Festival promove intercâmbio cultural
Por Julia Dietrich, do Aprendiz
Reunir a produção cultural do país que não tem acesso à grande mídia e que pensa questões locais de diversas comunidades com o objetivo de democratizar a cultura e a comunicação. Tudo isso para promover a justiça social. Este é, em linhas gerais, o Festival Tangolomango, organizado desde 2002 na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Sem fins lucrativos, o festival já reuniu 100 grupos (cerca de duas mil pessoas) que pensam e promovem conjuntamente a cultura brasileira. A partir de encontros e dinâmicas de intercâmbio, além de intervenções artísticas, o festival busca viabilizar e valorizar experiências que sejam alternativas, comunitárias e populares, porém que consigam alcançar as políticas públicas.
"Todos podem participar do festival, seguindo as orientações do edital. Há uma seleção baseada em parâmetros que consideramos fundamentais para um bom intercâmbio", conta a produtora e criadora do festival, Marina Vieira, sobre o processo que já está ocorrendo e que logo divulgará os selecionados.
Segundo ela, os grupos que participam são inovadores, promovem o fortalecimento da identidade e da diversidade sócio-cultural e geram impactos sociais e culturais mensuráveis. "Estabelecemos os critérios de seleção, lançamos os editais, fazemos a seleção dos grupos, listamos os convidados e organizamos as dinâmicas do intercâmbio. Dois dias antes do show reunimos os grupos de cada cidade e, a partir dos trabalhos apresentados por eles, construímos de forma colaborativa um único espetáculo", pontua Vieira.
Porém, este ano, em sua sexta edição, o festival, que ocorrerá também em Recife e em Fortaleza, só terá as apresentações. A ida para as cidades do Nordeste é, segundo a organizadora, uma forma de aproximar outros grupos de intensa produção que também se sentiam marginalizados no cenário nacional. Tanto a migração para outras cidades, quanto a transformação do formato são produtos da reflexão do próprio grupo e das necessidades do espaço cultural brasileiro.
Vieira explica que desde o início o projeto passou por diversos estágios. "A evolução aconteceu principalmente na disponibilidade e no interesse de troca de experiências. No início os grupos se encontravam mais isolados, com pouco conhecimento sobre ações que aconteciam nas outras comunidades, muitas vezes vizinhas. Por meio de amplo trabalho de aproximação, conseguimos realizar importantes trocas de informação".
Como exemplo, a Companhia Aplauso, que participou como grupo convidado em 2006, acredita que a riqueza do festival está justamente em valorizar a própria diversidade da cultura brasileira. "O festival trata do futuro da formação cultural do povo brasileiro", observa a coordenadora do Aplauso, Dani Albuquerque, que trabalha ao lado de outros 49 jovens artistas que cantam, dançam, interpretam e fazem acrobacias aéreas e de solo.
Assim como a Companhia, o Festival Tangolomango trabalha com múltiplas vertentes artísticas: música, teatro, dança, performance e circo e todos os inscritos e aprovados criam coletivamente uma produção com diferentes características. "Como os grupos selecionados chegam com bastante disponibilidade para a troca e mergulham de cabeça na experiência de produção compartilhada, não há problemas na montagem e elaboração das apresentações", explica Vieira.
Para Albuquerque, essa comunhão de grupos possibilita o exercício do ofício do artista de forma coletiva, fazendo com que conheçam mais a si mesmos e aos outros. "A arte é que transforma todas as pessoas, possibilita viver outras vidas, ouvir outras historias, ouvir outras palavras e dançar outros movimentos. A experiência artística traz na percepção humana a expansão dos limites sensoriais de cada indivíduo. As emoções vivenciadas em cada contato com a arte trazem uma melhor percepção do ser humano e de sua história", reitera.
O festival acontecerá em datas diferentes pelos três estados brasileiros. As programações podem ser encontradas no site http://www.tangolomango.com.br . "Além dos encontros anuais, realizamos uma série de ações ligadas à cultura livre, como os dois festivais Criei, Tive, Como!, em Porto Alegre (RS), em 2006 e 2007, além de seminários de software livre e de cultura digital. Organizamos oficinas de vídeo interativo, capacitando projetos de vídeo de comunidades para a produção de conteúdo para a TV Digital", explica Vieira, que indica como plano, para os próximos anos, a realização das ações colaborativas com grupos de outros países da América Latina.
(Envolverde/Aprendiz)