17/10/2026
FOMOS PROVOCAR OS ESTUDANTES E SAÍMOS PROVOCADOS: O QUE UMA CONVERSA SOBRE REDES SOCIAIS PODE ENSINAR AO DIREITO DIGITAL E À GESTÃO UNIVERSITÁRIA
1. Introdução
Neste semestre de 2026.2, estamos com uma turma de Instituições de Direito Público e Privado (IDPP) no Curso de Administração, turno noturno, na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Gostamos de lecionar esse componente curricular por três motivos. Primeiro, porque também o cursamos quando estudávamos Ciências Econômicas na UFBA. Segundo, porque já o ministramos muitas vezes nos cursos de Administração e Ciências Contábeis essa disciplina. Terceiro, porque acreditamos que nossa formação multidisciplinar — economia, direito e tecnologia —, aliada à experiência como gestor, pode contribuir para o ensino do direito a futuros administradores, economistas e contadores. Nosso plano de ensino foi aprovado e procuramos conduzir a disciplina dentro de uma proposta multidisciplinar, articulando as três áreas de conhecimento .
É importante dizer que se trata de uma turma na modalidade de educação a distância (EAD), formada por pessoas em diferentes situações sociais; algumas já possuem outra graduação, o que acrescenta ainda mais riqueza ao processo formativo. Considero os cursos de EAD da UNEB – gosto mais de chamar essa modalidade de educação online, pois não existe distância na educação – mas sigo o que determina a legislação educacional.
Queremos despertar nesses estudantes o interesse por outras atividades universitárias e, por isso, sempre os provocamos a conhecer as oportunidades oferecidas pela instituição. Já percebemos avanços: há estudantes realizando monitoria de ensino, participando de seminários e debates e escrevendo artigos conosco. O próximo passo é a iniciação científica.
Outra experiência relevante tem sido explorar as possibilidades oferecidas pelo AVA/Moodle: criar materiais didáticos no formato de Recursos Educacionais Abertos (REA), vídeos, clipes musicais, diário de campo e glossário. São elementos que temos incorporado aos recursos já tradicionais, como fóruns, textos e avaliações escritas. Mesmo com toda a experiência acumulada em cursos na modalidade EAD, continuamos sendo surpreendidos pela maturidade e pelo interesse desses estudantes.
2. Fomos provocar os estudantes e saímos provocados
Na quinta-feira, 15 de outubro, Dia do Professor, tivemos nosso segundo encontro síncrono para dar continuidade ao programa. Na tentativa de tornar a aula mais dinâmica, preparamos um vídeo sobre as mobilizações sociais dos anos 1990, com imagens e depoimentos de estudantes, professores universitários e militantes que falavam da importância da mobilização social e da ocupação das ruas. Em seguida, formulamos a seguinte pergunta para o debate: até que ponto as mensagens de WhatsApp e as redes sociais ajudam a organizar um movimento popular? E em que momento a facilidade de compartilhar indignação, informações e notícias falsas pode gerar acomodação, oferecendo uma sensação de participação sem o compromisso exigido por uma ação coletiva?
Levamos para a aula uma inquietação nossa e, talvez, uma resposta quase pronta. Para animar o debate, mostramos um vídeo dos anos 1990. Nas imagens, a população ocupava as ruas, reivindicava o direito à moradia e contestava decisões judiciais consideradas injustas. Havia gente reunida, enfrentando conflitos e fazendo da presença uma forma de pressão. Para nós, aquelas cenas traziam lembranças de um tempo em que encontrar o grupo exigia sair de casa, comparecer à reunião, ouvir os demais e construir coletivamente uma posição comum.
Talvez esperássemos que o vídeo confirmasse nossa desconfiança. No entanto, os estudantes foram unânimes na enquete: para eles, as redes sociais são importantes, ampliam o acesso à informação e ajudam na mobilização social.
Confessamos que ficamos surpresos. A provocação voltou para nós.
Não ficamos convencidos de que nossas preocupações tivessem perdido o sentido. Percebemos, porém, que precisávamos reexaminar o lugar de onde fazíamos a pergunta. Havia ali uma experiência de participação que valorizamos, mas também certa dose de saudade. E a saudade, embora tenha seu valor, precisa ser interrogada quando começa a orientar nosso julgamento sobre os outros.
Essa pequena grande experiência de sala de aula nos fez pensar na gestão universitária. Quantas decisões tomamos a partir de um estereótipo, de uma imagem de estudante que já não corresponde à diversidade das pessoas que chegam à universidade? Quantas vezes interpretamos uma mudança de comportamento como falta de interesse antes de procurar compreendê-la?
A universidade não é monolítica. Ao contrário, é dinâmica e está em constante movimento, reunindo pessoas com diferentes idades, histórias de vida, trajetórias profissionais, condições de trabalho e responsabilidades familiares.
Na educação a distância, essa diversidade nos convida a observar com cuidado as condições concretas de participação. Para quem trabalha o dia inteiro, cuida de alguém ou vive longe do campus universitário, uma mensagem pode permitir um envolvimento que seria difícil por outros caminhos.
Isso não elimina a importância dos encontros presenciais, que continuamos valorizando por diversas razões: fazer política face a face; conversar com as pessoas, ampliando os temas e a rede de contatos (networking); dialogar com palestrantes e aprofundar questões; conhecer outros lugares. Sabemos, porém, que tudo isso se torna cada dia mais difícil por uma série de razões. Na vida, quase tudo tem aspectos positivos e negativos a ponderar. Valorizamos a livre circulação de ideias e pessoas e o compartilhamento dos espaços, mas precisamos reconhecer que nossa experiência não pode servir de medida para todas as formas de pertencimento à universidade.
3. A gestão precisa fazer o mesmo exercício
Um estudante que pouco frequenta os espaços tradicionais de representação pode estar participando de uma rede de apoio entre colegas. Um grupo de mensagens pode reunir dúvidas que ainda não chegaram à coordenação. Uma discussão nas redes pode revelar um problema que os canais institucionais não conseguiram acolher. Antes de concluirmos que os estudantes se afastaram da vida universitária, convém perguntarmos onde essa vida está acontecendo e por que alguns espaços deixaram de fazer sentido para eles.
Também seria precipitado celebrarmos toda comunicação digital como participação efetiva. Um grupo movimentado pode conviver com pouca disposição para assumir tarefas. Uma reivindicação pode circular intensamente e perder força antes de produzir qualquer encaminhamento. Há ainda o risco de poucas vozes dominarem a conversa, enquanto outras permanecem sem condições de se expressar.
Não podemos, contudo, ignorar uma informação que surgiu em aula — e que ainda merece investigação mais rigorosa para avaliarmos seu alcance científico. Uma estudante nos contou que o debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força a partir de um movimento social no TikTok chamado Vida Além do Trabalho (VAT). Em uma pesquisa inicial, verificamos que a origem do movimento é atribuída a Rick Azevedo, que, em setembro de 2023, trabalhava como balconista de farmácia e publicou nas redes sociais um desabafo sobre a exaustão causada pelo trabalho. Com a grande repercussão do depoimento, surgiu o VAT, que reuniu mais de três milhões de assinaturas contra a jornada 6x1. A mobilização chamou a atenção da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que levou a pauta ao Congresso Nacional por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição voltada à redução da jornada de trabalho.
Todas essas informações exigem cuidado. A enquete que fizemos em aula não nos permite concluir como todos os estudantes participam, nem encerra a discussão sobre os efeitos das redes sociais nos movimentos coletivos. Ela abre, no entanto, uma oportunidade para discutirmos o uso proativo dessas redes. Para nós, como pesquisadores, seu maior valor foi reabrir uma pergunta justamente quando começávamos a nos acomodar em uma certeza.
Como nos ensina uma frase atribuída a Nelson Mandela, “nunca perdemos: ou ganhamos ou aprendemos”. Aquele foi um momento de aprendizagem coletiva, especialmente importante para quem exerce funções de gestão na universidade. Escutar exige disposição para rever a própria interpretação. Se abrimos uma consulta apenas para confirmar uma decisão já tomada, transformamos a participação em um procedimento burocrático e vazio de conteúdo.
Os estudantes precisam ter presença e voz, participar ativamente das decisões do país e trazer suas experiências, reflexões e reivindicações. O que mudou, entre outras coisas, foi a forma como produzimos, compartilhamos e acessamos conhecimento.
Uma escuta consequente precisa aparecer nas escolhas da gestão. Pode levar à revisão de horários, à simplificação de procedimentos, à melhoria da comunicação ou à criação de formas de participação compatíveis com a vida dos estudantes. Precisa, sobretudo, produzir uma devolutiva, pois quem apresenta uma demanda tem o direito de saber como ela foi recebida, o que pode ser feito e quais limites impedem seu atendimento.
Nesse ponto, as redes sociais nos colocam diante de uma exigência que vai muito além de manter perfis atualizados. Podemos publicar muito e conversar pouco. Podemos divulgar nossas realizações com competência e, ainda assim, continuar sendo difíceis de acessar quando alguém precisa resolver um problema.
Nossa presença institucional nas redes só ganha sentido quando ajuda a aproximar as pessoas da universidade e de suas decisões. Isso exige linguagem compreensível, informações confiáveis e responsabilidade no atendimento. Exige também cuidado para que o acesso a um direito não dependa de estar no grupo certo ou de ter o contato pessoal de alguém da gestão.
Os grupos informais podem apoiar a vida acadêmica, mas precisamos garantir canais institucionais públicos, acessíveis e organizados. A proximidade é valiosa; a improvisação permanente, porém, cobra seu preço de estudantes, professores e técnicos.
Também precisamos admitir que as formas de participação ainda estão em construção. Cabe a nós criar oportunidades para que uma conversa se transforme em proposta, para que essa proposta encontre espaço de deliberação e para que a decisão possa ser acompanhada por quem será afetado por ela. Esse trabalho exige continuidade, inclusive depois que o assunto deixa de chamar atenção nas redes. Voltamos, então, à pergunta que a aula nos deixou: como podemos transformar conexão em organização, continuidade e conquista de direitos?
Não temos uma resposta pronta. Temos, isso sim, uma responsabilidade maior de observar, escutar e experimentar caminhos com os estudantes. A experiência acumulada continua nos ajudando, desde que não a utilizemos para encerrar uma conversa que ainda precisa acontecer. Na aula, levamos um vídeo do passado para discutir o presente. Os estudantes nos fizeram olhar para o futuro com menos certezas e mais atenção. A gestão universitária e o direito precisam fazer o mesmo.