"Escola não é uma ilha isolada"
Por Mariana Albanese, do Aprendiz
No início da década de 1980, o desemprego entre os metalúrgicos da zona sul da cidade de São Paulo (SP) cresceu. Diante da situação, mães precisaram sair para trabalhar. Sem ter com quem deixar os filhos, pois parte dos maridos, vítimas da baixa auto-estima, passava boa parte do tempo nos bares, somada a outros fatores, a violência na região aumentou.
A rápida reconstituição é da diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Oliveira Viana, Jucileide Mauger. A escola está localizada no Jardim Ângela, extremo da zona sul paulistana, bairro que em 1996 foi considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o mais violento do mundo. A diretora falou sobre suas experiências durante o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, que ocorreu na semana passada, na capital paulista.
Atuando há 28 anos na instituição, Jucileide assumiu a escola como diretora em 1992 e o quadro era desanimador. A diretora lembrou casos em que corpos eram deixados na porta da instituição, dias nos quais alunos destruíram a sala dos professores, rasgaram diários de classe, quebraram vidros e até defecaram em cima das mesas. No ano em que recebeu o título de mais violenta do mundo, a região registrava com uma taxa de homicídios de 98 por 100 mil habitantes.
A educadora chegou cheia de sonhos e, ao se deparar com a situação, pesou as possibilidades: “ou eu vou embora daqui, ou dou um jeito nisso”. Optou por ficar.
Para tentar ajudar a modificar a situação, a estratégia foi levar a comunidade para dentro da escola, a partir da visão de que ela “não é uma ilha isolada”.
Dessa forma, Jucileide começou a realizar eventos, como um baile de rap aos sábados. “Na semana em que tinha baile, ninguém morria”, lembrou. Aulas de astronomia, fanfarra para animar as festas e até mesmo casamentos começaram a levar pais e vizinhos para dentro da escola, que tem mais de dois mil alunos e funciona em quatro turnos.
Caso de polícia
Segundo a diretora, o maior problema é a violência. Alunos envolvidos com tráfico de drogas e outros delitos costumam ser jurados de morte e carregam para a aula suas armas. “Escondi muito menino da Rota (grupo de patrulhamento da Polícia Militar de SP)”. Para isso, Jucileide tentava argumentar com os policiais: “que eu saiba, não tem nenhum bandido aqui. Eu só tenho alunos”. A educadora é contra a polícia dentro da escola, exceto quando o objetivo é educar. “As pessoas são passíveis de mudança”.
Por acreditar nisso, Jucileide chamou todos os jovens em situação de risco para estudarem na escola. “Todo bandido do bairro que ia matar, que matou e que ia morrer foi estudar”. Para isso, a diretora fez um acordo. “Vocês têm que dar uma força para gente”. Na maioria dos casos, deu certo. Alguns morreram, outros saíram da escola, mas muitos se formaram e dão orgulho à professora quando levam seus filhos para ela conhecer.
Dentro da preocupação em levar a comunidade para ser parte integrante da escola, a conservação do ambiente é um elemento importante. Em 2005, a escola foi reformada e logo depois pichada. “Não tive dúvidas. Fui atrás de um por um. Tirei menino da cama”. Ju, como gosta de ser chamada, pegou os jovens e com eles grafitou as paredes com reproduções de obras clássicas, porque “aí ninguém ia destruir o próprio trabalho”. Mais uma vez, o resultado foi positivo.
Na “base do amor” ela continua a batalha. Muitas vezes rejeitou propostas de universidades, como a Universidade de São Paulo (USP), que desejavam realizar projetos. “Eles vêm com aquelas teorias de gabinete e não querem saber o que é adequado à realidade”.
Hoje, trabalhos como o de Jucileide e de outros agentes locais, públicos e privados, ajudaram a melhorar as condições de vida no Jardim Ângela. Segundo o Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), entre 2000 e 2004, a taxa de homicídios caiu 45% na região. Se o período considerado for entre 1991 e 2005, a queda chega a 75%.
“Não tem decepção maior do que você fazer tudo por uma pessoa e fracassar. Educar é acreditar na mudança do ser humano”, concluiu.
(Envolverde/Aprendiz)