03/05/2022

GESTÃO DA PERMANÊNCIA NAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR (Parte 1: Como calcular a evasão)

A evasão é tema recorrente em diversos encontros, colóquios, seminários, congressos e demais fóruns sobre gestão universitária brasileira. É estudada por várias consultorias e institutos de pesquisas e medida de várias maneiras, em suas causas e ocorrências nos mais diferentes contextos educacionais.

Os resultados apresentam grandes variações conforme tipos de instituições, cursos, turnos ou perfis de alunos. A taxa de evasão média no ensino superior é um indicador importante para suscitar políticas públicas de controle e melhorias dos serviços educacionais nas instituições de ensino superior. Todavia, esse indicador não deve ser a única referência para balizar decisões sobre a evasão dentro dessas instituições. Supondo, por exemplo, que num determinado sistema educacional a média da taxa de evasão acumulada de todos os cursos seja de 40%, isso não significa que a evasão de 15% num determinado curso seja, para a gestão da IES, um resultado positivo, mesmo sendo muito abaixo da média geral do sistema, pois pode representar uma redução muito significativa do faturamento da IES. Nesse caso, para fazer uma análise do seu desempenho, seria mais seguro se criassem indicadores específicos para medir a evasão na instituição, no curso, nos períodos, nos turnos, nas turmas, chegando até as disciplinas, definindo perfis indicativos de grupos de risco à permanência que frequentam o curso e assim criar referenciais próprios sobre a evasão que ocorre no seu caso, analisando impactos financeiros, acadêmicos e mercadológicos desse fenômeno.

No âmbito interno da gestão de IES esses indicadores serão importantes na medida em que provocarem melhorias nos serviços educacionais prestados aos acadêmicos, pois só assim tomam um significado. Medir a evasão é importante para compreender o que ocorre, por que e quando ocorre, mas é preciso ter em mente que isso, apenas, não melhora a evasão. É preciso enxergar por perspectivas que permitam uma ação efetiva de intervenção no fenômeno da evasão, saindo da análise para o plano de ações, partindo da avaliação para a implantação de ações que possam criar um ambiente institucional que atraia o aluno e não o contrário.

Logo, para pensar a evasão nas Instituições de Ensino Superior podemos utilizar duas perspectivas. A primeira dá-se pelo estudo das ocorrências. A segunda é a que leva à interferência no fenômeno da evasão, antecipando ações para que possa ser evitada. Essas perspectivas são necessárias, pois se complementam. A primeira por informar quanti e qualitativamente o que se passou, ou seja, quantos alunos evadiram e sob quais circunstâncias. A segunda por interferir de forma proativa no fenômeno, alterando-o dentro de um processo administrativo que envolve planejamento, organização, execução de ações, controle dos resultados e socialização do conhecimento.

Para as instituições que sentem a necessidade de um número geral para indicar a capacidade de titular alunos, ou seja, de fazê-lo permanecer até a sua formatura, há uma fórmula internacionalmente reconhecida que pode ser utilizada por instituições brasileiras:

 

Permanência do ano X =    Matrículas do ano (X + 1) – Ingressantes do ano (X + 1)

                                                Dividido por:

Matrículas do ano X – Concluintes do ano X

Ou seja,

P (x) = M (x+1) – Ing (x+1) / M (x) – C (x)

Para chegar ao dado percentual o resultado deve ser multiplicado por 100.

Por exemplo, se uma IES apresentou no ano de 2013 uma rematrícula de 1000 alunos e se 300 novos alunos entraram nesse mesmo ano e ainda, se em 2012 a rematrícula foi de 1500 alunos e naquele ano ela formou 300 alunos, os resultados apresentarão uma evasão elevada:

P = 1000 – 300 / 1500 – 300

P = 700 / 1200

P = 0,58 x 100

P = 58%

A evasão será o que sobrou, ou seja, 0,58 menos 1, vezes 100.

E = 42%

Essa seria a evasão da IES ou de um curso, de uma turma qualquer ou até de uma disciplina em 2012. Tudo dependerá do regime de matrícula e do escopo de análise escolhido pela IES.

Para melhorar a situação a gestão da permanência na IES deve aumentar a rematrícula em 2014, pois esse deve ser o foco do trabalho da gestão da permanência em qualquer Instituição de Ensino Superior. Supondo que, ceteris paribus, na mesma IES todos os alunos veteranos e calouros de 2013 se rematriculassem em 2014:

P = 1300 – 300 / 1300 – 300

P = 1000 / 1000

P = 1 x 100

P = 100%

Logo,

E = 0%

Todas as estratégias devem convergir para que o primeiro termo do numerador se aproxime do primeiro termo do denominador, ou seja, que a rematrícula do ano corrente seja o mais próximo possível da soma entre rematrículas e matrículas do ano anterior.

Embora indique uma maneira para chegar a um percentual de evasão, a utilização da fórmula exige alguns cuidados:

  • O número de ingressantes não deve ser apenas o de calouros, mas também todos os que vierem de outras formas de acesso, como transferências de outras IES ou obtenção de novo título.
  • Se a IES formar menos concluintes a taxa de permanência cai, como se esses concluintes fossem sumariamente jubilados, o que pode não ser verdadeiro.
  • Uma entrada muito acima do normal no número de ingressantes do ano corrente pode alterar o cálculo da evasão referente ao ano anterior.

O que se conclui de tudo isso é que a medição das taxas de permanência e evasão por meio da fórmula internacionalmente aceita é indicada também para as IES do Brasil, mas com grandes restrições, pois a análise dos resultados pode ficar fragilizada. Isso ocorre porque as variáveis que compõem a fórmula apresentam alterações muito significativas em mercados ainda não consolidados como no caso brasileiro. Por exemplo, para se mensurar a taxa de permanência em uma IES que aumentou a sua oferta significativamente por meio de novos cursos ou pelo aumento de vagas em cursos existentes, é natural que o número de ingressantes aumente. Nesse caso a IES deve considerar a entrada do ano anterior, como se não tivesse alterado o número de ingressantes.

Por essas razões que o método mais indicado para a gestão da evasão em uma Instituição de Ensino Superior brasileira ocorre pela análise de grupos de alunos que apresentam características e comportamentos que indicam risco à permanência. Primeiro definimos as causas da evasão na Instituição. Depois utilizamos algumas dimensões para viabilizar a análise que ocorre pela classificação dos grupos. E então chegamos a cada caso. Isso só é possível quanto se acompanha o discente ao longo de sua trajetória acadêmica e é dessa maneira que a evasão deve ser gerida nas IES.

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