Escola de Hereges: O Conhecimento como Prática da Liberdade
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
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O conhecimento dá o poder de fazer as próprias escolhas, sendo a pedra angular da autonomia que permite transformar a realidade pelo simples pensar balizado pelo discernimento — o que só ocorre quando o aluno não se sente imobilizado ou manipulado pelo medo.
O conhecimento é algo perigoso, principalmente quando o sistema impõe a alienação para uma melhor manipulação. Os gregos já sabiam disso quando instigavam o pensamento racional pelo viés da filosofia e da ciência, refutando explicações místicas e buscando mais racionalidade e lógica. Isso fazia com que os pensadores tivessem liberdade de escolha e trilhassem os próprios caminhos, livres de manipulação, tendo como norte a dúvida e a busca pelo conhecimento libertador.
Essa liberdade de escolha era representada por uma única palavra que, em sua etimologia original, denominava-se hairetikós, com o significado literal de “aquele que é capaz de escolher”. Se fizermos uma analogia com as nossas escolas, caberia a elas formar o maior número de hereges possível; isto é, crianças preparadas para pensar, que não aceitam dogmas e respostas prontas, mas que sejam questionadoras. Assim, elas podem buscar o conhecimento e, mediante o discernimento, fazer análises, direcionando suas escolhas conscientes para o seu crescimento e bem-estar.
Dito isso, “aquele que é capaz de escolher” é um hairetikós, ou seja, um herege que segue o livre-arbítrio ou um pensamento próprio. Todavia, foi no século II que o combate teológico ao herege começou a germinar. Por volta de 180 d.C., o influente bispo Ireneu de Lyon escreveu uma obra intitulada “Contra as Heresias”, que foi o marco para que a palavra ganhasse uma conotação ruim no sentido espiritual. Afinal, para os líderes da Igreja, a verdade era uma só, e quem fazia escolhas diferentes das impostas por ela era considerado um herege e um perigo, já que dividia a comunidade espalhando “mentiras”. Como consequência, esse indivíduo era expulso da comunidade religiosa, ato conhecido como excomunhão.
O tempo passou e, no século IV, com Roma se convertendo ao cristianismo e por uma demanda de unidade política, o imperador Constantino criou um padrão de crença oficial (o Credo) por meio do Concílio de Niceia, no ano de 325. Quem discordasse dele seria considerado herege. Em 380, o imperador Teodósio, por meio do decreto conhecido como Édito de Tessalônica, usou a palavra herege para classificar essas pessoas como “loucas e insensatas” que carregavam consigo a infâmia. Isso transformou a dissidência em crime de Estado, punido com exílio, confisco de bens e, em muitos casos, a pena de morte.
A situação agravou-se na Idade Média, a partir do século XII, quando, para combater as pessoas que pensavam por si mesmas (consideradas hereges), criaram-se os tribunais da Inquisição. Estes executaram entre 3.000 e 5.000 pessoas. Naturalmente, o mito de que a Igreja teria executado milhões de pessoas está ligado a uma manipulação política e religiosa posterior, movida por nações protestantes e iluministas para deslegitimar as potências católicas, como Espanha e Portugal, e essa divulgação do que hoje seria considerado fakenews ficou conhecido como “Lenda Negra”.
Assim sendo, cabe à escola desenvolver, em seu âmbito, o maior número de hereges na sua origem etimológica, para que os seus cidadãos não se deixem manipular pela teologia do domínio.