22/12/2005

Escolas gaúchas enfrentam falta de tecnologia

As escolas estaduais do Rio Grande do Sul estão sendo investigadas quanto à sua organização, instalações, equipamentos e parcerias com o objetivo de analisar o grau de inserção na dinâmica da sociedade da 3ª Revolução Industrial. O estudo é desenvolvido pela equipe da Rede de Pesquisa Formação, Trabalho e Organização (FTO), da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da PUC-RS. Dados preliminares indicam alta dissociação entre a escola e a realidade vivida pelos alunos, que é marcada pelo uso das novas tecnologias.

O planejamento e os fundamentos que orientam a gestão estão desarticulados da formação pedagógica, avalia a coordenadora da pesquisa, professora Julieta Desaulniers. Ela aponta uma visão ainda imediatista, que não abrange o processo global de mudanças.

Segundo a professora, o problema não é apenas a falta de equipamentos da geração da 2ª Revolução Industrial e o seu uso às vezes descontextualizado no processo formativo, mas também o baixíssimo índice de tecnologias que distinguem a 3ª Revolução Industrial, por meio das quais se ampliam as relações virtuais que eliminam as barreiras associadas a tempo e espaço, que permitem o acesso ao conhecimento produzido no mundo, à inteligência coletiva e cidadania planetária.

As novas tecnologias, alerta Julieta, são mediações e como tais condensam os códigos da era atual. Por isso, também imprescindíveis como instrumentos básicos em toda prática vivenciada pelos estudantes no âmbito da organização escolar. Pondera que as escolas estão empenhadas em desenvolver bem sua atribuição, mas esbarram em limites devido ao acúmulo de responsabilidades. Tecnologias não têm vida própria, pois são tão-somente mediações. A pesquisa privilegia a formação dos agentes, destaca.

O tipo de planejamento das coordenadorias e das direções da rede de ensino, além do tipo de relação que predomina entre professor e estudante na construção do conhecimento e formação de competências, constituem objetos da investigação. Os resultados preliminares apontam que os formadores sentem pouca autonomia na relação interpessoal com os alunos. Isso também é formação, adverte Julieta.

O professor foi privilegiado na pesquisa por ser quem mais tempo interage com o estudante. Foi levantado o conjunto de competências que constitui o seu perfil, com destaque para a disposição em utilizar as novas tecnologias em seu métier, abertura para a novidade e ao próprio lançamento de inovações, capacidade para enfrentar, resolver e se organizar frente a desafios, articulação de vários saberes e privilégio a atividades em equipe.

Foram utilizados instrumentos como ficha cadastral (dados de identificação da escola, corpo funcional e suas parcerias) e autodiagnósticos (indicadores relativos à gestão estratégica de competências e formação, e a formação associada ao saber cuidar de si, do outro e da natureza). O levantamento de dados se realizou por meio de censo, no âmbito da gerência administrativa, junto aos responsáveis pelas coordenadorias e direção das escolas, e por amostra, no âmbito da gerência pedagógica e da formação, considerando que nessa etapa da pesquisa foi privilegiada a educação básica (educação infantil e ensino fundamental).

O projeto obteve aprovação da Secretaria Estadual da Educação para o levantamento de dados. Das 2.682 escolas que receberam os instrumentos, 706 responderam. A pesquisa, financiada pela Fapergs, envolve bolsistas de iniciação científica de vários cursos, como Ciências Sociais, Direito e Comunicação Social. A partir da análise dos dados são apresentadas modalidades de intervenção, envolvendo os agentes, processos e recursos associados a fundamentos desta nova era para colaborar com a organização escolar. O que é a 3ª Revolução Industrial

Está caracterizada pela velocidade que impõe ao ritmo das mudanças, algo jamais experimentado na história da humanidade. As novas tecnologias da informação e da comunicação permeiam as relações sociais. A 3ª Revolução Industrial se baseia na biotecnologia, microeletrônica, computação, robótica, telecomunicações e produção sob encomenda. A 1ª Revolução ocorreu entre 1760 e 1850, quando o vapor passou a ser usado como fonte de energia de máquinas e locomotivas na Inglaterra. Isso deu impulso à produção de tecidos e outros produtos e agilizou o transporte. A 2ª Revolução gerou mudanças no sistema de industrialização, com o surgimento da eletricidade, a partir da segunda metade do século 19. Nesse período, firmaram-se as organizações sociais, como fábricas, sindicatos e escolas. Alguns autores consideram que a 3ª Revolução começou na década de 90.

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