24/01/2007

Estudantes de Manaus e "poeta da camisinha" juntam dinheiro para viajar a Nairobi

Por Daniel Merli, da Agência Brasil

Nairobi (Quênia) - João da Cruz Ramos Filho apresenta-se como o “poeta da camisinha'”, em alusão aos versos que publica em embalagens de preservativos. Com patrocínio de uma fábrica brasileira e apoio do Ministério da Saúde, ele usa o tempo que sobra do cargo na Justiça do Trabalho para distribuir gratuitamente as “camisinhas poéticas” nas ruas da cidade que escolheu para morar, Itajai, no litoral catarinense.

A arte, diz ele, permite que os preservativos sejam doados em qualquer local. “Hoje eu consigo distribuir poesia, quer dizer, preservativo, em qualquer lugar: restaurante, festival, faculdade, mercados”, conta. “Sem ela, infelizmente, ficaria muito difícil se eu chegasse num restaurante e puxasse uma camisinha para distribuir''.

Os poemas foram reunidos e publicados em um livro, “Fragmento Especial”. Mas, ao contrário da edição, Ramos Filho não conseguiu apoio financeiro para viajar ao 7º Fórum Social Mundial e distribuir as camisinhas na África, continente onde vive um terço das pessoas portadoras do vírus HIV em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Assim, o poeta pegou um empréstimo bancário para pagar, do próprio bolso, a viagem até Nairobi. ''Eu não podia perder a oportunidade de mostrar o meu trabalho para o mundo''.

Ramos Filho sentiu o esforço recompensado quando, na cerimônia de abertura do fórum, conseguiu fazer com que um de seus poemas chegasse até o mestre de cerimônias. A tradução para o inglês de "Água de Cacimba'" foi lida para o público, que, segundo o poeta, aplaudiu os versos "'Vem, Mãe África! Vem beber em minhas aguas, e desnudar de minhas entranhas, no emoldurado de um soluço".

Como o poeta, o casal de estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Rodrigo Rodrigues, de 18 anos, e Rosseline Tavares, de 24 anos, teve de juntar dinheiro para realizar o desejo de voltar a participar do fórum. "Manaus é muito distante de Porto Alegre [onde ocorreram a primeira, a segunda e a terceira edição] e não podemos pagar avião. Mas quando foi em Caracas [na Venezuela, onde foi feito o fórum no ano passado] conseguimos fechar um ônibus até lá", diz Tavares.

Para a edição africana, eles conseguiram um financiamento do governo estadual para uma parte da passagem. O restante foi coberto com doações de R$ 200 a R$ 3 mil de empresas amazonenses. A motivação era apresentar uma oficina da organização Antropologia e Cidadania na Amazônia, formada por três pessoas. Além dos dois estudantes da Ufam, Leila Thome, que é a orientadora de ambos na faculdade.

A oficina, que tinha como tema a antropologia no Amazonas, durou três horas e acabou virando um debate sobre relação Brasil-África e as perspectivas do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo os estudantes, a oficina teve participação de sete franceses, tres antropólogos moçambicanos, duas italianas e uma sindicalista goiania. "'O que a gente pensava que seria só uma explanação virou um debate, que foi muito legal", conta Rodrigues.

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