29/06/2026

Fuzis Contra Lápis de Cor: A Ignorância do Nazipentecostalismo Invade a Escola

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

A Polícia Militar tem raízes profundas, cuja origem remonta à chegada da Família Real portuguesa em 1808. Desde o princípio, seu dever era manter a ordem mediante um policiamento ostensivo. Com o fim de preservar a ordem pública, a truculência acabou naturalizada, principalmente contra a população negra, o que reverbera até os dias atuais. Uma instituição que deveria trazer segurança, por onde passa, frequentemente leva consigo medo, violência e morte. Tudo ocorre de forma arbitrária, por meio de agentes despreparados para assumir o verdadeiro papel da corporação: proteger a sociedade, mesmo com o risco da própria vida. Todavia, o uniforme é utilizado para amedrontar, coagir, humilhar e até mesmo exterminar vidas inocentes. Os policiais se colocam como juízes, julgando e condenando de forma instantânea os moradores periféricos e de favelas — cuja romantização faz denominar de comunidades.

O fato é que interferências violentas da Polícia Militar têm sido reincidentes em várias regiões do país. A mais recente ocorreu em uma escola municipal de educação infantil na cidade de São Paulo. Na ocasião, três viaturas de policiais fortemente armados (com metralhadoras e pistolas) apareceram no recinto escolar para interpelar a diretora. Julgando-se no direito de interferir no processo de ensino-aprendizagem e na Lei Federal Nº 10.639/03[1] — que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira —, agiram motivados pelo desenho de um Orixá (divindade africana) feito por uma criança. A atividade pontuava a importância dessas divindades na cultura africana, da mesma forma que as escolas tratam dos deuses gregos, romanos ou nórdicos. Contudo, o incômodo do policial que abordou a diretora partiu do fato de a atividade remeter a uma religião de matriz africana, o que despertou um repúdio recheado de preconceito racial e intolerância religiosa.

Tratou-se de uma abordagem ríspida que tentou subtrair a autonomia pedagógica por meio da narrativa de que a escola estava ministrando aulas de cunho religioso. Mas convenhamos: se estivesse, qual seria o motivo da existência da disciplina de Ensino Religioso? Ensinar apenas sobre as religiões pentecostais ou promover o conhecimento da diversidade cultural e religiosa? O papel da educação é fomentar a valorização, o respeito, a empatia e o diálogo entre as diferentes crenças e modos de conceber a vida e o mundo.

Felizmente, temos em muitas escolas diretores bem formados e instruídos quanto ao processo de educar. Foi com base em seu profissionalismo que a diretora confrontou o arrogante policial que tentou intimidá-la. O agente alegou cumprir a reclamação de um pai — que também é militar — ao ver o desenho da orixá Iansã feito por sua filha. Iansã é a responsável pelos ventos, tempestades e raios; representa a força, o poder feminino, a coragem e a transformação. Porém, por puro preconceito oriundo de um nazipentecostalismo balizado na falta de sinapse cognitiva, a diretora foi coagida.

Note-se que a leitura não é o forte de pessoas com esse perfil. O livro trabalhado pela escola foi Ciranda em Aruanda, obra que possui o selo "Altamente Recomendável" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Ou seja, não se trata de um livro qualquer. E, mesmo se fosse, isso não daria direito algum para que um contingente policial fortemente armado invadisse uma escola com o intuito de intimidar profissionais.

Obviamente, esses policiais não estão preparados para ser questionados em sua autoridade. O tenente responsável pela vil abordagem ainda acusou a diretora de “impor sua ideologia”, ressaltando sua completa ignorância jurídica em relação à educação e sua total falta de manejo para abordar uma profissional em plena função.

É sabido que a docência é, hoje em dia, uma profissão desvalorizada e humilhada. Com episódios assim, a escola passa a ser vista como inimiga por setores da sociedade, embora sua função seja educar. E educar implica desenvolver no educando o poder de discernimento para que, se um dia ele resolver ser policial, não seja tão néscio quanto esse tenente. Que ele aprenda a respeitar a instituição escolar, pois a função da Polícia Militar é manter a ordem, e não agir como um pedagogo nazifascista impondo imbecilidades nazipentecostais.

 

[1] Para mais informações vide http://www.gestaouniversitaria.com.br/artigos/extremismo-religioso-na-contramao-da-educacao

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