14/12/2005

Extensão: aproximando a universidade da comunidade

O que antes era considerado filantropia, hoje é de grande importância para as instituições de Ensino Superior.

Uma universidade, para ser considerada como tal, deve ter um tripé básico: Ensino, Pesquisa e Extensão. Os dois primeiros elementos são muito comentados e valorizados, mas, e a extensão? Durante muitos anos, a atividade extensionista universitária foi confundida com assistencialismo. Porém, nos últimos dez anos, essa realidade tem mudado e, cada vez mais, as instituições vêem a importância de possuir ações de extensão, já que são elas que colocam a universidade mais perto da comunidade. "A extensão consiste na disponibilização do que a universidade normalmente faz através dos seus corpos docente e discente para a comunidade", explica o pró-reitor de extensão da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), Paulo Sérgio Cavalcanti Costa.

No fim da década de 80, o Fórum de Pró-Reitores de Extensão definiu a atividade extensionista da seguinte maneira:
A Extensão Universitária é o processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade.

A Extensão é uma via de mão-dupla, com trânsito assegurado à comunidade acadêmica, que encontrará, na sociedade, a oportunidade de elaboração da praxis de um conhecimento acadêmico. No retorno à Universidade, docentes e discentes trarão um aprendizado que, submetido à reflexão teórica, será acrescido àquele conhecimento.

Esse fluxo, que estabelece a troca de saberes sistematizados, acadêmico e popular, terá como conseqüências a produção do conhecimento resultante do confronto com a realidade brasileira e regional, a democratização do conhecimento acadêmico e a participação efetiva da comunidade na atuação da Universidade. Além de instrumentalizadora deste processo dialético de teoria/prática, a Extensão é um trabalho interdisciplinar que favorece a visão integrada do social.

As ações de extensão de uma universidade são divididas em seis tipos, conforme padroniza o Fórum: programa, projeto, curso, evento, prestação de serviços e produção e publicação. Além disso, as áreas temáticas gerais das ações extensionistas também foram estabelecidas em oito: Comunicação, Cultura, Direitos Humanos, Educação, Meio Ambiente, Saúde, Tecnologia e Trabalho. Qualquer ação deve estar classificada em um desses macro-eixos.

O senso comum prega que extensão universitária tem a ver apenas com cursos livres. Este conceito, no entanto, está errado. A questão é muito mais ampla. "Tem sim a ver com a interação com a comunidade e também com a interação da própria ação de extensão dentro da universidade. A idéia de criar indissociabilidade é exatamente essa: gerar um conhecimento a partir da prática extensionista dentro do curso de graduação, por exemplo. Não é só fazer uma ação externa para a sociedade, é fazer com que a sociedade também se integre à universidade", comenta a assessora da pró-reitoria de extensão da PUC-Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), Tânia Cristina Teixeira.

O pró-reitor da UESB observa que extensão remete a uma universidade cidadã, porque muitos dos trabalhos que são sugeridos para análise da pró-reitoria são voltados para a inclusão social, reEducação ou alfabetização. "Com esses projetos, os professores saem um pouco da sala de aula e vão auxiliar a comunidade e promover o desenvolvimento social", afirma.

Assim, hoje se tem como princípio que, para a formação do "profissional cidadão", é imprescindível sua efetiva interação com a sociedade, seja para se situar historicamente, se identificar culturalmente ou referenciar sua formação técnica com os problemas que um dia terá de enfrentar. A extensão, entendida como prática acadêmica que interliga a universidade nas suas atividades de ensino e pesquisa com as demandas da maioria da população, possibilita a criação do "profissional cidadão" e se credencia cada vez mais como espaço privilegiado de produção do conhecimento significativo para a superação das desigualdades sociais existentes.

Valorização

A extensão vem se desenvolvendo e ganhando status a passos mais largos até do que a própria graduação e pós-graduação. Qualquer atividade que não esteja ligada à pesquisa ou à formação do aluno é considerada extensão. "O governo federal já vem, há três anos, colocando à disposição editais de extensão especificamente para que as universidades participem. Na UESB, que é um caso único entre as estaduais, é determinado no orçamento um montante de R$ 250 mil para que se possa auxiliar no desenvolvimento de projetos que são propostos pelos departamentos e setores da instituição", conta Costa.

Em primeiro lugar, a legislação estabelece, teoricamente, uma igualdade entre as funções básicas da universidade: ensino, pesquisa e extensão. Legalmente, constitucionalmente e teoricamente esses três eixos representam as funções nobres da universidade. Na prática, o ensino e a pesquisa sempre tiveram prioridade e a extensão ficou em segundo plano.

"Hoje, na verdade, se existe algo em que vale a pena ser valorizada nesse novo Ministério da Educação, é ter elevado a extensão à uma função nobre, porque hoje ela é cobrada sim", ressalta o presidente da CM Consultoria, Carlos Antonio Monteiro. "Se você pegar os novos manuais de avaliação institucional, vai verificar que hoje se cobra a atividade de extensão, com programas permanentes. É necessário, inclusive, que as instituições de ensino comprovem a existência de um fundo de apoio à extensão. Isso é uma exigência legal", reitera.

"Nos últimos cinco anos, o próprio CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) tem facilitado o acesso de financiamento para ações extensionistas, mudando o olhar que se tem da extensão, não só dentro da própria universidade como fora também. Ela está tendo o reconhecimento merecido", afirma Tânia.

O Fórum de Pró-reitores de Extensão sugere uma metodologia para que as universidades avaliem suas ações, com o intuito de mostrar à comunidade a responsabilidade social da instituição. A análise da extensão deve estar inserida na avaliação institucional das IES, integrada com as demais áreas do fazer acadêmico. Deve ser gerida pela instituição e fomentada pelas pró-reitorias ou órgãos similares. Entre outros pressupostos, a avaliação da extensão deve:

# demonstrar a qualidade do que se produz na extensão;
# abranger todas as ações da extensão;
# propiciar a credibilidade do que a extensão produz, no contexto interno e externo;
# ser contínua, processando-se no decorrer das atividades;
# ser qualitativa e quantitativa, realizada pela comunidade universitária e pela sociedade;
# ter seus resultados considerados no planejamento e na tomada de decisão das IES nas áreas de ensino, extensão e pesquisa.

(Fonte: Fórum de Pró-reitores de Extensão)

Já existem, ainda, outras propostas e métodos estabelecidos e amplamente utilizados por diversas instituições, mas não há uma iniciativa centralizada por parte do MEC. "Espero, é claro, que em tempo razoável, a própria estrutura de Educação do país possa criar também um sistema de avaliação. Seria importante porque é uma oportunidade para que a comunidade em geral fique sabendo quais são as universidades que estão realmente atuando, realizando, fazendo a sua parcela social e ela possa ficar mais visível para os futuros patrocinadores e parceiros. É interessante", afirma Costa.

Para se ter uma idéia da importância da extensão atualmente, a avaliação para credenciamento e recredenciamento dos centros universitários valoriza excepcionalmente a extensão. Para um Centro se constituir como tal, e se manter, ele precisa provar a excelência na graduação e atividades de extensão, não tanto na pesquisa e na pós-graduação.

"Quanto maior o compromisso da universidade com a comunidade na qual se situa, maior é o compromisso e a importância que a extensão tem. No nosso caso, estas atividades são a marca da Metodista, temos fortes programas de pós, mas aquilo que nos diferencia mesmo é este comprometimento. Somos uma universidade comunitária, não poderia ser diferente. Nas comunitárias, a tendência é ter uma valorização maior das ações extensionistas", afirma o coordenador do CEAD (Centro de Educação Continuada e a Distância) da Metodista (Universidade Metodista de São Paulo), Luciano Sathler.

Monteiro aponta que, de modo geral, as escolas não podem organizar seus programas de mudança e melhoria, apenas por causa do MEC. "O que o Ministério quer deve servir de parâmetro, mas as escolas de sucesso vão ser aquelas que fazem isso porque têm compromisso social com seus públicos interno e externo. Tenho que apresentar aquilo que faço, pensando na comunidade aonde atuo, não simplesmente transformar o relatório do MEC que é uma atividade ´meio` em uma atividade ´fim`. Isso é essencial", conclui o consultor.

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