Fuja do "Bem contra o Mal": A Psicologia e a Educação por Trás dos Discursos Políticos
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Para Fiorin, em seu livro Linguagem e Ideologia, publicado pela Ática, o discurso é o campo tanto da manipulação consciente quanto da determinação inconsciente. Isso ocorre porque, no plano da sintaxe discursiva, faz-se uso de estratégias argumentativas com o intuito de criar sentidos ou realidades para convencer a massa. Por isso, torna-se fundamental que a educação desenvolva o poder do discernimento, ou seja, a capacidade de analisar o discurso de forma a compreender o contexto social e a ideologia manipuladora nele contida.
Todo discurso trabalha com a estrutura física (anatomia) e o funcionamento dinâmico (fisiologia) da fala e da comunicação verbal. Sendo assim, Diemerson Sacheto[1], PhD em psicologia, é enfático ao estudar o discurso político sob essa perspectiva. O problema central reside na manipulação desse discurso pautado em opositores, já que a criação de um inimigo é crucial para despertar a catarse, isto é, a purificação ou limpeza social.
Mediante um discurso que coloca não um adversário político, mas um inimigo como o centro de todo o mal a ser extirpado pelas forças do bem — representadas pela pessoa que discursa —, quem tem discernimento consegue enxergar a desconstrução da imagem e dos feitos do oponente. Esse processo explicita a divisão do cenário em dois blocos rígidos: o bem e o mal.
O fato é que qualquer discurso fundamentado nessa estratégia é amparado pela falácia, pela mentira e pelo medo, sustentando-se pela teologia da prosperidade e pela manipulação dos empoderados. Nas palavras de Diemerson Sacheto, isso configura um "sequestro da complexidade da realidade".
Fuja dos políticos que fazem uso de discursos ligados à política do bem contra o mal. Eles sabem que a catarse é uma excelente forma de aumentar o número de fiéis alienados dispostos a votar nas pessoas mais duvidosas, mesmo cientes de que tal política nunca teve lastro, principalmente no coletivo. Um bom discurso baseia-se nos verbos querer e fazer e no substantivo povo, e nunca em falas soltas que tendem a uma categorização moral do inimigo. Na psicologia social, esse processo define o opositor com interesses divergentes como alguém destituído de virtude, legitimidade ou humanidade.
Para Diemerson Sacheto, nessa categorização, o adversário é transformado em ameaça, e a ameaça em impureza. Para combater qualquer pessoa considerada impura, a violência do emissor surge travestida de fé, família e pátria. Esse mecanismo banaliza o ódio, tornando-o algo justificado e amparado por Deus, já que a teologia do medo é a forma alienante e eficaz de se obter controle sobre essa massa de estultos.
O verdadeiro discurso deve perpassar por feitos, sonhos e memórias, além de ressaltar lutas, frustrações, reveses e conquistas. É exatamente aí que entra a educação de qualidade, pois ela oferece todo o aparato para que o discente possa perceber a manipulação da oralidade. Uma formação qualificada desenvolve no educando a criticidade necessária para pesquisar fontes confiáveis, checar a veracidade das informações e ler estatísticas, permitindo que ele identifique falácias. Ao trabalhar as ciências humanas — como filosofia, sociologia e história, dentre outras disciplinas —, o aluno desenvolve em suas habilidades o poder crítico, aprendendo a perceber padrões de manipulação que se repetem ao longo dos séculos.