Escolas de educação infantil não são suficientes
Por Cássia Gisele Ribeiro, do Aprendiz
Embora a educação seja um direito de todos, não há vagas suficientes para crianças com menos de cinco anos nos bancos escolares. Atualmente, apenas 12% das crianças de até três anos estão matriculadas em creches públicas por falta de espaço. Apesar desse número aumentar para 68% na educação infantil, as matrículas ainda são poucas se comparadas ao ensino fundamental, cujo índice é de 97%. Os dados estão presentes no Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb) 2005 e em pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
"Um dos passos mais importantes para a garantia dos direitos da infância é reconhecer as creches e as escolas de educação infantil não como depósito de crianças cujos pais trabalham, mas como um espaço de desenvolvimento no qual toda criança tem direito", afirma a professora de pós-graduação em psicologia escolar da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Claudia Davis.
"Precisamos pensar em estratégias dentro de uma realidade na qual 47% da renda está na mão de apenas 10% da população", diz Davis, destacando a importância de investir na educação pública e gratuita.
Para antropóloga e psicóloga Elvira de Souza Lima, a infância é um dos momentos mais propícios para o ser humano desenvolver sensibilidade, ética, respeito à diversidade, paciência e cooperação. "É com um professor estimulador e a convivência com outras crianças que a pessoa consegue formar esses valores, sem ter como base as atitudes e preconceitos dos adultos", diz.
Segundo Lima, é essencial que os educadores formulem um currículo que não seja marcado pelo excesso de conteúdos escolares, mas que trabalhe todos esses valores, geralmente colocados em segundo plano no ensino fundamental. "A educação infantil é o momento da vida escolar que mais propicia oportunidades de trabalhar com a música, as atividades corporais e os jogos. Se a escola anular essa possibilidade e partir antecipadamente para os conteúdos escolares, essa formação será prejudicada".
Lima lembra a importância das brincadeiras infantis na formação da personalidade do indivíduo. "A criança perdeu a rua como espaço de brincadeiras e, com ela, muita da sua possibilidade de brincar e resolver sozinha seus conflitos, sem tanta interferência dos pais", diz. "Hoje, viver a infância é um desafio para a criança".
Para a presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Cleuza Repulho, é importante que a sociedade não esqueça que é dever do Estado manter escola pública para todos, independente de muitos alunos, hoje, freqüentarem escolas particulares. "Partimos do princípio que quem procura a escola particular não precisa da escola pública, que é desvalorizada. Mas sabemos que muitos pais matriculam os filhos em escolas particulares porque não têm outra opção. Não há escola de educação infantil para todo mundo".
Repulho afirma que, nesse sentido, a substituição do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef) pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) - que atinge também a educação infantil e ensino médio -, já é um avanço.
Nesse mesmo raciocínio, Davis afirma que um dos maiores desafios é pensar estratégias para a garantia dos direitos da criança que não envolvam somente a infância em contextos de pobreza, mas a criança em todas as suas realidades. "Hoje ainda há um discurso que diz que apenas as mães que trabalham ou crianças em situação de risco devem ter atendimento e assistência, quando na verdade a sociedade é constituída por todos".
(Envolverde/Aprendiz)