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A Escola Indígena Utapinopona-Tuyuka, na Terra Indígena Alto Rio Negro, noroeste amazônico, em parceria com o Programa do Rio Negro do ISA, desenvolve o Projeto Paisagens Florestais no Alto Rio Tiquié. Duas oficinas realizadas em 2009, tiveram como tema a forma pela qual a floresta se recupera, depois de ser derrubada e queimada para fazer roças. Estes estudos consideraram o conhecimento indigena sobre as plantas em processos de restauração, partindo da caracterização de seus próprios sistemas locais de cultivo agrícola.
A idéia das oficinas é conhecer as plantas que predominam nestes ambientes, chamados de secundários ou capoeiras ou ainda wiariro na língua tuyuka. Essas são áreas que se formam após anos de derrubada e queima, são abandonadas, e onde a floresta volta a crescer. As oficinas ajudam a entender como as capoeiras são substituídas por árvores relacionadas aos estágios mais avançados da sucessão tornando-se aptas novamente ao uso agrícola. Participam das oficinas alunos e professores da escola, e conhecedores tuyuka, na região do Rio Tiquié. As atividades ontam com o apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), da Fundação Moore e dos Projetos Demonstrativos dos Povos Indígenas (PDPI/MMA).
Os povos indígenas dessa região praticam desde tempos remotos a técnica de derrubada e queima para transformar as florestas primárias em roças de mandioca, além de várias outras plantas cultivadas simultaneamente nesses espaços.
Restauração considera captura e fixação de carbono
Durante os levantamentos realizados em uma capoeira já restaurada, os participantes da oficina discutiram questões como o acúmulo de material orgânico nas florestas e sua importância para os ambientes amazônicos, onde existem regiões com solos pouco desenvolvidos e formados a partir de areias sedimentares. Esse material contribui para a disponibilizar nutrientes, necessários ao desenvolvimento das plantas.
Com o consultor e engenheiro florestal Marcus Schmidt e o agrônomo Pieter van der Veld, Programa Rio Negro do ISA, os alunos aproveitaram a oportunidade para discutir o papel da fotossíntese no desenvolvimento da floresta, o acúmulo de carbono orgânico e energia no sistema. Foi avaliado o processo inverso deste fenômeno, que consome todo este material orgânico acumulado no sistema florestal e que, neste caso, teria demorado mais de 40 anos para acontecer. A queima é o processo inverso, que seria desencadeado pelo uso do fogo, técnica utilizada com o manejo agrícola das “roças de coivara” ou por incêndios acidentais. Assim, tudo o que a fotossíntese proporcionaria em acúmulo de material orgânico, retendo os nutrientes nesta camada mais estável, a queima consumiria em dois ou três dias. Estas questões foram discutidas com todos, avaliando que o tempo necessário de descanso das roças estaria diretamente relacionado a este processo de acúmulo. “É assim que a natureza faz... a restauração procura reproduzir estes processos, porém num menor tempo...”, concluíram os assessores.
O tema voltou a ser discutido também em sala de aula, retomando as questões sobre a fotossíntese e a queima como processos que são antagônicos. Enquanto o primeiro fixaria o carbono orgânico no sistema, o segundo o devolveria em forma de gás carbônico para atmosfera. A técnica de restauração florestal deve considerar o retorno das funções ecológicas do sistema como um todo, incluindo a diversidade de recursos, as relações tróficas (interações inseto/planta e animal/planta), os nutrientes e a matéria orgânica. Só assim toda a energia perdida pelo uso excessivo dos recursos (roçar e queimar durante muitos anos sem deixar descansar o tempo necessário), será restaurada e o ambiente voltará a ser produtivo.
A discussão entrou no manejo das roças e capoeiras, depois da primeira derrubada de mata primária. O uso continuado da mesma área, com a derrubada e replantio por três ciclos seguidos, leva ao desgate acentuado do solo, conforme observado em algumas comunidades, como São Pedro antigo e igarapé Onça. Favorece ainda a proliferação de saúvas e a erosão do solo. O conhecedor tuyuka Guilherme Tenório relatou que antes as mulheres usavam as áreas de roça intensivamente, fazendo coivara e canteiros, o que esgotava mais o solo. Seu pai dizia que isso dificultava a recuperação da mata. Hoje há uma preocupação sobre isso em vista dos limites de áreas disponíveis, em razão de menor mobilidade das comunidades e crescimento populacional. Essa pesquisa poderá ser incorporada ao manejo contemporâneo que se faz das paisagens florestais.
Manejo agrícola Tuyuka enriquece capoeiras
Existem muitas espécies de árvores cultivadas nas roças, que caracterizam o sistema agrícola tuyuka e são importantes para a alimentação. Alguns exemplos são o cupuaçu (Theobroma grandiflorum), o abiu (Lucuma caimito), o açaí (Euterpe aleracea), o umari (Poraqueiba sericea), o cucura ou mapati (Pourouma cecropiifolia), o cacau (Theobroma cacau L.), a pupunha (Bactris gasipaes), o baraturi (Theobroma bicolor), o ipadu (Erythroxylum coca Lam. Var), o caju (Anacardium occidentale L), o ingá de metro (Inga edulis Mart.), o genipapo (Genipa americana L.) entre outras. São estas plantas que acabam influenciando decisivamente a fisionomia das florestas da região, juntamente com outras que apresentam diversos usos na cultura material destes povos. Trata-se de um sistema agroflorestal muito complexo,e é um modelo de uso sustentável das florestas desta região do noroeste amazônico.
Alunos inovam nos métodos de representar as capoeiras
Os assessores trabalharam com os alunos uma forma de colocar a floresta e as capoeiras no papel. A estratégia foi construir métodos de caracterização dos ambientes florestais utilizando técnicas para representar os diferentes estágios sucessionais. Os desenhos consideraram o conhecimento indígena sobre os recursos na dinâmica destes ambientes, que são por eles manejados.
O método empregado procurou representar algumas capoeiras com diferentes idades, desde as mais novas até as mais desenvolvidas, com estrutura típica de floresta. Os alunos representaram alguns estágios de desenvolvimento das capoeiras com desenhos ou diagramas de perfil estrutural, conforme a terminologia técnica. A representação das plantas considerou cores diferentes, o que possibilitou classificar estes recursos conforme seu grupo ecológico. Os desenhos possibilitaram análises de como as plantas de diferentes estágios sucessionais acabam se substituindo com o passar dos anos, predominando as plantas pioneiras nas fases iniciais e as secundárias ou primárias, que predominam nos estágios mais avançados.
Este tipo de informação é fundamental para entender os processos de dinâmica florestal, e de como estas plantas aparecem na formação em momentos diferentes no processo de restauração florestal. O método favoreceu o intercâmbio de conhecimento, entre a técnica indígena e não indígena, proporcionando análises que são fundamentais para compreender processos da restauração florestal. De outra forma, seriam demandados muitos anos em pesquisas sobre a ecologia destas plantas.
Com o apoio dos professores e do Sr. Paulino Lima, um dos conhecedores que participa do projeto como bolsista da Fapeam, todos os recursos identificados no sistema tuyuka foram caracterizados conforme seus próprios conhecimentos. Os alunos tiveram a liberdade de representar as capoeiras com desenhos esquemáticos. Plantas características da capoeira inicial receberam cores verdes, enquanto que as plantas que são relacionadas aos estágios mais estáveis, no final da sucessão, receberam cores azuladas. As plantas que são cultivadas nas roças foram representadas na cor vermelha, o que possibilitou uma análise diferenciada entre aquelas que são intencionalmente reproduzidas nos espaços agrícolas e as que se regeneram de maneira mais espontânea nas capoeiras iniciais. Isto tornou mais evidente o papel do manejo agrícola no desenvolvimento da floresta.
Cada recurso apresenta diferentes usos na cultura local. Além das características relacionadas com a dinâmica de sucessão, apareceram várias indicações sobre a importância para o manejo tuyuka, com usos relacionados à alimentação, à construção de casas, ao manejo da pesca, no artesanato e nos benzimentos. As relações tróficas com a fauna também ficaram evidentes, não apenas por representarem algum tipo de alimento, mas também pela importância destes animais na regeneração de alguns recursos. A condição de raridade ou abundância nas matas da região também foi analisada. Cada tipo de planta pode ocorrer em diferentes densidades na floresta, as mais abundantes são mais favoráveis ao uso sustentável, enquanto que as mais raras estariam mais sujeitas a uma super exploração, necessitando até o plantio nos ambientes que são mais favoráveis ao seu desenvolvimento.
Biodiversidade também é registrada
Alguns indicadores de biodiversidade local também puderam ser avaliados durante os levantamentos nas capoeiras. Os alunos foram orientados a registrar os animais que podiam ser vistos ou também ouvidos. Cerca de sete tipos de pássaros foram identificados pelos alunos e conhecedores durante o levantamento, além de alguns insetos e até um tipo de sapo. O método revelou informações acuradas sobre a dinâmica e diversidade de recursos, que serão importantes para a adoção de estratégias de manejo para estes ambientes.
Outras técnicas de caracterização das capoeiras estão sendo utilizadas, ainda em caráter experimental. Em uma delas, em estágio inicial, denominada em tuyuka de waya weori wiariro, os alunos fizeram uma análise quantitativa das plantas em uma parcela de 200 m². Todas as árvores e arbustos maiores de 10 cm de tronco foram identificados e mapeados na parcela. Suas dimensões também foram medidas, como as alturas e a área de copa. Resultados preliminares indicaram que 46,8% são cultivadas no sistema agrícola, enquanto que 53,2% são características de capoeiras novas e ocorrem de modo espontâneo. Algumas destas plantas apresentaram maior dominância, o que caracterizou uma maior importância relativa nesta fase inicial de recuperação da floresta.
Conhecimentos aplicados na restauração
Em duas localidades do Alto Rio Tiquié, algumas áreas de ocupação mais antiga vêm apresentando problemas de erosão muito relacionados às atividades agrícolas intensas. A baixa mobilidade das atuais comunidades que habitam a região, aliada à fragilidade destes solos, muito arenosos, pode estar contribuindo para isso. Em algumas capoeiras avaliadas, a regeneração natural teria sido interrompida, formando extensas áreas de clareiras que acabam ficando muito suscetíveis aos processos de erosão. Em alguns casos o manejo agrícola realizado pelas mulheres durante as atividades de colheita/limpeza e replantio das manivas, tem eliminado grande parte da regeneração que estaria se estabelecendo nestes ambientes iniciais, que são importantes para a recuperação das florestas.
A comunidade tuyuka do igarapé Onça possui algumas áreas degradadas que foram utilizadas para abertura de pastagens com incentivos de projetos da extinta Superintednência da Amazônia (Sudam), nos anos 1980. Situações extremas como esta podem ser encontradas em outras comunidades da região, e necessitam também ser recuperadas. Foram causadas por motivos semelhantes, entre os quais o desenvolvimento de projetos que não correspondiam à vocação florestal da região, além de certo distanciamento em relação aos sistemas tradicionais de produção de alimentos desses povos. “Precisamos ter cuidado com estes tipos de projetos que são pensados fora da nossa comunidade”, reconheceu João Bosco Azevedo Resende - Utadiata, professor da Escola Tuyuka da comunidade do igarapé Onça.
(Envolverde/Instituto SocioAmbiental) |