24/11/2006

Escolas usam até pH da água para ensinar cultura negra

Por Talita Bedinelli, do PNUD

Projetos de quatro escolas do Brasil recebem prêmio por usar métodos criativos na difusão da história africana e da situação dos negros.

Leitura de contos, aulas de música e artesanato, jogos e brincadeiras, análise do pH da água e medição do volume de cisternas. Esse conteúdo é parte de quatro projetos que poderiam ser considerados comuns, não fosse um fator distintivo: todas as atividades abordam a história e a cultura africanas. Elas foram desenvolvidas em instituições de ensino infantil, fundamental e médio de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul e premiadas pelo CEERT (Centro de Estudos das Relações do Trabalho e da Desigualdade), com o apoio do PNUD.

Os vencedores da terceira edição do prêmio "Educar para a Igualdade Racial" vão receber, cada um, R$ 9 mil. O objetivo é valorizar as ações promovidas por professores brasileiros e mapear no país as atividades com esse recorte. “A gente sabia da existência de professores que desenvolviam trabalhos com a temática racial, mas não sabíamos onde eles estavam nem o que era feito. Com a premiação, a gente passou a mapear os professores e a agrupar as 32 melhores experiências em um catálogo que é distribuído para as escolas brasileiras”, conta Júlia Rosemberg, coordenadora do prêmio.

Neste ano, 393 projetos de 23 Estados se inscreveram. Na primeira edição, em 2002, 210 trabalhos foram cadastrados e na segunda, em 2004, 314. O aumento no número de inscritos é um reflexo, na opinião da coordenadora, do crescimento da execução de trabalhos relacionados com a cultura racial nas escolas. “Com a Lei 10.639 de 2003, que impõe a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura negra na rede escolar, a produção de atividades e projetos em relação à temática racial foi de alguma forma impulsionada. Percebemos até mudanças na bibliografia usada pelas escolas”, afirma.

As quatro atividades vencedoras neste ano estão divididas em quatro categorias: educação infantil, educação fundamental 1 (de primeira a quarta série), educação fundamental 2 (de quinta a oitava) e ensino médio. Elas foram desenvolvidas entre 2003 e 2005. O processo de seleção foi feito por um grupo de especialistas em educação e relações raciais, de acordo com critérios que incluíam, entre outras coisas, a região em que foram aplicados, a cor do docente e a disciplina, com o objetivo de diversificar o grupo de premiados.

Na categoria educação infantil, o prêmio foi para o projeto “Griô: Contador de Histórias”, da Escola Creche Vovô Zezinho, de Salvador. Ele explorou elementos citados em contos africanos, lidos para os alunos, como a cor e a forma de sementes, as diferenças entre o corpo de meninos e meninas, as características de folhas da flora brasileira e a confecção de panos de retalhos de tecidos. Em ensino fundamental, o vencedor foi o projeto “Relações Étnico-Raciais, Diversidade e Cotidiano Escolar”, da Escola Municipal José Calil Ahouagi (de Juiz de Fora), que fez um trabalho interdisciplinar, envolvendo matérias como ciências, literatura e artes.

Em “O Bom do Brasil que Veio da África: as Capulanas, Nós e Nossas Famílias”, projeto vencedor da categoria “fundamental 2”, desenvolvido pela Escola Municipal de Ensino Fundamental Governador Ildo Meneghetti (Porto Alegre), os alunos estudaram os povos africanos e fizeram desenhos para estampar suas próprias capulanas — panos enrolados no corpo por mulheres africanas, em especial de Moçambique. O vencedor da categoria ensino médio foi o trabalho “Qualidade da Água em uma Comunidade Quilombola”, da Escola Monsenhor Antônio de Pádua Santos, de Afogados da Ingazeira (PE). Nele, os alunos analisaram o pH da água e o volume de sete cisternas de uma comunidade quilombola e realizaram uma campanha junto aos moradores sobre o uso consciente da água.

O prêmio foi entregue durante o IV Seminário Desafios das Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial , também organizado pelo CEERT, que aconteceu em 16 e 17 de novembro em São Paulo. Ele reuniu cerca de 600 participantes, entre educadores, coordenadores pedagógicos e representantes de órgãos governamentais e movimentos sociais. (PrimaPagina)

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