muitas instituições tropeçam. E grande parte não consegue gerir seus problemas. Sofrem com estruturas antiquadas e que têm dificuldades para se adaptar rapidamente às mudanças. No caso da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), por exemplo, os problemas se acumularam de tal forma que já não havia como manter o funcionamento da IES e gerir a crise. Assim, foi preciso se tomar medidas radicais, que trouxeram um custo imensurável à universidade (clique aqui para conhecer mais sobre o caso). E não apenas custo financeiro, mas também, e principalmente, de imagem.

"As estruturas colegiadas dificultam a tomada de decisão, especialmente as que são urgentes. E como durante o processo de degradação a direção não envolve a comunidade, não passa as informações de que as dificuldades são crescentes, as pessoas são pegas de surpresa. E aí há uma enorme dificuldade da reitoria em aprovar medidas de contenção de gastos, tornando o processo todo traumático", explica o diretor da consultoria Lobo e Associados, Roberto Lobo. "Não se consegue tomar decisões de corte de custos com estruturas altamente colegiadas, como as das universidades, principalmente as confessionais."

E o vilão, quem é?

Naturalmente, nenhuma instituição é culpada pela crise do setor de maneira geral. Todas, no entanto, respondem por sua própria gestão. E nesse quesito, é hora de atentar para as próprias falhas. Muitas universidades não perceberam, por exemplo, que o número de concorrentes estava crescendo em progressão geométrica. E apostaram na 'demanda infinita' para investir em ganho de mercado. Agora, sofrem com as dívidas. O primordial, no entanto, passa pela maneira como as próprias universidades se encaram. Muitas ainda permanecem paradas, rejeitando a idéia de se reconhecer como uma empresa e tocar sua gestão como tal.

"Essa é uma cultura equivocada sobre todos os aspectos e que só tem razão de ser defendida do ponto de vista ideológico. Não há nenhuma outra justificativa racional, nem mesmo a acadêmica, para manter esse tipo de cultura", critica Braga. "Se alguém analisar, por exemplo, a Universidade de Harvard, vai ver que tem uma cultura interna voltada para resultados de maneira brutal. E quem é que vai dizer que ela não tem valor acadêmico, ou que o ensino não é bom em Harvard?", desafia.

Quando se encontram em graves crises, algumas até à beira da falência, as instituições são obrigadas a tomar atitudes agressivas. No entanto, muitas dessas poderiam ser evitadas se a cultura de gestão levasse em conta fatores como controle de custos, planejamento estratégico, investimento em campanhas de marketing, pesquisas de mercado... Há vinte anos, tratar desses conceitos na gestão de uma IES poderia ser considerado um delírio. Hoje, não. O objetivo final é diferente de uma empresa, sim. A motivação social, também. Nada impede, porém, que os meios para lidar com a rotina sejam semelhantes.

"Uma universidade pode se diferenciar de uma empresa nas suas finalidades. Mas os seus meios devem ser, tem que ser, iguais às ferramentas usadas nas companhias. As instituições que estão adotando estas práticas estão obtendo resultados melhores não só na gestão, mas também na qualidade acadêmica", diz Braga. "A característica do setor mudou. Antigamente, o reitor era alguém de liderança acadêmica e que, normalmente, não entendia nada de gestão. Isso não cabe mais hoje. O dirigente precisa saber acompanhar as finanças. Infelizmente, muitas instituições não perceberam que a situação mudou", complementa Lobo.

E agora, para onde ir?

Naturalmente, não há um vilão. Mas, é fato, a crise está aí. O atual momento não é positivo para as instituições. Segundo Braga, os dados do setor apontam que a demanda por vagas não aumenta desde 2004. O que falta é um movimento consistente das universidades para se adaptar à esta condição. Instituições que se constituem nesta realidade tem condições de criar sua rotina de gestão organizada de maneira profissional, aproveitando, inclusive, a experiência negativa das concorrentes. O que fazer, então, com aquelas que precisam manter seu funcionamento e mudar suas perspectivas.

"A única esperança reside na administração profissional. Ou as instituições partem para um choque de gestão profissional radical ou não vão sair da crise. Podemos falar, inclusive, em processos irreversíveis que terminam na venda da IES. Já temos, no mercado, algumas grandes instituições à espera de um comprador porque não conseguem sair sozinhas da crise", afirma Braga, que faz uma previsão negra para as condições atuais de algumas instituições. "Nos próximos meses, e também no ano que vem, vamos ver um número muito maior de universidades entrando em crise. E não só as pequenas."

E o que fazer com os professores?

Em tempos de crise, sempre entra em debate nas instituições a relação com os docentes. Vítimas freqüentes do corte de custos, a relação entre o corpo docente e a universidade acaba se tornando difícil, com acusações e críticas de parte a parte.

Para os especialistas ouvidos pelo Universia, a situação pode ser facilmente contornada se for tratada profissionalmente. Assim, acompanhar os resultados do professor, estabelecer parâmetros objetivos de desempenho e colaborar no planejamento de sua carreira podem ser meios de evitar situações problemáticas - por mais que este seja um tabu.

"O docente acha que é uma agressão demitir um colega. Em grande parte, isso acontece porque não existem avaliações objetivas. Assim, sempre que se manda algum professor embora, parece que é um caso pessoal. A instituição que não possui uma gestão profissional não tem dados concretos para justificar suas atitudes", critica o diretor da consultoria Lobo e Associados, Roberto Lobo.

Um dos casos mais significativos nesta direção é o do Ibmec-SP, que instituiu um sistema próprio de acompanhamento dos docentes. Neste, são inclusos processos semestrais de avaliação de desempenho, estudos da relação dos docentes com os alunos e os resultados apresentados. De acordo com o diretor da Hoper Consultoria, Ryon Braga, os resultados são extremamente positivos.

"No Brasil, falar em acompanhar o desempenho do professor é como se fosse um crime. Mas isso é besteira. O professor está lá, recebe e tem, sim, que ser cobrado por resultados de ensino e aprendizagem em relação aos seus alunos", explica Braga. "Realmente, é um tabu mexer nesse tema nas instituições brasileiras. Mas as instituições que se organizam neste sentido têm conseguido dar um salto de competitividade muito grande."

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