20/05/2011

Falando na aula, silenciosamente, via mídia social e com o aval do professor

Parece que foi outro dia que os professores confiscavam celulares na classe e os diretores advertiam sobre o excesso de comunicação no MySpace. Agora, Erin Olson, uma professora de inglês em Sioux Rapids, Iowa, faz parte de um pequeno mas crescente grupo de educadores que tentam explorar a tecnologia no estilo Twitter para estimular as discussões nas salas de aula. Na semana passada, enquanto alguns de seus alunos da 11ª série liam em voz alta um poema chamado "Para a Dama", que reflete sobre por que os observadores não intervêm para impedir injustiças, outros faziam comentários ao vivo em seus laptops. A poeta "diz que as pessoas gritavam e tentavam, mas nada fizeram", digitou um aluno. Outro propôs: "Ela está dando a prova de que somos escravos da sociedade".

Em vez de ser uma distração - a versão eletrônica dos bilhetinhos passados em classe -, a conversa repercutiu e alimentou o discurso principal, disse Olson, que monitorou as mensagens e tentou incluí-las na aula. Ela e outros dizem que a mídia social, antes bloqueada na porta das escolas, pode estimular os estudantes que raramente levantam a mão a se expressar através de um meio que eles acham tão natural quanto respirar. "Durante as discussões em classe, realmente não sinto necessidade de me manifestar", disse um de seus alunos, Justin Lansink, 17. "Quando você digita uma coisa é muito mais fácil dizer o que sente." Com o Twitter e outras plataformas gratuitas de "microblogging", os professores de escolas elementares e até de universidades estão montando em suas classes o que é conhecido como "canal indireto". As comunicações digitais em tempo real permitem que os estudantes comentem, façam perguntas (respondidas pelos colegas ou pelo professor) e percam a inibição para manifestar opiniões. Talvez o mais importante, quando eles digitam sobre as tarefas é menor a probabilidade de digitarem sobre outra coisa.

Nicholas Provenzano, professor de inglês no colégio de Grosse Pointe South, perto de Detroit, disse que em uma classe de 30 alunos somente 12 geralmente conduziam a conversa, mas que outros oito podem utilizar o canal indireto. "Se mais oito garotos entrarem na discussão, é excelente", ele disse. Os céticos - e nesta altura eles superam em muito os entusiastas - temem que introduzir canais indiretos nas classes vá distrair os estudantes e professores e provocar comentários fora do tema, inadequados ou até "bullying". Uma pesquisa nacional divulgada no mês passado descobriu que 2% dos professores colegiais tinham usado o Twitter em classe e quase a metade achou que afetava negativamente o aprendizado. Quando Derek Bruff, um professor de matemática e diretor assistente do Centro para Ensino na Universidade Vanderbilt, sugere que os professores experimentem os canais indiretos, "a maioria olha para mim como se eu viesse de outro planeta", ele disse.

"A opinião comum sobre o uso de laptops na aula", acrescentou Bruff, é que os estudantes os usam para se distrair, verificar e-mails ou comprar sapatos. Ele reconheceu que isso muitas vezes acontece, mas afirmou que os professores poderiam reduzir essa atividade dando aos alunos algo relacionado à aula para fazer em seus dispositivos móveis, que estão em toda parte e não vão desaparecer. Além do Twitter, os professores recorreram a outras plataformas como canais indiretos, algumas com mais estrutura e privacidade. A maioria é gratuita na web e não tem publicidade - até agora. O Google Moderator permite que uma classe digite perguntas e vote naquelas que gostaria de ver respondidas. Today’s Meet, a plataforma usada por Olson, cria uma "sala" virtual e não exige que os usuários estejam no Twitter.

A Universidade Purdue, em Indiana, desenvolveu seu próprio sistema de canal indireto, chamado Hot Seat, para uso em todas as classes, dois anos atrás, a um custo de US$ 84 mil. Ele permite que os alunos publiquem comentários e perguntas, que podem ser lidos em laptops ou smartphones ou projetados em um telão. Sugato Chakravarty, que faz palestras sobre finanças pessoais para públicos de 400 pessoas, faz pausas a cada dez minutos para responder às perguntas que foram "votadas" pelo público. Antes do Hot Seat, "eu não conseguia fazer as pessoas se manifestarem", disse Chakravarty. "Todo mundo fica intimidado." "Para mim está claro", ele acrescentou, "que se não fosse por esse tipo de interação na mídia social há coisas que os estudantes pensam e normalmente nunca diriam."

Mas a tecnologia demorou para conquistar os professores. Ela foi usada em apenas 12 cursos nesta primavera. Sandra Sydnor-Bousso, professora de gestão hoteleira e turismo, disse que o Hot Seat não combinou com seu estilo de caminhar pela classe para incentivar o diálogo. Ela também teme que exigir que os alunos tragam à escola equipamentos sem fio aumentaria o índice já elevado de e-mails sociais e de navegação no Facebook. "A última coisa que eu quero é dar a eles mais uma maneira de se distrair", ela disse. Nos colégios e escolas elementares, os professores tentam exercer um rígido controle dos canais indiretos, muitas vezes revisando uma transcrição depois da aula em busca de comentários inadequados. Até as escolas que incentivam os alunos a levar dispositivos móveis ou os oferecem para que participem de canais indiretos proíbem conversas durante aula.

Em Exira, outra cidade de Iowa, Kate Weber usa a tecnologia por curtos períodos quase diariamente com seus alunos da 4ª série. "Você poderia pensar que há muita distração, mas na realidade é o contrário", ela disse. "As crianças são muito mais rápidas nessas coisas que nós. Elas realmente podem fazer multitarefas. Suas mentes são em hipertexto." Durante uma sessão de leitura, ela lembra, uma história incluía a palavra "cauda". Usando um Macbook feito para escolas, "um aluno perguntou: 'O que é uma cauda?'", disse Weber. "Se eles tivessem lido isso individualmente, não teriam coragem para levantar a mão. Apenas seguiriam em frente. Mas outro aluno respondeu: 'É um rabo'. Toda a classe no canal indireto teve um momento de revelação."

"Estou maravilhada com a independência que eles adquiriram usando isso como meio de compreensão", acrescentou a professora. Os alunos da 11ª série da classe de Olson disseram que o canal indireto havia ampliado sua apreciação dos pensamentos e personalidades dos outros. "Todo mundo é escutado em nossa classe", disse Leah Postman, 17. Janae Smith, também 17, disse: "Ele me fez ver meus colegas como mais inteligentes, vendo seu processo de pensamento, e começo a entendê-los em um nível mais profundo". Na sexta-feira, sua professora continuou a desenvolver o tema de todo o semestre: qual o nível de liberdade de um indivíduo na sociedade? Além do poema que leram, os alunos assistiram a um vídeo no YouTube que compara quanta ajuda humanitária poderia ser comprada pelo custo de US$ 150 mil de um videoclipe.

No início da semana os alunos da escola haviam organizado uma manifestação em apoio às tropas americanas, reagindo aos piquetes que viram no noticiário armados pela Igreja Batista Westboro, do Kansas, em um funeral para um soldado de Iowa morto no Afeganistão. Olson pediu a seus alunos para relacionar "a discussão" do poema e o vídeo com seu próprio protesto. Enquanto a discussão girava na classe, um aluno digitou no canal indireto: "Tendemos a ter a atitude de que outra pessoa fará isso. Mas o que acontece se todo mundo pensar a mesma coisa?"

"Basta um indivíduo para mudar", digitou outro aluno. "Se você quer que alguma coisa mude, precisa estar disposto a ser essa voz." "Isso realmente mostra o impacto que uma mudança pode fazer", escreveu um terceiro aluno. "Eu concordo com Katie!", alguém adicionou. "Esta aula nos deu uma voz!" Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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