Espaço escolar dificulta prática de ensino não tradicional
Por Aline Moraes, da Agência USP
O espaço físico de escolas de ensino médio precisa ser revisto. De acordo com uma pesquisa realizada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, ele restringe a implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Criada em 1996, a legislação propõe um projeto pedagógico que vá além de lousa, giz e palestra do professor, a fim de preparar melhor o aluno para os desafios do mercado de trabalho.
"É possível implantar essas diretrizes no espaço atual, mas isso não é didático nem econômico quando se vai construir um novo edifício", explica Nancí Saraiva Moreira. A arquiteta desenvolveu um esquema de edifício escolar que pudesse, ao mesmo tempo, atender às mudanças propostas na LDB e ser economicamente viável de ser implantado, tanto para construir novos prédios quanto para adequar os já existentes.
Em seu mestrado e doutorado, ambos realizados na FAU, Nancí partiu de um ambiente setorizado baseado na sala de aula, "derivado de um modelo industrialista, muito antigo", para chegar num espaço mais integrado e melhor aproveitado, que dá condições para a realização de atividades diferenciadas. "As aulas ficam muito na teoria, fica monótono. O legal é ver o coelho saindo da cartola!", foi o que afirmou à pesquisadora um aluno de escola estadual.
Ao associar o que via nas escolas à teoria, Nancí percebeu que "o edifício que construíamos não estava de acordo com a LDB e dificultava a aplicação das propostas pedagógicas não vinculadas ao ensino tradicional". A arquiteta trabalha há 16 anos na Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), órgão executor das Políticas da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, e atua no setor de planejamento da rede física de escolas públicas. "Em muitas delas, o modelo pedagógico possui uma mentalidade menos tradicional, mas que ainda não está conectada ao espaço físico", aponta.
Quanto menos, melhor
A partir do esquema de edifício desenvolvido, que constitui um pré-programa de necessidades de edifícios escolares, Nancí colheu dados para sofisticá-lo, verificar sua viabilidade numa escola já existente e, assim, comprovar a necessidade de revisão do espaço. Foi aplicado um questionário - respondido por um total de 31 professores e 383 alunos - em duas escolas estaduais, localizadas em região de periferia, e duas particulares para se conhecer a sensação no espaço da escola, a maneira como ele é utilizado e o tempo de utilização. "A idéia era trabalhar com esses extremos para identificar a essência do que é preciso numa escola", explica a pesquisadora.
A "essência" encontrada mostra que não é necessário haver uma grande quantidade de salas de aula na escola, mas sim um espaço para aulas teóricas, que seja adequado à exposição e à fala (por exemplo, com boa acústica e equipamentos de projeção), e espaço para aulas práticas e para pesquisa. Essa constatação foi aplicada sobre o projeto do prédio da escola "C", estadual, para verificar a viabilidade da reestruturação do espaço de acordo com o esquema esboçado pela arquiteta.
Das 20 salas de aula, Nancí chegou a apenas 5 delas, próprias para aulas teóricas. O restante foi destinado à pesquisa e a laboratórios especializados. A pesquisadora deu ao mesmo espaço um uso mais lógico (não é preciso um número grande de salas, já que nem todas são usadas ao mesmo tempo) e sem necessidade de ampliação, pois ela conseguiu propor nova articulação dos ambientes numa área equivalente à metragem original do prédio. Além disso, a pesquisadora afirma que a implantação do projeto é economicamente viável. "Seu custo é o mesmo de uma reforma normal que é feita nas escolas".
O novo projeto está pronto e pode ser disponibilizado, mas a pesquisadora alerta que "o ideal é que sua aplicação inicial seja feita numa instituição de pequeno porte e que esteja atrelada a um projeto pedagógico moderno, de acordo com as propostas da LDB".