17/10/2006

Escola deve estar atenta para perceber alunos com aptidões desenvolvidas

A cena é muito comum. Em praticamente toda sala de aula há sempre algum aluno que se destaca em uma disciplina ou até mesmo em todas elas. E muitas vezes o professor tem dificuldades para conduzir as atividades a contento de todos. Isso porque cuidados especiais são necessários aos alunos com essas aptidões mais desenvolvidas, pois um programa de ensino muito fácil pode causar desinteresse e aborrecimento em meninos e meninas com facilidade de aprendizado em determinadas áreas. Apresentar desafios e incluir o aluno na aula são, segundo especialistas, algumas formas de manter a atenção desse grupo no aprendizado.

Mariana Moro Bittencourt Erthal, 12 anos, aluna na 6.ª série do Colégio Atuação, em Curitiba, afirma que desde pequena vive cercada de números e cálculos. “Na primeira série eu já sentia essa facilidade com a matemática. A uso para tudo. Sempre que posso fazer uma conta eu tento. Quando a conta do mercado não é muito grande, tento adivinhar antes de chegar ao caixa. No restaurante tenho uma brincadeira com meu pai, de tentar calcular antes dele o valor da conta”, diz Mariana.

O médico neurocirurgião do Hospital de Clínicas da UFPR, Sérgio Antoniuk, chama atenção para os cuidados necessários com a educação de crianças com aptidões desenvolvidas em determinadas áreas. “Algumas aptidões só ajudam no desenvolvimento da criança. A escola deve, no entanto, realizar programas específicos para ela, e evitar, com isso, problemas comportamentais de alunos que se aborrecem com um programa muito fácil”, afirma.

A professora de Matemática Rosane Wendler diz que cabe ao professor a função de mediador dentro do processo de ensino aprendizagem. “Ele deve se preocupar com a turma como um todo e com o conhecimento de cada aluno. Se determinado aluno tem maior potencialidade, outras habilidades de conhecimentos e de raciocínio lógico devem ser desenvolvidas, para gerar motivação. O professor pode apresentar ao aluno desafios matemáticos, compartilhar respostas com ele e criar um vínculo de amizade”, diz.

Mariana conta que muitas vezes sente que podia resolver mais exercícios em sala. “Tem horas que me estresso na aula, pois muita gente tem dificuldade na matéria e a aula fica parada, pois a professora precisar dar atenção aos alunos. Ela já sabe que tenho um ritmo diferente e me fala que às vezes fico empolgada demais e não deixo os outros fazerem os exercícios”, diz Mariana.

Rosane acredita que delegar responsabilidades dentro da aula para esse aluno com ritmo diferente é uma forma de manter sua atenção na matéria. “Tornar esse aluno monitor, para ajudar os colegas com dificuldade o torna mais interessado. Sem contar que às vezes a linguagem de aluno para aluno é mais fácil”, aconselha.

Curiosamente, Mariana vai na contramão de um estudo desenvolvido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Segundo o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (Pisa), realizado em 42 países, os alunos do sexo masculino tiveram média melhor no estudo da matemática em 33 países, e no topo da lista está o Brasil. Normalmente as meninas não se saem bem na disciplina.

O médico Sérgio Antoniuk afirma que existem fatores fisiológicos que favorecem os garotos durante o aprendizado da matemática. “O hemisfério cerebral dominante, que geralmente é o esquerdo, é mais desenvolvido nos meninos. Este hemisfério é responsável pela lógica e pelos códigos. Os meninos apresentam melhor desenvolvimento das áreas espaciais, localização e imagem visual. O menino é mais ativo, se interessa por atividades como jogos e atividades físicas. A matemática é mais prática, mais atraente, mais palpável”, afirma Antoniuk.

Em contrapartida, durante provas de leitura do Pisa, o efeito é diferente. Em todos os 42 países avaliados, as meninas obtiveram médias superiores. “As meninas apresentam melhor desenvolvimento da área da linguagem, na leitura e na escrita. Exames que utilizam aparelhos de imagens para analisar o funcionamento do cérebro, mostram que as áreas responsáveis pela linguagem são mais desenvolvidas nas meninas: são maiores e mais funcionantes”, completa o neurocirurgião.

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