Feminismo: Direito de Existir
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Imagine um mundo em que a mulher fosse completamente subjugada, a ponto de uma tribo matar uma anciã apenas por sua idade, ou sacrificar uma recém-nascida simplesmente por ter nascido mulher e o bando decidir que não queria mais fêmeas.
Tomemos outros exemplos, já que os anteriores são historicamente recentes: imaginemos uma sociedade na qual a mulher fosse mera propriedade de seu pai, marido ou irmão. Nela, o sistema jurídico via o estupro como uma violação de patrimônio. Ou seja: a vítima nunca era a mulher, mas o "dono" da propriedade, que deveria ser ressarcido pelo agressor. Seguindo essa lógica, se uma mulher sem tutor (pai, irmão ou marido) fosse estuprada, não haveria crime perante a lei; era como encontrar um objeto na rua, usá-lo e descartá-lo de imediato.
O fato é que o respeito e a obediência aos pais estavam entre os valores mais sagrados, e eles podiam dispor das filhas como bem entendessem: bater, violentar, matar, vender como escrava ou casá-la com homens com mais que o dobro de sua idade. A vida delas lhes pertencia para o que fosse conveniente.
Observe que tudo isso são fatos narrados por Yuval Noah Harari[1] em sua obra, retratando o que já fomos. Todavia, embora a sociedade tenha evoluído, muitos ainda desejam que essa era sombria retorne — desde misóginos e homens da "machoesfera" e "redpills", até mulheres presas a dogmas religiosos ou a um profundo déficit de percepção cognitiva.
É triste perceber que pessoas influentes no universo feminino disparam uma incontinência verbal ao afirmar que o feminismo foi criado por "mulheres feias"[2], como se apenas estas fossem vítimas de misoginia, feminicídio e outras barbáries cometidas por homens de masculinidade duvidosa em busca de validação.
Se não fosse pelas subversões femininas, ainda estaríamos vivenciando as atrocidades citadas por Harari. É graças às lutas e sacrifícios dessas feministas que o público feminino conquistou o acesso ao ensino superior, o direito ao voto, a liberdade de trabalhar sem permissão do marido, o direito de ter cartão de crédito, de se divorciar, de jogar futebol e a busca pela igualdade salarial. Conquistamos a Lei do Feminicídio[3] e lutamos pela Lei da Misoginia — pautas que, infelizmente, geram polêmica entre os setores mais vis da sociedade.
Em pleno século XXI, ainda existem pessoas presas a uma cultura patriarcal que subtrai a dignidade feminina; pessoas que banalizam a violência e que, diante de um feminicídio, transformam o algoz em vítima, justificando a barbárie pela "falta de servidão" da mulher.
Que a educação possa instruir nossos jovens para que percebam que o preconceito, a intolerância ou qualquer tentativa de subjugar o próximo são apenas demonstrações da própria imbecilidade.
[1] HARARI, Yuval Noah. Sapiens - Uma Breve História da Humanidade. 18 ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.
[2] https://www.facebook.com/canalmeio/videos/a-frase-as-feias-inventaram-o-feminismo-transforma-igualdade-em-insulto-est%C3%A9tico/767505419482548/
https://www.tiktok.com/@jovempannews/video/7616886776627514632
https://www.youtube.com/watch?v=ugQvr7wDCBU
[3] https://www.sescrio.org.br/noticias/assistencia/marco-delas-conheca-a-trajetoria-das-lutas-pelos-direitos-das-mulheres-no-brasil/