02/09/2009

Escola sem professores

Por Mario Osava *, da IPS

 

Barbacena (Minas Gerais), 31/08/2009 – A presença de reconhecidos músicos profissionais como professores e convidados de painéis, em lugar de professores acadêmicos, é a opção que oferece a Bituca Universidade de Música Popular, que pretende converter-se em referência de experimentação e qualidade. “Como nas corporações medievais, os aprendizes aprendem observando e trabalhando com seu mestre, espelhando-se nele”, diz a apresentação da escola fundada em 2004 na cidade de Barbacena, a 170 quilômetros de Belo Horizonte e a 280 quilômetros do Rio de Janeiro.

Definida como escola livre e gratuita, Bituca rechaça a rigidez, não exige nenhum nível de escolaridade nem fixa limites de idade, apenas talento. Candidatos de 7 a 77 anos de idade disputaram este ano as vagas disponíveis em seus cursos de nove instrumentos e canto, que duram dois anos e podem ser prolongados de acordo com a avaliação escolar ou do próprio aprendiz. O ser humano “aprende primeiro a falar, depois a escrever”, disse Pablo Bertola, violonista, compositor e ator do Grupo Ponto de Partida (GPP) criado por Bituca, ao destacar a primazia da prática no ensino musical.

Trata-se da aplicação do Método Kodály, baseado nas ideias do compositor e educador húngaro Zoltán Kodály, que entende o ensino musical a partir da percepção sensorial, do canto e do improviso para depois passar à teoria, priorizando a música folclórica e de raiz local, mais próxima da linguagem das pessoas. Bertola, prolífico compositor de 24 anos, enfatiza sua incompatibilidade com a universidade convencional. Suas paixões são a música popular e o violão, e nenhuma delas se ensina nos cursos da principal universidade pública mais próxima. Mas dali tampouco saíram músicos conhecidos, ressalta.

Por outro lado, em seus cinco anos de existência, Bituca já comprovou sua excelência. Dos seis premiados este ano no concurso Jovem Instrumentista, do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), três são de Bituca, resultado que reitera o de 2008. cerca de 2.700 candidatos de muitas cidades brasileiras inscrevem-se nos três processos bianuais de seleção de estudantes. Em geral são oferecidas cem vagas, mas é aceito um número maior de aprendizes. Este ano foram 137.

Sementes

Um dos premiados do BDMG como Jovem Instrumentista é Yuri Hunas, de 21 anos, formado em percussão na Bituca. Na realidade, ele foi uma das razões do nascimento desta universidade livre. Yuri e Renato Marques chegaram há seis anos de Araçuaí, a 15 horas de ônibus por estradas mal conservadas, para fazer o curso de formação teatral do GPP em Barbacena. Ambos eram cantores-atores do coro Meminos de Araçuaí, capacitado pelo GPP, e que teve grande êxito em suas apresentações por numerosas cidades brasileiras e inclusive em Paris, em 2005. Desde criança, Yuri revelava seu desejo de ser tamborileiro, o que marca o ritmo em numerosas manifestações musicais de sua cidade.

O talento musical de Yuri e Renato estimulou o grupo teatral a criar Bituca. Negar-lhes a oportunidade de estudar música equivalia a “perdê-los” par ao trabalho braçal de cortar cana-de-açúcar no Estado de São Paulo, atividade que constitui a maior fonte de emprego dos araçuisenses. A Universidade de Música Popular, que ocupa um velho casarão de 1919, parte de uma extinta fábrica de seda natural na periferia de Barbacena, somou o nome de seu padrinho, o cantor e compositor Milton Nascimento, grande referência musical de Minas Gerais desde a década de 60. Bituca é como seus amigos o chamam.

Outro menino de Araçuaí, Pitágoras Silveira, já havia impressionado Milton Nascimento por seu talento inato para o piano, que descobriu aos 11 anos, quando teve acesso pela primeira vez ao instrumento. O potencial musical dos meninos de Araçuaí era conhecido do cantor, que já participara com eles de alguns espetáculos produzidos pelo GPP, como “Ser Minas tão Gerais”, que apresentaram em Paris. Cinco meninos do coral de Araçuaí frequentaram os primeiros cursos de Bituca e para isso se alojaram em uma casa destinada a eles. A mãe de Yuri, Irene Hunas, ex-camponesa, trabalhadora doméstica e divorciada sem outros filhos, mudou-se para Barbacena para cuidar dessa casa e das crianças durante os últimos cinco anos.

“Yuri lia muito, a ponto de me preocupar porque não saí de casa” contou Irene à IPS. De regresso a Araçuaí desde janeiro, ela lamenta viver longe do filho, que se mudou para Belo Horizonte, a 680 quilômetros de distância, agora por razões profissionais. O novo musico ganhou como prêmio do BDMG uma bolsa de seis meses para se aperfeiçoar junto a percussionistas consagrados. Depois deverá formar com outros premiados uma banda para apresentações regulares. Renato Marques formou-se como baixista estudando quatro anos em Bituca, mas “é um músico completo” que também domina outros instrumentos, além de harmonia e do Método Kodály, segundo a diretora do GPP, Regina Bertola. Renato escolheu a cidade de São Paulo para seguir sua carreira profissional, porque ali já vivem quatro de seus sete irmãos, que fugiram do desemprego de Araçuaí, mas sem se sujeitarem a cortar cana.

Formação humana e ética

O fato de contar com excelentes músicos como professores tem a vantagem de “nos estimular a estudarmos mais, porque queremos ser iguais a eles”, disse Renato. São exemplos, mais do que professores. Para Yuri, mais importante do que a formação artística que recebeu em Bituda e no coral dos Meninos de Araçuaí, foi a “formação humana”. Para todos, inclusive, os que não seguiram uma carreira artística, “resta a ética” que se aprende melhor no esforço coletivo exigido pelas artes do que na escola, afirmou. O encontro dos meninos de Araçuaí com o GPP, que abriu horizontes inimagináveis para sua vida e a de muitos companheiros, “é inexplicável, sagrado, porque não foi planejado”, acrescentou Renato.

É “um desígnio divino” para a diretora do GPP, mãe de Pablo Bertola e líder de todo o processo. Bituca, a criatura, se fez maior do que seu criador, o grupo teatral que fundo em 1980 com seu marido Ivanée Bertola, já falecido. Dos 20 atores que compunham o GPP, Regina passou a ter mais de 200 pessoas sob sua administração, o que dificulta retomar sua vocação original de dramaturga, disse dividida entre o lamento e a comemoração.


PITÁGORAS

“Fomos à casa de Milton para dar uma entrevista. Depois ele tocou uma canção no piano, e sua produtora cantava. Era uma canção bonita, mas não a conhecia. Admirei o instrumento e a forma como ele tocava. Foi a primeira vez que vi um piano. Me pareceu gigantesco, eu ainda era pequeno, com 11 anos de idade. Ele terminou de tocar, e ao sair disse ‘se quiserem brincar vão em frente’. Os meninos ficaram muito tímidos, mas fui ao piano e comecei a tocar algo de ouvido. Havia olhado com atenção suas mãos e consegui fazer um som limpo, um acordo. Milton voltou-se e se aproximou. Me assustei, pensei que vinha me repreender. Mas ele me perguntou: ‘onde aprendeu a tocar isto?’, respondi: que nunca havia visto isto, é a primeira vez que ponho as mãos em um piano. Ele disse que eu devia estudar piano, e um tempo depois me presenteou com um teclado. Então, comecei junto com Bituca”.

Pitágoras Rodrigues Silveira conta dessa forma o encontro que decidiu seu destino. Três anos depois, iniciou os estudos de piano no grupo inaugural da Bituca Universidade de Música Popular, onde hoje, aos 19 anos, ajuda a formar novos músicos, como monitor. Bituca é o apelido de Milton Nascimento, um dos cantores e compositores que renovaram a música brasileira nos anos 60 e ainda são líderes culturais criativos, como o agora novelista Chico Buarque; Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura (2003-2008), e Caetano Veloso. IPS/Envolverde


* O projeto que deu origem a este trabalho foi ganhador das Bolsas AVINA de Investigação Jornalística. A Fundação AVINA e a Casa Daros, parceira na categoria Arte e Sociedade, não são responsáveis pelos conceitos,opiniões e outros aspectos de seu conteúdo.


(Envolverde/IPS)
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